16.02.12 17:50
Almanaques desbravam grandes nomes do rock
O rock sempre foi bom em lançar grandes ídolos. Mais que ouvidos, eles são seguidos por seus fãs. Daí não esgotar material apresentando detalhes sobre esses personagens. De olho nisso, a editora Aleph está botando nas lojas dois almanaques que dissecam a vida particular e a obra de dois ícones da música internacional, Bob Dylan e Led Zeppelin. Escritos pelo ex-editor da revista Times, Nigel Williamson, os livros trazem biografia completa, lista de canções fundamentais, discografia comentada e curiosidades. No do compositor Bob Dylan, por exemplo, tem a lista das famosas gravações piratas (bootlegs), covers famosos e as histórias das incursões do bardo pelo cinema. Tudo embalado numa edição esperta, de fácil leitura e com muitas fotos, infelizmente, sem cores. Feitos para iniciar novos fãs, os Guias funcionam como uma boa fonte de pesquisa. Um terceiro volume já está sendo preparado, agora abordando a vida do Pink Floyd.
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05.09.11 15:00
Rolling Stones entre segredos e comparações
Venho aqui colocar um assunto em dia. Pode parecer bem fora do tempo, mas vou me valer do discurso de que “não há tempo certo quando o assunto vale a pena”. O que acontece: quero falar aqui sobre dois livros lançados no primeiro semestre mas que merecem todo o destaque possível, ambos sobre o mesmo assunto, os Rolling Stones. O primeiro chama-se According to The Rolling Stones. Assinado pelo próprio quarteto, o livro, que já impressiona pela beleza como objeto, é um longo relato repleto de fotos incríveis. Claro, partindo do princípio que, também este ano, a banda colocou nas lojas uma belíssima caixinha com os compactos lançados ao longo da carreira, é impossível não fazer uma comparação com o grandioso projeto Anthology, que reuniu os três Beatles até então vivos – Paul, Ringo e George (1943 – 2001) – para colocarem os assuntos em dia e abrir cofres e gavetas para lançar a raspa do tacho das gravações da banda. Mas, sem problemas por que se tem um assunto que nunca foi tabu foram as constantes comparações entre as duas maiores bandas inglesas de rock dos anos 60/70. Baseado em entrevistas feitas pelo jornalista Philip Dodd, According to The Rolling Stones foi lançado no mercado americano em 2003 e pouco tempo depois ganhou versão em espanhol. Só este ano a Cosac Naify lançou o livro em português. O esforço é compensador e o resultado é capaz de fazer qualquer marmanjo se emocionar. Mas, não se engane, nem tudo está. Ainda preocupados em guardar alguma imagem, os músicos jogam pra baixo do tapete algumas histórias cabeludas, como o rolo sexo-amoroso entre Keith, Mick, Brian Jones e Anita Pallenberg. Ex-membros vivinhos da silva, como Bill Wyman, baixista original dos Stones, e o guitarrista Mick Taylor não tem vez neste longo relato sobre a própria história. Pra compensar, pessoas que conviveram de perto com os mitos, como a cantora Sheryl Crow e o produtor Marshall Chess, dão seu parecer. O texto segue o mesmo modelo do trabalho dos Beatles, curtos textinhos aspeados entrelaçando as entrevistas. No fim das contas, a ausência dos ex-membros faz o fã tirar alguns pontos do trabalho final. Ainda assim, só de olhar para o livro, se percebe que trata de um produto indispensável para os fãs de rock e, pricipalmente, dos maus meninos ingleses.
O segundo livro não é menos luxuoso, mas o conteúdo é beeeeeeem diferente. The Beatles vs The Rolling Stones (Ed. Globo) vem com o subtítulo sensacionalista “a grande rivalidade do rock’n'roll” e não deixa dúvidas sobre seu conteúdo. Pra contextualizar, surgidas praticamente na mesma época (a diferença é de um ano a mais pros Beatles) e no mesmo país, as duas bandas são e continuarão sendo as duas maiores referências de rock na história. Por isso mesmo, nunca faltou quem viesse com teorias sobre quem é maior do que quem. Resultado dessa disputa? Claro que não existe, mas, pelo menos, rendeu muita discussão entre roqueiros. O livro, escrito por Jim Derogatis e Greg Kot, nem quer resolver esta pendenga, mas tenta criar argumentos para que o leitor tire suas conclusões. O método é simples: eles analisam cada ponto em separado. Os vocalistas Mick e John, os guitarristas George e Keith, os discos clássicos Exile on main st. e Álbum Branco e o visual de cada grupo são alguns temas discutidos. Pra completar, tem ainda listas de livros e melhores momentos, e uma infinidade de fotos maravilhosas. No fim das contas, as imagens em perspectiva estampada na capa, onde Beatles e Stones se confundem, talvez seja a melhor metáfora para resolver essa justa de mais de 40 anos. Frutos de uma mesma época, os dois grupos somam juntos o maior tesouro da música pop internacional. E, se juntarmos os dois livros, vamos saber mais sobre uma época em rock era coisa de gente grande.
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08.08.11 14:00
Biografia mergulha nos vícios e manias de Paul McCartney
Ao longo da carreira, cada integrante dos Beatles assumiu um personagem que acabou servindo de carapuça por muitos anos. John era o louco, Ringo o excluído, George o místico e Paul o bom o moço. Em partes, cada máscara dessas tinha um bom motivo pra existir. Acontece que, se olhar mais de perto, cada um poderia acabar tendo também um pouco das características de outro. E, talvez, seja essa miscelânea de personalidades e posturas, somado a um gênio criativo endiabrado, que fez o Fab4 criar a mais importante obra de música pop do mundo e com fortes chances de jamais ser superada.
