Discografia

24.02.12 17:30

Pra Começar: Roberto Carlos

Por: Marcos Sampaio | Comentários: Comente

Recentemente, correu pelos noticiários culturais brasileiros a surpreendente notícia de que Louco Por Você, o primeiro disco de Roberto Carlos, estaria disponível no site do ITunes. O motivo do alarde é que este disco nunca foi reconhecido pelo Rei com algo digno de relançamento em formato nenhum. Nem cantar este repertório em shows ele fez ao longo destes 50 anos de carreira. Alegando que a qualidade da gravação ficou ruim, Roberto mandou retirar o disco do site e ainda desmentiu a história de que iria relança-lo em edição remasterizada.

Lançado em 1961, o disco Louco Por Você tem um pé nos boleros e outro num roquezinho mais ingênuo do que viria a ser a Jovem Guarda anos depois. Ao longo de 12 faixas, a mão de Carlos Imperial se faz presente na produção e nas composições. Sem nenhuma composição de Roberto (que dirá da célebre parceria com Erasmo Carlos), o disco lembra aqueles momentos sem graça de outro ídolo do rock, o Elvis Presley. Mais ainda por conta das presenças do baixo acústico, dos vocais de repetição e das versões para músicas em inglês.

Apesar de se mostrar a anos luz em qualidade se comparado aos grandes momentos da carreira do Rei, Louco Por Você guarda uma simpatia atraente para os fãs. Por isso mesmo trata-se de um dos trabalhos brasileiros mais procurados em sebos. Entre os destaques dessa estreia está o roquinho Mr. Sandman, de Pat Ballard lançado em 1954 pelo grupo The Chordettes. O clássico Cry me a river virou Chore por mim, numa versão bem fiel à original feita por Julio Nagib.

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Pra quem não sabe, Roberto Carlos começou a carreira de cantor como um imitador impecável do mestre João Gilberto. Dessa herança bossanovista, Louco Por Você traz Ser bem e Se Você Gostou, ambas de Imperial. Ao ter a última faixa, a conservadora Eternamente (com direito a um “qüestões”), uma explicação fica clara de por que Roberto Carlos não quer nem ver esse seu disco nas lojas: é por que é ruim mesmo. Repito, vale pela curiosidade de ver um ídolo ainda dando seus primeiros passos. Fora isso, Louco por você está longe de ser um trabalho que passe na avaliação criteriosa do Rei Roberto.

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23.02.12 11:40

Elymar Santos conta sua história no show Assim somos nós

Por: Marcos Sampaio | Comentários: Comente

Dono de uma privilegiada voz de tenor, Elymar Santos sempre teve seu nome ligado a um repertório de tons exageradamente cafona. Mesmo em momentos mais felizes do seu canto, o estilo kitsch nunca lhe abandonou por completo. Mesmo assim, ele trilhou uma carreira sólida que começou numa ousada jogada de mestre. Em 1986, depois de anos cantando em bares e restaurantes, ele, um desconhecido do mainstream com uma boa carta de fãs, decidiu alugar o nobre palco do Canecão para uma única noite. Era 30 de outubro e no dia seguinte ninguém menos que Maria Bethânia subiria no mesmo palco. O resultado da empreitada foi um passaporte carimbado para o sucesso popular. O espetáculo batizado Assim somos nós virou CD editado pela finada Arca Som e que agora volta às lojas pelo selo Discobertas. O repertório do espetáculo vai do óbvio a momentos curiosos, como uma versão rock para Mabembe (Chico Buarque). Para exibir a boa voz citada no início deste post, Corsário é um momento luminoso, apesar de ser uma canção sempre usada por artistas que querem mostrar o poderio do seu gogó. O blues cabaré Vários casos é uma boa composição de Eduardo Dusek feita sob medida para a voz clara e límpida do intérprete. que parece ter sido feito por Um escorregão acontece em Yolanda, também de Chico, quanto Elymar troca “caudalosa” por “cautelosa”. Da sua porção compositora, o artista apresenta Lucidez e Loucura, Assim somos nós e Cachaça, todas com forte acento kitsch. As duas últimas, inclusive, são reapresentadas em versão estúdio (junto com Coração) tirada de um compacto lançado naquele mesmo 1986. Se o relançamento não vai tirar a pecha brega que grudou forte em Elymar Santos, é certamente uma homenagem merecida a um cantor que venceu o ostracismo com coragem e muito trabalho.

