18.05.12 11:47
A intimidade do mito Raul Seixas
Por Pedro Rocha (pedrorocha@opovo.com.br)
“Nós estamos em torno de 140 mil, quer dizer, pra um documentário é uma bilheteria fantástica, porque a maioria dos filmes não passa de 70, 80 mil, muitos não chegam nem a 20”, fala por telefone Walter Carvalho sobre a bilheteria de Raul Seixas: o Início, o Fim e o Meio. Lançado no dia 23 de março, o documentário sobre o mito da música brasileira chega hoje às salas de cinema de Fortaleza com histórias que cobrem as várias fases da vida de Raul, desde a adolescência na Bahia, até a decadência no fim da vida, vítima do alcoolismo.
“Eu sou da geração que admirava Caetano e Chico, da geração de A Banda, de Alegria, Alegria. O Raul vem um pouco depois, em 71. Caetano e Chico já estavam na parada desde 1967. Mas o Raul caiu no gosto popular e era um cara que fazia uma música de fácil comunicação e ao mesmo tempo muito criativa”, comenta Walter, que recebeu o convite da Paramount para dirigir o documentário.
Depoimentos e imagens de arquivo costuram o filme.
Amigos de juventude relatam as aventuras de Raul quando este era ainda um adolescente que imitava os trejeitos dos ídolos do rock estadunidense, especialmente Elvis Presley. Gola em pé, cigarro na mão e o jeitão marrento de olhar sobre o ombro são lembrados pelos próprios colegas de Raul no Elvis Rock Club, criado por eles para cultuar o estilo musical e a figura do astro do filme Balada Sangrenta, de 1958.
Já no Rio de Janeiro, a projeção de Raul com Let Me Sing, Let Me Sing no Festival Internacional da Canção de 1972, misturando o rock norte-americano e o baião de Luiz Gonzaga, é o início de sua transformação num dos cantores mais populares do Brasil, que será seguida por sua identificação como um dos símbolos da contracultura no País.
A entrevista de Paulo Coelho é um dos pontos altos de Raul Seixas: o Início, o Fim e o Meio. O hoje escritor mundialmente reconhecido foi um dos principais parceiros de Raul Seixas, a pessoa que apresentou ao cantor as profundezas da contracultura na década de 1970, incluindo as drogas e o ocultismo. Sentando na sala de sua casa na Suíça, ele conta sem melindres as histórias desse tempo, os bastidores da composição de sucessos como Sociedade Alternativa e os motivos que fizeram Raul Seixas largar sua primeira esposa, Edith.
Ex-mulheres
Paixão de adolescência que acabou em casamento, Edith é a única das ex-mulheres de Raul Seixas que não concedeu entrevista a Walter Carvalho. “Ela foi a única que não quis falar, mas eu pedi através da filha que ela me mandasse uma carta”, conta o diretor. A primogênita de Raul, Simone, fala em inglês – Edith é americana e voltou para os Estados Unidos com a filha ainda pequena – sobre a relação superficial que teve com o pai, e lê a mensagem melancólica da mãe.
Outras ex-companheiras de Raul se sucedem no documentário na ordem em que entraram na vida dele, representando as diferentes fases de sua carreira e, principalmente, o aprofundamento de seu vício nas drogas até a morte. “Individualmente cada uma me recebeu muito bem. Eu tive acesso aos arquivos pessoais de todas”, fala Walter sobre as farpas que uma e outra soltam no filme.
A intimidade da vida do cantor e compositor se entrelaça no documentário à sua obra, através da filosofia de vida contestatória, alternativa, expressada nas músicas, que rejeitam os padrões prescritos pela sociedade. Jornalistas como Pedro Bial, Nelson Motta e Tárik de Souza comentam a música de Raul Seixas. Caetano ressalta a genialidade dos versos de Ouro de Tolo. E Tom Zé faz uma aparição cantando e tocando composição própria sobre a chegada de Lampião e Raul Seixas na reunião do Fundo Monetário Internacional.
Ao passo em que se entra na década de 1980, o filme mergulha na decadência do cantor, no irrefreável apetite pelas drogas, notadamente o álcool, no agravamento dos problemas de saúde como a diabetes e nas seguidas internações hospitalares, até a dramatização de sua morte. Um roteiro conhecido de ascensão e queda de um astro do rock – no caso de Raul, uma história profundamente brasileira.