No caso de Paul, a biografia Paul McCartney – Uma vida (Nova Fronteira) mostra que o bom moço também teve lá seus momentos de loucura. Escrita pelo jornalista novaiorquino Peter Ames Carlin – autor da biografia do beach boy Brian Wilson -, o livro começa, obviamente narrando infância de James Paul McCartney em Liverpool, com detalhes sobre sua boa relação familiar e sobre o drama de perder a mãe aos 14 anos. No entanto, foi esta fatalidade que acabou se tornando um dos pontos de encontro entre ele e o futuro amigo John Winston Lennon, que ficaria orfão aos 17 anos.
Como não poderia deixar de ser, durante todo o período em que Paul se dedicou aos Beatles, sua biografia acaba sendo também uma biografia da banda, passando por personagens como Alain Klein, George Martin, Brian Epstain e outros. Nenhuma grande novidade para quem já conhece outros trabalhos sobre a banda. Mais sobre Paul McCartney, o livro, insiste na sua atração pela maconha e no quanto ele era dominador dos trabalhos do grupo. Quanto à erva proibida, paul fez uso até bem pouco tempo, quando os afazeres domésticos o fizeram parar. Já quanto ao seu jeito ditador de conduzir a banda, quem não lembra de como ele agiu quando durante as gravações do album branco?
Um ponto positivo da biografia está após o fim dos Beatles. Nesse momento Peter Carlin narra passo a passo os caminhos erráticos do músico até que ele voltasse a se sentir à vontade com o repertório do seu grupo. Sim, após o fim dos Beatles ele teve medo de tocar suas velhas canções e ser taxado de oportunista. Daí vieram os Wings que acabou não passando de uma banda de apoio para o velho beatle. Já casado com Linda, ele chegou a empurrá-la pra dentro da banda, mesmo sabendo que sua amada não sabia tocar instrumento nenhum. Mesmo diante do nariz torcido dos seus companheiros de banda, Linda inclusive, Paul insistiu para que ela tocasse teclados.
É fato que a obra solo de Paul McCartney nunca chegou ao patamar do foram os Beatles. Mas também seria muita má vontade dizer que é ruim. Ao longo dos anos, ele criou uma série de canções memoráveis, belas e cheia de tudo de bom que ele tinha a oferecer. Nesse ponto, Paul McCartney – Uma Biografia ganha ao mostrar como ele soube ir se distanciando da sombra gigante do quarteto para poder voltar a se relacionar bem com aquele repertório. O livro também revela detalhes da baixaria que envolveu o casamento do músico com a modelo Heather Mills, que seguia o estilo “entre tapas e beijos”. Passadas as 400 páginas da biografia, fica uma boa notícia: os Beatles não foram um sonho que acabou e aprova disso está neste velho compositor que ainda tem muita lenha pra queimar.
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24.05.11 21:25
Nos 70 anos de Bob Dylan, livro clássico sobre o cantor ganha edição no Brasil
Do Uol
Sobre Bob Dylan, arrisco dizer, já foram escritos mais livros do que sobre qualquer outro músico nascido no século 20. No momento em que se comemora o seu 70º aniversário, cinco novos volumes juntam-se à biblioteca. Apenas um deles, mas justamente o mais importante, está saindo no Brasil.
Trata-se de “No Direction Home – A Vida e a Música de Bob Dylan” (Larousse, 784 págs., R$ 90), de Robert Shelton. Publicado originalmente em 1986, o livro acaba de ganhar uma segunda e definitiva edição. Bob Dylan tinha 20 anos, em 1961, quando Shelton, então crítico do “New York Times”, o ouviu cantar num pequeno clube no Village, em Nova York. Impressionado com o que ouviu, escreveu uma crítica no jornal. Este texto, hoje histórico, é considerado fundamental para a carreira do músico. Tornou-o conhecido e levou a gravadora Columbia a assinar um contrato para a gravação do seu primeiro LP.
Shelton virou amigo de Dylan. Entrevistou-o dezenas de vezes ao longo de uma década. Dedicado a escrever sobre o artista, batalhou durante anos para conseguir publicar o livro do jeito como imaginava. A obra acabou saindo em 1986, com muitos cortes em relação ao texto original. Esta primeira edição nunca foi publicada no Brasil.
Agora, um calhamaço de quase 800 páginas faz justiça ao projeto de Shelton, morto em 1995, aos 69 anos. “No Direction Home” é o mais detalhado relato sobre os primeiros anos de Bob Dylan, a infância, as influências musicais, os primeiros passos em Nova York, os primeiros romances (com Suze Rotolo, Joan Baez), a guinada na carreira em 1966.
Não a toa, Martin Scorsese batizou o seu ótimo documentário sobre os primeiros anos da carreira de Dylan com o nome do livro de Shelton. “No Direction Home”, o filme, lançado em 2005, concentra-se justamente neste episódio-chave da carreira do músico: a decisão de largar o violão e adotar a guitarra elétrica, deixando para trás o posto que o consagrara, como cantor de protesto.
Vício em heroína
Na véspera do 70º aniversário foi divulgada uma entrevista inédita de Robert Shelton com o músico, realizada em março de 1966, na qual Dylan admite ter usado heroína e pensado em suicídio. O relato feito por Dylan a Shelton dentro de um avião, logo depois de um show, não foi incluído em seu livro. Por duas horas, o músico falou sem parar e revelou que, no início dos anos 60, viciou-se em heroína, mas conseguiu abandonar a droga. Dylan também disse nesta entrevista que contemplou a ideia de suicídio. “Admito ter pensado em suicídio, mas superei esta coisa”.
