21.12.11 16:42
Por Camila Holanda (@camilasholanda)
“Eu venho de um recanto escuro. O sol, luz perpendicular. Do outro lado, azul do muro. Não vou saltar”. É assim que Gal Costa começa seu novo disco: de forma impactante. Recanto é a nova parceria com Caetano Veloso e chegou às lojas no último dia seis. As onze canções são inéditas e seus arranjos dialogam com a tecnologia de programas que afinam vozes e instrumentos. A produção de Caetano e seu filho, Moreno Veloso.
Depois de seis anos sem novidades, os fãs de Maria da Graça Costa Penna Burgos podem estranhar o disco quando ouvirem pela primeira vez. Diferente de Baby, Vapor barato e de tantas outras músicas que ficaram marcadas pela voz de Gal. A ousadia do novo trabalho assemelha-se muito ao sentimento de Vaca profana, com a letra forte, enigmática e arranjos agressivos, porém, afáveis.
Gal e Caetano sempre flertaram com o contemporâneo, exploraram o novo. A parceria começou em 1967, na gravação do disco Domingo, e tem se mantido, atravessando os mais de 44 anos de história e as quase 100 composições gravadas em parceria.
O novo trabalho traz a rejuvenescida que o compositor tem dado aos seus últimos projetos. Uma nova geração de músicos ganha espaço e, entre eles, suas crias Zeca e Moreno Veloso, juntamente a Davi Moraes (filho de Moraes Moreira), Donatinho (filho de João Donato), Pedro Sá e Kassin. O diálogo entre as gerações é importante para a fluência das músicas.
Autotune autoerótico é um resumo poético do trabalho feito no disco. Na letra, Caetano comenta as novas ferramentas tecnológicas utilizadas para manipular sons e vozes. Nela, Gal expressa sua voz da forma que estamos acostumados a ouvir: feroz e macia.
Tudo dói é a expressão maior da melancolia que está presente em outras músicas do disco. “Viver é um desastre que sucede a alguns/Nada temos sobre os não nenhuns/Que nunca viriam”. Madre deus e Mansidão são as únicas composições não inéditas, que antecedem a criação do projeto. A primeira foi composta para o balé bale Onqotô, do grupo Corpo, interpretada por Zé Miguel Wisnik. Já a segunda, Jane Duboc gravou.
Recanto traz também o retrato do novo brasileiro que ascendeu no governo economicamente nos últimos anos. A migração da classe D para a C é bem apresentada na composição Neguinho: “Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz/Neguinho também só quer saber de filme em shopping”. A única música do disco que utiliza o autotune 100% do tempo é Maiami Maculê, metafunk carioca que Caetano compôs em homenagem ao funk. Ele admira o estilo musical e caracteriza como sendo um fato incrível na música popular brasileira.
O disco culmina em Segunda, clara alusão a Domingo, primeiro disco de Gal e Caetano. É a única faixa do CD que dispensa a pegada eletrônica, sendo a mais analógica. Moreno Veloso é quem fez todos os arranjos: prato, violão e violoncelo. A força do disco e a estranheza que causa à primeira ouvida são marcas fortes da dupla. Quem espera letras românticas e violas irá decepcionar-se. A melhor forma de ouvir é abrir-se para o desconhecido e desbravar versos e melodias.
Posts Relacionados
16.12.11 09:00
A parceria entre Gal Costa e Caetano Veloso está entre as mais sólidas da história da música brasileira. Começou oficialmente há 44 anos, quando estrearam juntos com Domingo, disco influenciado pela Bossa de João Gilberto. No anos 1970, coube à baiana cantar o amigo exilado em Londres, o que acabou lhe rendendo o título de “musa da Tropicália”. De volta ao Brasil, eles dividiram com Gilberto Gil e Maria Bethania o show/disco Doces Bárbaros. Em 1995, ela o homenageou com o tributo Mina d’água do meu canto e no ano seguinte se encontraram na trilha do filme Tieta do Agreste. Foram 35 discos lançados por Gal Costa, raros os que não traziam pelo menos uma composição de Caetano.