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27.03.12 17:30
Documentário de Walter Carvalho mergulha na alma de Raul Seixas
94 pessoas em 400 horas de entrevistas. Esse é a contabilidade do diretor Walter Carvalho para fazer o filme O Começo, O fim e o Meio, sobre a vida maluca do Maluco Beleza Raul Seixas. Não ter preguiça de procurar e achar pessoas parece mesmo ser o único caminho para se desvendar os segredos da vida atribulada do roqueiro baiano que viveu como seus ídolos setentistas Lennon e
Elvis, ou seja cercado de talento, música, fãs e drogas. No caso de Raul, os excessos o mandaram num disco voador para outro plano em 21 de agosto de 1989, com uma série de problemas de saúde que foram resumidos em pancreatite. No entanto, nem a enfermidade foi capaz de apagar a imagem do anti-herói que deixou pra trás uma das obras mais ricas e belas da MFB (música fiosófica brasileira). Quer realmente saber quem foi Raul, pare agora, leia cada letra que ele escreveu e tente ver se você realmente concorda com o que está posto. Dessa forma você descobrir que ele ia um tanto à frente do que você está pronto para concordar.
E esse é o grande desafio de O Começo, O Fim e o Meio, exibir todas as ideias, propostas, incoerências e coerências do bardo. Já bastante elogiado por quem viu (Fortaleza ainda vai esperar um pouco), o filme traz depoimentos sinceros de Paulo Coelho, Caetano Veloso, Tom Zé e das ex-esposas Kika Seixas, Tania Menna Barreto, Lena Coutinho e Gloria Vaquer. Na cola do filme, como de praxe, sai junto uma coletânea dupla com 28 faixas e nenhuma surpresa. Só os velhos hits, que não deixam de ser ótimos.
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26.08.11 14:31
Scorsese libera trailer de documentário sobre George Harrison
O diretor Martin Scorsese liberou esta semana o trailer da vídeobiografia do beatle George Harrison. Living in a material world tem estreia programa no San Sebastian Film Festival, que começa em 16 de setembro. O documentário conta com depoimentos de Eric Clapton, Terry Gilliam, George Martin, Paul McCartney, Tom Petty, Yoko Ono, Phil Spector e Ringo Starr.
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19.08.11 16:31
Se 2009 foi o ano de Wilson Simonal, 2010 foi o ano de Itamar Assumpção. Cantor, compositor, pensador e provocador, o paulistano de Tietê é uma das figuras mais emblemáticas da Vanguarda Paulistana, movimento de fins dos anos 70 que introduziu uma nova linguagem musical pelas mãos de novos talentos como Arrigo Barnabé e do grupo Rumo. Cantado em verso e prosa por Alzira Espíndola, Rita Lee, Ná Ozzetti e outras vozes, infelizmente, Itamar nunca teve o reconhecimento que merecia. Somente no ano passado ele pode ver todos os seus discos resgatados e embalados na luxuosa Caixa Preta, projeto, inclusive, idealizado por ele mesmo. Avesso a qualquer tipo de simpatia obrigatória, ele não era de fazer concessões ou de abrir mão dos próprios direitos como compositor. Por isso mesmo, foi um guerrilheiro que lançou 11 discos de forma independente. Hoje isso é normal, mas na época, era disco mesmo, LP, e isso não era nada barato. Com o intuito de resgatar as histórias tragicômicas deste Quixote brasileiro, Itamar Assumpção é recriado no documentário Daquele instante em diante, de Rogério Velloso, que inaugurou a série Iconoclássicos *, do Itaú Cultural. Trazendo depoimentos preciosos de gente que esteve ao lado de Itamar, como os integrantes das bandas Isca de Polícia e Orquídeas de Brasil (bandas que o acompanharam em disco e shows), o filme segue uma ordem cronológica tendo como base os discos do compositor. Dessa forma, foi possível construir um panorama sobre a construção do Nego Dito (sua personificação musical), a mudança para uma banda só com mulheres e uma tentativa de ser popular gravando Ataulfo Alves (1909 – 1969). Nas entrelinhas, ficam as impressões de um batalhador, que nunca deixou de ter problemas financeiros, bom pai, bom amigo, e ser humano intempestivo e temperamental.