A conversa de duas horas foi sucedida por outra, no dia seguinte, de uma hora e quarenta minutos. Dylan, então já uma estrela, fala de sua carreira, do seu trabalho como compositor e da insatisfação com as pessoas que estavam se aproveitando dele. Segundo a BBC, um filme sobre estas duas gravações de Shelton com Dylan está em fase de produção.
12.05.11 10:58
Biografia faz retrato incompleto do Ultraje a Rigor
Um dos capítulos mais engraçados da música popular brasileira, sem dúvidas, chama-se Ultraje a Rigor. A banda paulista encabeçada por Roger Moreira e que já teve Edgard Scandurra na sua ficha de pagamento, compôs uma série de canções marcantes para a balzaquiana geração 80, que até hoje são cantadas a plenos pulmões por um público seleto. Digo seleto por que ser fã do Ultraje não é fácil. Adeptos de um rock cru recheado de humor cáustico, inteligente e politizado, eles há alguns bons anos desistiram de viajar para divulgar seu trabalho. O motivo? Roger tem medo de avião. E hoje eles vivem num limbo entre a existencia e a não existencia. Mas, quando se tem merecimento, sempre aparece outro alguém para salvar sua memória do esquecimento. Foi o que fez a jovem jornalista Andréa Ascenção. Nascida em 1986, ela usava bico, quando a banda já havia estourado no Brasil com o clássico disco Nós vamos invadir sua praia. Por isso mesmo, ela deu o mesmo do disco à biografia que conta a história e as histórias dos Ultrajes. Nós vamos invadir sua praia, o livro editado caprichosamente pela Belas Letras, traz uma breve biografia de cada músico que já vestiu a camisa do periscópio azul de olhar matreiro. Traz ainda um relato da gênese de cada canção, disco e turnê, palavras de Kid Vinil – algo como uma consciência separada do contexto ou uma testemunha ocular – e um mapinha descrevendo cada formação da banda (foram 12!!). Mas, é importante deixar claro, Andréa não fez questão de esconder o quanto é fã do Ultraje a Rigor. E é aí que o livro dá uma derrapada. Como quem pretende redimir seus ídolos de pecados cometidos no passado, ela busca sempre argumentos para comprovar o quanto a banda é maravilhosa, mesmo que pouca gente saiba por onde eles andam hoje em dia. Pelo que os músicos dizem no livro, não há problema em Roger simplesmente dizer “não vamos divulgar nosso disco e pronto”. Vamos e venhamos, quem monta uma banda quer tocar e ganhar dinehrio com ela. Segundo Nós vamos… chega a ser um orgulho saber que Roger pode bater no peito e dizer “eu não preciso viajar”. Me engana que eu gosto… Com a falta de uma problematização diante de fatos como esse, (que não arranham o passado, mas comprometem o futuro do Ultraje) o livro ganha ares de chapa branca. Em certo momento, a autora supõe que Roger nunca fez uso de drogas. Qual é?! Ainda assim, é certo que Nós vamos invadir sua praia ganha importância por registrar para posteridade a história de um repertório que ganha pela cara de pau e por sacadas magistrais, como a eterna Inútil. Mas, enquanto houver Humberto, vai haver Engenheiros do Hawaii. E, enquanto houver Roger, haverá Ultraje a Rigor.
04.05.11 06:07
John Lennon, Paul McCartney, Ringo Starr e George Harrison. Mais do que o nome de quatro músicos ingleses, é o nome de um quarteto que esteve à frente do que existe de mais relevante em termos de música popular e revolução comportamental do século passado. Atendendo pelo nome de The Beatles, eles criaram uma obra simples de ouvir, complexa de compreender em sua totalidade, mas pronta pra balançar até o mais bruto dos brutos. E, quando era pra emocionar, difícil segurar as lágrimas. Falaram sobre amor, paz, guerra, vida, morte e deram a cara a tabefe expondo seus próprios dramas pessoais. Como resultado, mesmo já tendo passado mais de trinta anos desde que eles encerraram as atividades, o quarteto de ouro das terras da rainha Elizabeth continua inspirando pessoas e despertando a curiosidade de muitos que querem saber mais, ler mais e ver mais detalhes das intimidades de cada um. Como consequência disso, a cada semana, são despejados nas lojas dezenas de produtos com a marca The Beatles. Nem todos trazem algo novo. Mas, pra quem é fã, que importa.