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27.01.12 17:00

Pra Começar: Vanguart

Por: Marcos Sampaio | Comentários: Comente

Foi como um susto. Conheci o som do Vanguart meio que pora acaso, quando vi a revista Outracoisa encalhada na banca. Levei pra casa por conta do preço baixo e por que vinha o disco de um banda que nunca tinha ouvido falar. Na falta de coisa melhor pra fazer numa sexta à noite, comprei e fui ouvir. Muito bom, pra ser econômico. Semáforo, a música de abertura, é um dos melhores singles de 2007, enérgico, grudento e empolgante. Os mesmos adjetivos podem ser empregados em Hey Yo, Silver. O principal compositor, violonista, vocalista e gaitista (ufa!) Hélio Flanders tem uma voz cheia de personalidade, entre Bob Dylan e neil Young, e é também um compositor inspirado. Isso fica claro na obra prima pós-adolescente Enquanto isso na lanchonete, uma espécia de Eduardo e Mônica moderno. No disco inaugural, que trazia apenas o nome da banda sobre uma foto escura tirada num parque, a ideia de revelar uma personalidade ficou clara na mistura de Bob Dylan (pelo folk), Neil Young (pelo rock) e Capital Inicial (pelo pop). Pra dificultar a coisa, o disco traz faixas em português, inglês e espanhol. Das internacionais, o destaque fica pra a adoce The last time I saw you, folk apaixonado narrando passo a passo as idas e vindas de um casal. Formado em Cuiabá, Mato Grosso, o Vanguart é formado por David Dafré (guitarra), Reginaldo Lincoln (baixo), Luiz Lazzaroto (teclado) e Douglas Godoy (bateria), além de Hélio. Com um som coeso e cheio de personalidade, eles dispensam estrelismos pra fazer um disco bem tocado, composto e cantado, como poucos conseguem na estreia. Just to see your blue eyes see, por exemplo, mostra bem o que pode cada um deles. Mesmo em momentos mais pretenciosos, como Antes que eu me esqueça, eles mostram um som acima da média do underground nacional. Ainda pouco conhecidos, eles regravaram esse repertório no projeto ao vivo lançado em 2008 em CD e DVD com o carimbo do canal Multishow. Este foi o segundo disco deles, ainda prematuro, é certo, mas vale pelo registro de um grupo em ascenção que ainda vai dar muito o que falar.

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21.11.11 11:08

Um passeio com Pacífico Mascarenhas

Por: Marcos Sampaio | Comentários: Comente

Característica comum da nova produção musical brasileira, os trabalhos independentes viraram sinônimos de modernidade, arrojo e frescor. O pouca gente está interessada em saber é que o primeiro disco independente do Brasil completa 53 anos em 2011. De presente ganhou sua primeira edição em CD pelo selo Discobertas. Um Passeio Musical foi bancado pelo compositor Pacífico Mascarenhas para reunir 14 composições próprias. Em clima de baile dançante, as canções, até então inéditas, agregaram um quarteto de músicos de Belo Horizonte, terra de Pacífico. Alvarenga no baixo e Dario na bateria fizeram a cama para o pianista Paulo Modesto e o cantor (e estudante de odontologia) Gilberto Santana. Os créditos da capa foram dados a Paulinho e seu Conjunto. Como a aventura poderia dar com os burros n’água, os dois últimos preferiram assinar o trabalho com um pseudônimo. O burros não tiveram tal destino e o resultado ficou pra lá de chic. Ainda assim foram produzidas apenas 880 cópia de Um Passeio Musical, que foram distribuídas para algumas rádios. Duas curiosidades: um certo baiano chamado João Gilberto combinou de tocar no disco, mas acabou não aparecendo. Outra: depois deste disco, Pacífico Mascarenhas montou o grupo Sambacana que contava com um crooner de luxo, porém ainda desconhecido, chamado Milton Nascimento. Ou seja, sem querer pra si o título de visionário, Pacífico Mascarenhas adiantou o que viria a ser moda entre novos artistas e ainda entrou pra história como o cara que lançou a maior voz das Minas Gerais. É muita coisa pra um alguém só.