A ausência de medalhões da MPB no filme reforçam a ideia do quão impopular Itamar Assumpção podia ser, apesar de ter sido sucesso nas vozes de Zélia Duncan, Cássia Eller (1962 – 2001) e Ney Matogrosso. As imagens contidas em Daquele instante em diante são retiradas, principalmente de shows e programas de televisão. Em todas, o Nego Dito não dispensava seus óculos extravagantes e seus figurinos exóticos. Certamente, uma das marcas da obra de Itamar foi o fato dele ter exposto seus dramas e conquistas pessoais em forma de música. É como se nada do que ele fizesse fosse segredo. Tudo que foi registrado é real. E o filme foi bem hábil em captar a essência das canções. Longe de cair no sentimentalismo barato, o filme encerra com imagens do último show de Itamar Assumpção, realizado uma semana antes dele falecer em 12 de junho de 2003, vítima de câncer. Mesmo magro e debilitado, ele não deixava de lado a oportunidade de expressar suas urgências em forma de música. Sua melhor biografia está nos encartes dos discos. A filha Anelis Assumpção, inclusive, comentou com o diretor Rogério Velloso que gostaria de matar a saudade do pai com este filme. Um pedido difícil e uma grande responsabilidade que perpassa cada cena. O resultado é emocionante, irretocável, sensível e necessário a todos que se dizem fãs de boa música. Assim como é o próprio Itamar Assumpção.
18.08.11 14:37
Filhos de João faz retrato burocrático dos Novos Baianos
Nos anos 70, uma das bandas mais criativas, inventivas e loucas que passaram pelo Brasil foi Os Novos Baianos. Com um frontline formado por Moares Moreira, Dadi, Paulinho Boca de Cantor, Baby (então) Consuelo, Pepeu Gomes e o poeta Luiz Galvão, eles criaram um repertório cheio de beleza, delicadeza, peso e harmonia. Surgindo com os hippies e o flower power já bem instalados na cabeça da juventude, eles decidiram viver aqueles anos em comunidade, dividindo tudo, cuidando uns dos outros e, claro, carburando o cérebro com algumas substâncias pouco saudáveis. Inundados por Hendrix, Joplin e Woodstock, eles se viram numa encruzilhada quando receberam a visita de João Gilberto. Pai musical da geração Bossa Nova e também adepto das viagens a base de cannabis, foi o baiano de voz mansa quem mais incendiou a cuca daquele monte de malucos enxertando altas doses de Assis Valente e Dorival Caymmi nas guitarras deles. É por isso que Henrique Dantas batizou seu documentário de Filhos de João – O admirável mundo Novo Baiano. A proposta de resgatar a vida louca daquela trupe, é mais do que louvável. Separados desde o início dos 80, quando o modelo de vida em comunidade começou a trazer problemas particulares (principalmente para Moraes, que era casado e pai), o grupo se viu esquecido nas gavetas da memória brasileira. Junto com eles, foi também guardada uma das histórias mais interessantes e um dos repertórios mais completos da nossa música. A presença do conterrâneo Tom Zé faz uma síntese do quanto eles tinham de tropicalista. Para ele, em suas longas divagações teórico poéticas, os Novos Baianos foram “uma pequena manifestação do absurdo”. Apesar disso, ao diretor pecou em não se deixar levar por aquela história. Montado de forma burocrática, o filme parece cansativo em seus míseros 76 minutos.
Um passeio pelo youtube e você consegue ver mais sobre o grupo. A ausência de Baby entre os depoimentos, que cobrou um valor irreal para que tivesse sua imagem exibida, é sentida e quase comprometedora. No entanto, mais comprometedor seria não realizar o filme. Os demais estão todos lá. Pena que cabeças e mais cabeças passam pela tela sem os devidos créditos. Ninguém é obrigado a saber que é Galvão e Pepeu, muito menos o Bola ou o Gato Félix. Quanto às imagens, muitas são tiradas do filme Novos baianos F.C., de Solano Ribeiro (1973). Esse sim, uma verdadeira pérola gravada in loco em Jacarepaguá, no sítio Cantinho do Vovô, onde todos moravam. O documentário de Dantas já entra com desvantagem por conta das comparações inevitáveis com o de Solano, mas poderia ter ganho mais elogios se tivesse a preocupação de mostrar por onde anda cada novo baiano, o que cada um está fazendo hoje em dia. Até onde me consta, o único com carreira midiática é Moraes. Uma amiga, na porta do cinema, comentou que faltou música em Filhos de João. Ao lembrar quem foram aqueles cabeludos todos, talvez tenha faltado um pouco de loucura também.
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