Mais cores que o preto e branco
O mais novo desses produtos chama-se Um dia na vida dos Beatles (Cosac Naify). Assinado pelo fotógrafo Don McCullin o livro rúne quase uma centena de fotos (a maior parte inédita) captadas durante um único dia das gravações do confuso Álbum Branco. Numa época em que a banda já vivia a ressaca da hiperexposição, o áalbum trazia 30 canções que apontavam para as mais diferentes direções, desde um fox ou uma canção de ninar, até o heavy metal. A capa minimalista trazia apenas o nome da banda sobre um amplo fundo branco (daí o apelido Álbum Branco). Nos bastidores, brigas, desentendimentos, ciúmes e uma sensação de que o sonho estava chegando ao fim. E foi no meio desse clima que eles convidaram o veterano fotógrafo de guerra Don McCullin, recém saído do Vietnã, para fotografá-los durante um único dia, o 28 de julho de 1968. Mesmo espantado com o convite e sem experiência naquele tipo de trabalho, Don gastou 15 rolos de filme e passeou com o quarteto por Londres captando as imagens. Apesar do clima tenso que vivia o quarteto, o que está impresso em Um dia na vida dos Beatles são quatro jovens, felizes, coloridos em momentos de rara intimidade, como um John se fazendo de morto, ou um Paul sem blusa apontando as próprias gordurinhas ou até todos brincando com um papagaio que apareceu por ali. Nem a presença constante de Yoko Ono foi capaz de atrapalhar o andamento dos trabalhos. “O dia foi uma série de acontecimentos aleatórios. Eles simplesmente mergulhavam nas situações. E se mostravam totalmente receptivos”, comenta McCullin na introdução. O disco foi lançado e, após mais três lançamentos, a banda encerrou as atividades de uma vez por todas deixando uma geração orfã para trás. E, mesmo para quem não acompanhou os ídolos vivos, saber, ler, ver e ouvir mais e mais sobre os Quatro de Liverpool ainda é uma fonte de extremo prazer. Afinal, melhor do que ninguém, eles souberam transformar o hobby de tocar em revolução. Com a palavra Mr. McCartney: “Don é um cara legal. Ele é um dos grandes fotógrafos britânicos. Pensamos que nós mesmos teríamos de ser a guerra. Vamos providenciar o campo de batalha e tudo vai dar certo. Ele simplesmente vai acompanhar toda a ação. E foi exatamente o que aconteceu”.
Retratos da revolução
A vida de John Lennon (Escrituras) já está há alguns meses nas lojas, mas também merece registro. Começa por se tratar de uma bela peça, encartada em edição luxuosa, tamanho grande e papel de altíssima qualidade. Partindo para o conteúdo, são textos de viés mais analíticos focando a vida conturbada de John Winston Lennon, músico, ativista, herói, bandido, pai, marido e ídolo. Se os textos escritos pelo historiador John Blaney trazem pouca novidade (difícil encontrar mais alguma novidade numa biografia já tão revirada), a cereja do bolo fica por conta das imagens. Divididas cronologicamente por épocas (Infância e início de carreira; Os beatles no auge; e A vida com Yoko, protestos sociais e independência), parte das fotos são creditadas por uma longa lista de agências. Outras foram “gentilmente” cedidas pela Sra, Yoko Ono Lennon. E é esta odiada e incompreendida mulher que assina o prefácio intitulado “Como fomos”. “Estávamos apaixonados um pelo outro e os dois pela vida, planejávamos um dia ficar em nossas cadeiras de balanço em Cornwall, esperando postais do nosso filho Sean. Esse era o sonho de John”. Sonho que foi interrompido por um maluco que resolveu expressar sua admiração e indignação disparando cinco tiros contra o ex-Beatle. As imagens de um John morto não aparecem no livro. Pelo contrário. As últimas imagens de mostram o cantor falando com a imprensa e, em outro momento, dando seu velho sorriso maroto, de quem está prestes a fazer outra danação. “Quando eu o vejo nestas fotos, automaticamente olho nos olhos dele. Você vê que às vezes ele coloca o queixo pra cima, com um ar bem petulante. Mas seus olhos nunca perderam o brilho… que o mantinha sempre motivado”, encerra Yoko.
07.04.11 17:36
Esta semana encerra nas bancas a coleção Chico Buarque, que encartou 20 títulos do compositor carioca numa luxuosa embalagem contendo uma mini-biografia do disco. Dessa forma, quem adiquiriu todos os volumes, tem nas mãos um documento sobre um dos nomes mais importantes da cultura brasileira. Na ponta da pena dessa mini-biografia, está jornalista José Ruy Gandra. Lançados numa parceria da Gandra Editorial com a Abril Coleções, ele foi o responsável pelos livrinhos que trazem informações biográficas, depoimentos de amigos e parentes e uma boa contextualização de cada disco com a sua época. Leia abaixo um pouco de como se deu essa pesquisa.
DISCOGRAFIA – Queria começar com você falando sobre a pesquisa que você fez para esta coleção. Quanto tempo durou, quantas pessoas ouviu, como aconteceram as entrevistas, as fontes. O Chico foi ouvido?
José Ruy Gandra - Fiquei dois meses pesquisando arquivos como os da Editora Abril e do Estado atrás de todas as matérias publicadas ao logo de sua carreira. Também li a bibliografia existente sobre o Chico. Mais de 20 pessoas foram entrevistadas. O Chico não foi ouvido.
DISCOGRAFIA – A coleção não segue a ordem cronológica dos discos pra chegar às bancas. Por que? Como isso foi pensado?
José Ruy Gandra – As coleções possuem uma curva de vendas diferente e as obras de maior ou menor sucesso foram adaptadas a ela. Mas, no final, juntos na caixa, os CDs formam uma ordem cronológica.
DISCOGRAFIA – Das fontes que você ouviu, qual foi a mais marcante?
José Ruy Gandra - Nenhuma se destaca particularmente.
DISCOGRAFIA – Qual o seu disco preferido nessa coleção? Por que?
José Ruy Gandra – O Chico Buarque 1978 – aliás, o primeiro volume da Coleção. Suas músicas lembram a minha juventude e a militância contra a ditadura, as coisas aos poucos se abrindo.
DISCOGRAFIA – Boa parte dos seus textos fala sobre o contexto político brasileiro. É possível desvincular a obra do Chico desse contexto? Ele continua tendo a mesma influência que tinha décadas atrás?