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12.08.11 16:49

Aniversariante da semana, Fafá de Belém abre a série Pra Começar

Por: Marcos Sampaio | Comentários: Comente

Maria de Fátima Palha de Figueiredo completou na última terça-feira (9) seus 55 anos. Dona de uma voz poderosa e de dotes físicos marcantes, ela entrou para a música brasileira com o nome que reúne seu nome de batismo e sua terra natal: Fafá de Belém. Como forma de homenageá-la o blog DISCOGRAFIA abre hoje um projeto antigo. Trata-se da série Pra começar, que vai relembrar os discos de estreias de grandes artistas.

No caso de Fafá, sua estreia veio em 1976 com o ótimo Tamba-Tajá. Pra quem conheceu a cantora após os anos 80, tem na lembrança uma sequencia de sucessos populares em tons românticos exagerados. Pior, há quem a conheça por lambadas, bregas e sertanejos. Sem querer ofender os admiradores desses estilos, mas, certamente, não são eles que melhor representam a paraense. Isso pode ficar comprovado logo na primeira audição de Tambá-Tajá. Produzido pelo mesmo Roberto Santana que a incentivou no início da carreira, o disco traz 13 canções amarradas por uma proposta de valorizar ritmos e compositores do norte e nordeste brasileiro. Isso bem antes de ela apresentar seu sucesso Vermelho para o mundo. O conceito do disco já vem resumido na capa de Aldo Luís, que fotografa Fafá em meio à mata, como uma índia. Logo na abertura, Indauê-Tupã joga uma batucada pura sobre uma letra quebrada de mensagens rápidas. Na sequência, a canção-título é uma toada de Waldemar Henrique que ilustra o conceito do trabalho. No verso, do LP Fafá assina um texto explicando a lenda do Tamba-Tajá, uma árvore amazônica de folhas macias “muito festejada pelos nativos, não apenas por sua graça e feminilidade mas, principalmente, por seus mistérios e segredos”. Mantendo as coisas na parte de cima do Brasil, Fafá acrescenta, com muita propriedade o forró buliçoso Xamego (Luiz Gonzaga e Miguel Lima) e a lânguida Ca-já (Caetano Veloso) ao repertório. No quesito destaque, três canções merecem ser ouvidas por diferentes motivos. Canção da Volta (Antônio Maria/ Ismael Netto) é um lamento de amor acabado que, embora adiante suas futuras dores de cotovelo, mostra uma cantora segura no seu recado. A modinha Pode entrar (Walter Queiroz) é uma das peças mais doces da música brasileira, toda sublinhada por flautas e violões. Encerrando o disco, Fracasso (Mário Lago) ganha uma voz sussurrada, melancólica, que tira o clima pesaroso da letra (“Só me restou da história triste deste amor a história dolorosa de um fracasso”). Trazendo ainda outros batuques e estilos, Tamba-Tajá foi um bom cartão de visitas para a cantora então estreante. Não à toa, foi também um sucesso de crítica e público. Muita coisa mudou em Fafá depois disso. Mas, pra quem viu o DVD Fafá de Belém ao Vivo (EMI, 2007), pode ter certeza que aquela índia de tempos atrás ainda mora ali e pode aparecer a qualquer momento.

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P.S.: O primeiro sucesso de Fafá de Belém foi com a rebolada Filho da Bahia, incluída na trilha da novela Gabriela. A canção foi composta por Walter Queiroz, o mesmo de Pode entrar.

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Emmanuel Macêdo

Emmanuel Macêdo

Jornalista do Grupo de Comunicação O POVO. Repórter e colunista do […]

Marcos Sampaio

Marcos Sampaio

Jornalista formado pela Universidade de Fortaleza e observador curioso da produção […]

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