Diante de tal histórico, ninguém melhor que Caetano para guiar Gal Costa de volta ao mercado fonográfico. Há seis anos sem um disco de inéditas (o último foi Hoje, de 2005) e há tempos longe dos palcos brasileiros, ela está de volta às prateleiras com o rejuvenescedor Recanto. Idealizado e composto por ele especialmente para ela, o disco traz a voz aguda da cantora emoldurada em batidas eletrônicas, algo inédito na obra de ambos. A produção também tem a mão certeira de Caetano, dividida com o filho Moreno, afilhado de Gal. Para aumentar o clima de “feito lá em casa”, parte dos arranjos foram entregues a Kassin, produtor musical e amigo de Moreno há décadas.
Ouvir que o disco de Gal Costa traz batidas eletrônicas gera diferentes reações no público, da aversão à curiosidade. Houve até quem comparasse com um trabalho da Lady Gaga. O fato é que, dividindo com Maria Bethania e Elis Regina a trindade divina das vozes femininas brasileiras, Maria da Graça Costa Penna Burgos foi das três a que mais ousou nos estilos, sem perder a identidade. Fazendo um sobrevoo sobre sua carreira, é possível ver uma fase bossanovista, uma roqueira, uma axé, uma carnavalesca. Assim, feito de olho no autotune (programa que “corrige imperfeições” da voz e dos instrumentos), Recanto é um risco calculado que a intérprete já estava se devendo.
Ainda assim, Recanto não deixa de soar como Gal e Caetano juntos, apesar de ser mais denso e pesado do que eles normalmente parecem. Logo na largada, Recanto Escuro impressiona pela secura e crueza. Curiosamente, o que se ouve é a primeira voz que ela colocou na canção, ainda como teste. Acabou ficando definitiva. Mas a faixa escolhida para apresentar o disco foi Neguinho, um jogo de palavras bem ao estilo do compositor, feita sobre a base criada pelo filho Zeca Veloso. No entanto é Autotune Autoerótico que resume a ideia do disco (“Não, autotune não basta pra fazer o canto andar pelos caminhos que levam à grande beleza”). Já a dançante Miami Maculelê se destaca por aproximar Gal do funk carioca e tira Caetano Veloso dos bastidores pra dividir os vocais. Como quem quer provocar o ouvinte, a faixa vem seguida por Segunda, única faixa acústica do trabalho. Semelhante a uma embolada nordestina, a faixa é construída sobre um som insistente de violão, cello, prato e faca, tudo tocado por Moreno.
Somente duas faixas de Recanto não são inéditas. A estranha e climática Madre Deus foi composta para o balé Ogontô, do grupo Corpo, e gravada em 2005 por Zé Miguel Wisnik. A outra é Mansidão, faixa lançada por Jane Duboc em dueto com Caetano, em 1982. Rearranjada com a proposta eletrônica junto com o piano de Daniel Jobim, a canção faz a ponte entre o velho e o novo e traz implícita a mensagem de que há anos a modernidade faz parte do trabalho dos baianos. A verdade é que, pra quem estava a tanto tempo longe dos holofotes, Gal Costa decidiu voltar lembrando ao público que experimentar sempre fez parte do seu trabalho. E pra isso encontrou um parceiro à altura.
1. Recanto escuro
2. Cara do mundo
3. Autotune autoerótico
4. Tudo dói
5. Neguinho
6. O menino
7. Madre Deus
8. Mansidão
9. Sexo e dinheiro
10. Miami maculelê
11. Segunda
Posts Relacionados
28.11.11 17:52
Parceria de Gal e Caetano vaza na internet
Embora sempre aconteça com os discos muito esperados pelo público, o vazamento de músicas na internet antes do lançamento é sempre vendido como um incômodo para os artistas. Confesso que sempre achei que isso acontece de comum acordo entre as partes para testar a aceitação do público. Ainda, a mais nova vítima do golpe foi Gal Costa. Às voltas com a finalização de Recanto, disco de composições inéditas de Caetano Veloso com produção de Moreno Veloso (filho do Caê e afilhado da Gal), a baiana teve a faixa Neguinho lançada informalmente na internet neste fim de semana. Puxada pro uma crítica social bem caetanica, a morena joga sua brasa pra sardinha da música eletrônica. Quem quiser conferir, a dupla vai estar dia 5 de dezembro no sofá de Jô Soares.
Posts Relacionados
Posts Recentes
Categorias
Arquivos
Blogs O POVO