José Ruy Gandra – Não. Durante um certo período (até o final da ditadura) é possível contar a história do Brasil através da poesia do Chico. Depois, o seu lado político se recolhe, dá lugar a uma crítica mais sutil e de natureza mais social e menos política.
DISCOGRAFIA – A pergunta não é nova, mas queria saber sua opinião. Boa parte das críticas políticas do Chico na década de 70 vinham ou cifradas ou escritas de forma rebuscada. Quem tinha acesso a essa obra e quem compreendia essas críticas?
José Ruy Gandra – O Chico era venerado e politicamente ressonante para uma elite – classes média e alta, profissionais liberais, universitários. Para esses segmentos as críticas do Chico eram muito claras.
DISCOGRAFIA – O que é o mais importante da obra do Chico Buarque?
José Ruy Gandra – O seu conjunto, que conta a história do Brasil na segunda metade do século 20.
# Após Chico Buarque, o próximo a chegara às bancas é Tim Maia, já a venda em poucos lojas de Fortaleza, como a Livraria Cultura.
04.04.11 12:38
Íntegra da entrevista publicada dia 03.04no caderno Vida & Arte do Jornal O Povo
O artigo 20 da lei 10.406 diz: “Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”. Foi baseado nisso que Roberto Carlos protagonizou um dos poucos eventos polêmicos da sua vida: a interdição judicial sobre a biografia Roberto Carlos em Detalhes, lançada em dezembro de 2006 pela Editora Planeta.
O livro de 500 páginas precisou de 16 anos pra ficar pronto e de menos de cinco meses pra gerar um processo que resultou na sua retirada das prateleiras. Ainda assim ela é motivo de orgulho para o jornalista baiano Paulo César de Araújo. Jornalista, mestre em Memória Social e autor de Eu não sou cachorro, não: A música popular cafona e a ditadura militar, ele é um fã confesso do Rei desde sua infância em Vitória da Conquista. Mesmo sabendo que isso não foi reconhecido pelo ídolo, ele assume que sua admiração não diminuiu e até guarda certo orgulho por agora fazer parte da vida de um artista que sempre manteve distância de polêmicas. “Isso é problema dele, não meu. Apenas lamento. Foi ruim pra mim e mais ainda pra ele. Não interferiu na minha admiração. Esse foi o grande erro do Roberto. Quer queira, quer não, eu sou o biógrafo dele. Goste ou não”.
O POVO – Como está a situação da biografia na justiça? Alguma chance de ela voltar a ser vendida?
Paulo César de Araújo – Claro! Mais cedo ou mais tarde ele vai voltar. São muitas as histórias de livros que foram proibidos e que voltaram a ser vendidos. Ela (a biografia) pode ficar de fora um tempo, mas acaba voltando. Até por que as razões foram bem toscas. Minha advogada (Débora Steinberg) está lutando na justiça. Tem um projeto do (ministro chefe da Casa Civil) Antônio Palocci que favorece a liberação de obras embargadas. É a Lei das Biografias (Projeto de Lei 3378/08), que vai mudar o artigo 20 do Código Civil. Como a lei não tem efeito retroativo, assim que ela for aprovada, no dia seguinte ela (a advogada) reapresenta o livro.
OP – Você chegou a ter algum contato pessoal com o Roberto, mesmo em juízo, pra falar sobre o assunto?
Paulo César de Araújo – Nós ficamos frente a frente no fórum criminal em São Paulo. Foi dramático. Imagine você, eu com um ídolo na minha frente. Tentei durante 15 anos uma entrevista com ele e acabo o encontrando naquele momento. Ele foi enfático e os advogados também. Cheguei a dizer: “eu abro mão dos direitos autorais. Não quero nada”. O importante é que o livro permaneça.
OP – O Roberto Carlos alegou que havia inverdades no seu texto. Em algum momento ele foi mais específico dizendo quais seriam essas “inverdades”?
Paulo César de Araújo – Claro que não! Isso foi outro absurdo. Ele disse numa das poucas entrevistas que ele explicou sobre a proibição do livro: “em 1º lugar são muitas (as inverdades)”. Sabe o que aconteceu? Ele me processou por invasão de privacidade e uso de imagem e, no processo, não citou nenhuma inverdade. Não citou por que não acharam. Se tivesse, ele teria me processado por calúnia. Agora me diga, que privacidade? Tinha tudo na mídia.
OP – Quem leu o livro percebe claramente que, apesar da pesquisa jornalística, trata-se de um fã escrevendo. Você percebe isso? Foi proposital?
Paulo César de Araújo – Geralmente quem escreve sobre cultura, escreve sobre o que gosta. Ruy Castro escreveu Chega de Saudade e é um fã de Bossa Nova. Não sou uma exceção. João Máximo gosta de Noel Rosa. Dificilmente alguém escreve uma biografia pra derrubar um biografado. Tenho uma relação profunda com o Roberto que é desde a infância. Eu queria ter lido essa história na minha infância, mas não existiam livros sobre ele. As elites intelectuais não se preocuparam em analisar o fenômeno Roberto Carlos. Então eu quis redimensionar o fenômeno Roberto Carlos na história brasileira. Ele sempre foi tratado como menor, mas está no mesmo patamar do Chico Buarque, do Noel Rosa. Confesso que nem quis esconder que sou fã. Deixo claro logo na introdução.
OP – Qual a fase mais rica artisticamente do Roberto?
Paulo César de Araújo – A mais rica é quase um consenso. O grande período dele é o que vai de 1965 a 1971. Foi nesse período ele construiu grandes clássicos. Se ele não tivesse feito mais nada depois ainda estaríamos falando nele hoje. Essa época é determinante para o fenômeno Roberto Carlos, a que mudou o rumo dos acontecimentos. Ele teve altos e baixos, mas a grande obra está ali. O som, o modo de cantar, os temas, tudo mostra ele está antenado no que está acontecendo.
OP – E tem canções que ele parece ter abandonado. Coisas que ele nunca voltou a cantar.
Paulo César de Araújo – (A música de 1970) Maior que o meu amor é belíssima. Tem música que ele só cantou na hora que gravou. O Roberto poderia fazer um show só com músicas que ele nunca cantou em shows ou nos especiais. Quando eu tava fazendo o livro, entrevistei um músico do Roberto (Paulo não lembrou quem era), e até disse pra ele: “tenho uma proposta de show aqui que ia ser legal, só com músicas diferentes das que ele tem cantado”. O cara olhou e respondeu: “cara, ta sensacional, mas não mostra pra ele não. Vai dar muito trabalho pragente”. Guardei isso por um tempo. Se eu tivesse um encontro com ele, eu iria mostrar pra ele. Ana (também de 1970) é linda. O Roberto é uma figura obsessiva, maníaco pela repetição.
OP – Mesmo passando por polêmicas como essa do livro, filhos bastardos ou uma ausência na causa dos deficientes físicos, o Roberto não perde o protagonismo na música brasileira nem o respeito dos fãs. O que faz a carreira dele tão sólida?
Paulo César de Araújo – Ele é esse grande ídolo por conta da construção de um grande repertório. Cantores carismáticos têm vários. Excelentes cantores têm vários, como o Cauby ou o Emílio Santiago. Mas, o que faltou ao Cauby e ao Emílio que não faltou ao Roberto? Ele construiu um grande repertório de canções. É o que diferencia um, Paul McCartney, dos Beatles. Você tinha várias bandas em Liverpool, mas os Beatles foi que resistiram a esse tempo. É isso! No caso do Roberto Carlos, é a mesma coisa. E, nesse sentido, a critica errou. O Vinícius (de Moraes) dizia que Roberto era maior que o seu repertório. Mas, suas músicas atingem o letrado, o pobre, o rico, os milionários. O Chico não atende à grande massa, assim como o Odair José não atende aos mais intelectuais. Ele teve a formação da seresta, como um grande cantor. Também administrou bem a carreira, nunca brigou como ninguém – só comigo. Ele sempre tomou decisões muito sensatas, saiu da Jovem Guarda no momento certo.
OP – Mesmo sendo uma dupla alardeada e admirada, Erasmo Carlos parece, em alguns momentos, ser um subproduto da dupla. Qual a importância do Erasmo para a carreira do Roberto Carlos?
Paulo César de Araújo – Foi um encontro perfeito. A tradição do Roberto é o do romântico. Ele passou pelo rock, mas o romântico ta na infância dele. Já o Erasmo, já começou na música com o rock. Ouvindo Bill Haley, foi o rock que o pegou direito. Quando se juntaram, isso deu às baladas a medida certa. Talvez de outra forma não teria dado tão certo. Quando o Roberto começa uma música e encontra um problema, o Erasmo ta ali, dá um toque, uma ideia. É a coisa mais próxima do Lennon e McCartney que nó temos. Não tem uma dupla no Brasil como eles.
OP – E qual foi a importância da Rede Globo na carreira do Roberto Carlos?
Paulo César de Araújo – De fato, ela foi mais importante pra imagem dele. Pra carreira não teve importância. Em 1974 (ano que estreia o RC Especial), ele já estava no auge. Ou seja, a Globo não alavancou a carreira do Roberto. Acho que a TV Record tem mais relevância na história dele por conta dos festivais. Agora, a Globo tinha o monopólio da audiência e ajudou na imagem da pessoa simples, boa, simpática, minimizando tudo sobre o Roberto. Foi importante pra imagem e hoje é o maior astro do canal.
OP – O que é o mais importante no livro que você escreveu?
Paulo César de Araújo – Eu acho que é por dimensioná-lo na história da música brasileira. O Roberto muda o rumo dos acontecimentos, para o bem ou para mal, dependendo de quem vê. Pra quem é da tradição do samba, foi ruim. Pra quem é a favor da música aberta a todas as influências, foi bom. Ele foi o primeiro artista a se tornar um ícone sem cantar os ritmos tipicamente brasileiros como samba, marchinhas ou baião. Sua obra não é identificada com os ritmos nacionais, por isso ele influencia o tropicalismo. O Caetano admite isso. Todo mundo vinha surgindo, vinha pra cantar samba. Mas o grande sucesso do Roberto Carlos abriu uma frente. Djavan e Fagner estavam ouvindo quem? Ele vai influenciar toda essa geração dos anos 1970.
OP – Sua pesquisa levou 16 anos. Por onde ou por quem ela começou?
Paulo César de Araújo – Eu fiz um levantamento da bibliografia da música brasileira nos jornais, na Biblioteca Nacional e vi que tinha uma lacuna, principalmente sobre esses assuntos, os artistas conhecidos como brega e Roberto Carlos. Tinha muitos (livros) sobre sambas, marchinhas, mas nada sobre o brega ou cafona. Iniciei com uma série de entrevistas fazendo uma revisão da música brasileira. Comecei com o Tom Jobim e, em seguida, fui mergulhando no Roberto Carlos. Comecei isso em paralelo com o brega. Nunca poderia saber que eu iria escrever a biografia do Roberto Carlos. Como a obra dele é muito biográfica, ele foi me encaminhando. Tem música pra mãe, pro pai, pras esposas e isso tudo foi dito por ele em entrevistas.
OP – Você já disse que a pesquisa foi longa por que você queria que o livro saísse depois que todas as suas perguntas sobre fossem respondidas. Que perguntas por exemplo?
Paulo César de Araújo – Eu queria, por exemplo, fazer essa trajetória passando da Bossa Nova e passando pelo Tropicalismo. A passagem do Roberto pela Bossa Nova antes era uma notinha. Pra alguns, o Roberto Carlos era um bicão. Mas eu via no canto, nas letras dele uma modernidade que vem da Bossa Nova. A letra da Bossa Nova é coloquial e Mexerico da Candinha (1965) é coloquial. Ele era Bossa Nova na letra e na forma de cantar e isso não é coisa de bicão. Então eu fui entrevistar o João Gilberto, Carlos Lyra e Roberto Menescal e a grande revelação foi a história do João Donato que um dia chamou o João Gilberto e disse “João, vem ver você cantando”. O João cantava Brigas nunca mais e eu tive acesso ao caderninho que o Roberto anotava as coisas dessa época e tava lá Brigas nunca mais. O João (Gilberto) me disse “achei ele muito musical”. O primeiro discípulo de João Gilberto que o próprio João conheceu foi o Roberto Carlos. Eu coloquei o Roberto Carlos na história da Bossa Nova. Consegui encaixa-lo como um filho direto de João Gilberto. Ele não deu certo na Bossa Nova, foi um fracasso. Por sorte, ele foi pro Ie Ie Ie.
OP – Mesmo tendo proibida uma versão oficial, não é difícil achar seu livro para download gratuito na internet. Isso, de alguma forma, lhe satisfaz? Funciona com uma espécie de vingança?
Paulo César de Araújo – Eu escrevi o livro pra ser lido. Em nenhum momento me sinto derrotado. O livro foi lançado, reconhecido, vendido. Claro que fico frustrado com o que aconteceu. Ele não precisava disso. No auge da carreira, sem experimentar queda, lamento por ele ter feito isso. O livro deveria estar nas livrarias, escolas e bibliotecas. Agora imagine que coisa aberrante, em Portugal você compra a biografia e compra no cartão de crédito. E é uma livraria oficial, não é um sebo. Custa 26 euros, o preço que saiu. Não sei como eles conseguiram, quantos eles compraram. Mas isso não poderá se sustentar por muito tempo. Foi o maior erro que ele cometeu. Acontece que a proibição é apenas de vendagem. A única pessoa que não pode fazer nada com a biografia sou eu. Foram quase 50 mil cópias vendidas entre dezembro e abril. O caminhão dele parou na editora e apreendeu 11 mil livros num depósito em Santo André. Não sei o que ele vai fazer com tantas cópias.
OP – Na sua análise, o que a proibição da biografia revela sobre o próprio RC?
Paulo César de Araújo – Ela representa as contradições do homem Roberto Carlos. Limitações e contradições. Limitações por que ele não tem o hábito de ler nem o jornal. Ele vê o mundo pela televisão e claro que isso tem um preço. No caso do Roberto, a conta veio agora. Só uma pessoa sem intimidade coma leitura poderia achar que deveria existir só um livro oficial sobre um personagem. E ele acredita nisso. Imagina um livro sobre Dom Pedro I, um sobre o Getúlio Vargas. Isso é uma limitação do Roberto. Já as contradições, até comentei com ele na audiência: “você não canta a tolerância? ‘Não importa os motivos da guerra, a paz é mais importante?’. Então”. Em O progresso (1976) ele canta “Não sou contra o progresso/ Mas apelo pro bom senso/ Um erro não conserta o outro/ Isso é o que eu penso”. Ele chegou a um ponto de admiração, adoração que, isso tudo não mancha a imagem pra grande maior parte dos fãs. Tem uma parcela até que concorda, mas que também não tem intimidades com a leitura.
OP – A proibição fez você perder a admiração pelo artista Roberto Carlos?
Paulo César de Araújo – Até por compreender essas limitações e contradições, continuo ouvindo, gostando e analisando. Sou um estudioso do Roberto Carlos. Meu arquivo está atualizadíssimo. Continuo ouvindo e acompanhando. Isso é problema dele, não meu. Apenas lamento. Foi ruim pra mim e mais ainda pra ele. Não interferiu na minha admiração. Esse foi o grande erro do Roberto. Quer queira, quer não, eu sou o biógrafo dele. Goste ou não.
OP – Você já tem planos para um novo livro?
Paulo César de Araújo – Vou contar os bastidores dessa pesquisa. Tive encontros com João Gilberto, Tom Jobim, muitas tentativas com o Roberto Carlos. Tenho quase 200 entrevistas nesses 15 anos. Vou contar esses bastidores, mas ainda não tem data.
10.03.11 15:59
Mesmo já contando mais de 40 anos desde o fim dos Beatles, até hoje eles não deixaram de ser notícia e de movimentarem um bom time de pessoas interessadas em ler, escrever, ver, ouvir e saber sobre a vida, carreira, intimidade deles. Anualmente, uma penca de livros, discos, tributos, documentários e outros produtos são colocados nas prateleiras e atraem uma boa legião de fãs. Com o aniversário de 30 anos de morte de John Lennon em 2010, esse número cresceu um bocado com análises psicológicas, livros de fotos, filmes e mais um montão de homenagens. No meio desse balaio de produtos, muitos deles buscando a qualquer custo um diferencial (bem difícil de ser achado hoje em dia) um livro merece destaque. O Pequeno Livro dos Beatles (Ed. Conrad) conta em 164 páginas a trajetória do Fab Four, desde o nascimento de John, Paul, Ringo e George até o lançamento de Y Not, 15º álbum de Ringo Starr, em 2010. Se até aí não há novidade, o melhor é que tudo é contado através dos quadrinhos mágicos de Hervé Bourhis. Nascido em Chambray-lés-Tours, França, em 1974, ele escreveu sua primeira revista em quadrinhos aos sete anos. Aos 14 ganhou de presente da mãe um livro sobre o quarteto de Liverpool e se viu fisgado pelas suas histórias. Juntou a leitura com as melodias que já conhecia e pronto, entrou para a fila dos fãs. A forma pela qual ele se aproximou dos Beatles, por um livro e não por um disco, é tão curiosa quanto seu traço preenchido com cores pasteis. Se o trilho por onde corre o enredo das tirinhas já é bem conhecido, é justamente essa relação pessoal do quadrinista com a banda que dá um molho de graça e ironia ao livro. Por exemplo, seu sarcasmo ao tratar dos trabalhos solos de Ringo Starr, o baterista considerado o menos inspirado do quarteto, é ferino e hilário. Aliás, esse é um dos pontos mais enriquecedores da leitura. Junto com a parte biográfica, Hervé aproveitou para enumerar e resenhar (mesmo que de um modo bem particular) todos os discos lançados pela banda e pelos quatro músicos em carreira solo. Hervé Bourhis, que lançou O Pequeno Livro do Rock pela mesma editora, em 2010, se mostra um observador atento do cenário roqueiro e não poupa críticas a trabalhos flácidos lançados pelos imortais do rock. Pra quem não lembra, além da profusão de pérolas, os anos 80 também deixaram um legado tecladístico que comprometeu muitos trabalhos de, entre outros, Paul McCartney. Encerrando O Pequeno Livro dos Beatles com um questionamento sobre quem era mais rock’n'roll, Beatles ou Rolling Stones, a certeza que fica é que, se esta não é a biografia mais importante do quarteto, certamente é a mais divertida.
04.03.11 08:19
Spitz gasta munição em biografia de Bowie
Reconhecido como um gênio da música mundial, David Bowie tem no Brasil um nome mais famoso que sua obra. Transgressor, inovador, visionário, ele é autor de uma obra longa, plural, mas bem menos ouvida do que merecia. Em terras tropicais, por exemplo, seu maior sucesso fica com a música Let’s dance (1983), quando, em uma de suas muitas descobertas musicais, ele caiu na pista de dança com uma sonoridade típica dos anos 80. Não por acaso, este foi também o único grande sucesso comercial de sua discografia, iniciada em 1967. Vendas irregulares à parte, o grande trunfo de Mr. Bowie é sua performance ao vivo. Isso fica claro na biografia Bowie (Benvirá), escrita pelo jornalista Marc Spitz. Transitando entre o investigador e o fã, Sptiz construiu um texto cronológico, partindo da infância simples do ídolo em Brixton, Londres, até os dias atuais, quando o ídolo entrou em reclusão voluntária após sofrer um infarto na Europa, em 2004. Pra ter uma ideia, seu último contato com a civilização foi quando aceitou o convite pra dublar o filme Bob Sponja (atendendo um pedido da filha), em 2006, e no ano passado quando compareceu a alguns poucos eventos de divulgação do filme Moon, dirigido por seu filho Duncan. Fora isso, somente a vida de dono de casa, o que muito se diferencia do artista de outrora. Como contado por Spitz, desde que decidiu sair de casa na adolescência para ver o que o mundo tinha a lhe oferecer, David Robert Jones viveu o que podia e não podia da trilogia sexo & drogas & rock’n roll. Apesar de ser a única biografia do cantor disponível no mercado brasileiro, Bowie deixa a desejar em alguns pontos, principalmente quando o autor resolve se mostrar mais do que deve. Da metade do livro em diante, Marc Spitz decide revelar momentos particulares que o fizeram virar fã de Bowie, o que acrescenta bem pouco a quem quer saber sobre a vida do artista. Também, a narrativa presa aos fatos em muitos momentos se torna enfadonha, o que é um desperdício quando se trata da vida de um Camaleão do Rock. Este título, por sinal, foi dado pela constante inventividade do cantor, que em sua carreira passou pelo, rock, dance, soul, funk e outros estilos. Como cada um veio e o que cad um deixou, acaba passando batido em nome dos velhos e eternos argumentos de “ele criou…”, “ele foi o primeiro a…” ou “sem ele, não teria…”. No entanto, é notório que, até por ser um fã, Spitz conhece bem saobre a vida e a carreira de Bowie, trazendo na biografia uma série de detalhes curiosos, resenhas de discos e shows, e entrevistas relevantes de amigos, parentes e pessoas que trabalharam com o ídolo em cada fase de sua carreira. Ou seja, recluso ou não, David Bowie continua sendo uma figura curiosa, dono de uma história rica, ainda em construção (ou alguém acha que ele não vai mais gravar?) que ainda vai ser recontada muitas vezes. Até lá, Bowie, a biografia, funciona como um caminho para os iniciantes.
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