02.04.12 10:00
Apenas uma cantora de Música Popular Brasileira
Na última quarta-feira (28), Maria Bethânia reuniu a imprensa brasileira para apresentar seu novo trabalho, o Oásis de Bethânia. O 50º, incluindo compactos, de uma carreira que já dura honrosos 47 anos. Num dia de céu nublado e chuva constante, o encontro se deu numa bela casa do bairro carioca de Botafogo, onde funciona a gravadora Biscoito Fino, responsável pelo lançamento.
Com cerca de 15 minutos de atraso, a cantora entrou na sala pisando uns dois palmos acima da terra. Mesmo trajada com simplicidade – camiseta branca, calças pretas, longo blazer vermelho e uma echarpe cor-de-rosa logo deixada de lado –, Bethânia não perde o ar de diva, apesar de repetir que é apenas uma “cantora de música popular”. Senta-se, brinca com um ou outro e mescla no semblante ares de seriedade, mansidão e disposição.
“É só isso que sei fazer. Sentar e conversar com as pessoas”, resume Bethânia que prefere um contato mais próximo do que as frias entrevistas por email. E foi na busca pelo mesmo calor que a baiana montou seu Oásis. “Eu queria estar mais perto dos músicos. Queria algo bem nu. De preferência, seria só voz e um instrumento. Se eu soubesse tocar, seria só eu e o instrumento”, explicou ela logo de início.
Partindo dessa ideia, ela foi escolhendo formações diferentes para cada canção. Diferentes e mínimas. A primeira selecionada, Lágrima (Cândido das Neves), que abre o disco, é acompanhada apenas pelo bandolim virtuoso de Hamilton de Holanda. “Essa já veio pronta com o músico. Eu queria essa elegância dele”, comentou a anfitriã.
Como nem todas as canções do Oásis de Bethânia vieram assim tão fáceis, ela contou bastante com os conselhos do baixista cearense Jorge Helder. “O Jorge é um estudioso. Ele veio com todo o prazer e foi sugerindo nomes”, elogia. De Alagoas veio Djavan com a inédita Vive, que traz o próprio compositor no violão. Da Bahia, Roque Ferreira, compositor obrigatório na obra recente da intérprete, veio Casablanca, Barulho e Fado. Esta última com os violões e violas do maestro Jaime Além. Do Rio de Janeiro, Chico Buarque ganha nova interpretação para Velho Francisco, guiada pelo violão de Lenine. “A versão do Chico é mais leve. E eu queria que doesse mais. Então chamei o Lenine, que tem uma pegada que é uma coisa, menino”.
Uma novidade apresentada neste Oásis de Bethânia é um texto de próprio punho, intitulado Carta de Amor, que mais parece um recado a quem lhe critica. Apesar de ser um assumida fã de poesia – “Fernando Pessoa é o meu poeta” -, esta é a primeira vez que a cantora bota uma composição sua em disco. “Escrevo muito, desde pequena, mas queimo tudo. Escrevo pra me preservar da visibilidade. Mas não queimo por medo. Queimo por que purifica”, explica completando que já o Brasil já tem muitos bons poetas.
Com o disco lançado, Maria Bethânia espera pelo próximo semestre para iniciar a nova turnê. Embora sem saber onde, a Bahia está fora dos planos. “Meu pai sempre dizia que santo de casa não faz milagre”, justifica. Puxo a brasa pra sardinha cearense e sugiro começar por Fortaleza. “E por que não? Faz muito tempo que não vou lá”. Mais precisamente em 2008, quando cantou ao lado de Omara Portuondo. “Há! Pois tá na hora de voltar mesmo. Gosto muito daquilo ali”. Agora é só esperar.
Posts Relacionados
15.02.12 11:12
“Você viu só que amor. Nunca vi coisa assim. E passou nem parou, mas olhou só pra mim”. Os versos de Samba de Verão foram lançados em 1964 e logo atingiram o topo das paradas internacionais. Com uma carioquice despretensiosa, a bossa falando de uma rápida troca de olhares colocou os compositores Marcos e Paulo Sérgio Valle no primeiro time da MPB. Pra se ter uma ideia, Samba de Verão e Garota de Ipanema são as músicas brasileiras mais regravadas no exterior. Segundo as contas do autor, a primeira já passa das 500 versões.
Ainda assim, já tinha um tempo boa parte do trabalho dos irmãos Valle estava fora de catálogo no Brasil. Esse jogo só começou a virar no ano passado, quando chegou as lojas o box Marcos Valle Tudo (EMI) com toda a produção do compositor carioca lançada desde a estreia com Samba demais (1963) até No rumo do sol (1974). Em 2012, uma nova caixa chegou às lojas com o nome Marcos Valle 80 (Discobertas), agregando os discos Vontade de rever você (1981), Marcos Valle (1983) e Tempo da gente (1986). Este último estava praticamente esquecido, desde que a gravadora Arca Som fechou as portas.
“Ta tudo voltando, o que é muito bom. Isso me dá incentivo, por que eu gosto muito de estar trabalhando”, comemora o compositor em entrevista por telefone. De sua casa no Rio de Janeiro, ele se orgulha, citando disco por disco, de ter uma obra que passeia por tantos estilos. Lançado numa segunda leva de compositores bossanivistas, Valle também se notabilizou como um dos nomes do soul, da música de protesto e do jazz. “Essa mistura de estilos sempre esteve na minha música. No começo a influência da Bossa foi muito forte, mas, a partir do segundo disco, a coisa começa a mudar”.
E, quando começou a mudar, não teve volta. Pianista virtuoso, a facilidade de Marcos Valle para agregar estilos se tornou uma marca registrada numa carreira que já dura quase 50 anos. Mais ainda depois que ele morou nos Estados Unidos, no intervalo entre 1975 e 1980. Cansado da “encheção de saco” dos militares que lhe cobravam explicações por canções como Viola enluarada (“a mão que toca o violão, se for preciso, faz a guerra”), achou melhor sair do País e, por lá, gravou com a diva Sarah Vaughan (num tributo aos Beatles), colaborou com a banda Chicago (para quem compôs Life is what it is) e conheceu Leon Ware (ícone do soul com sucessos gravados por Michael Jackson e Marvin Gaye).
De volta ao Brasil, atendendo um convite da Som Livre, Marcos Valle levou um ano para montar o ensolarado Vontade de rever você. Recheado de teclados e dos parceiros ilustres da América do Norte, o disco era um prenúncio do estilo mais dançante que dominaria os trabalhos do carioca naquela década. Tanto que, em 1984, ele garantiu um espaço nas rádios com os sucessos falando sobre o culto ao corpo, como Bicicleta e Estrelar. “Nessa época, tinha gente que me parava perguntando se eu tinha uma academia”, se diverte o compositor que chegou a posar junto a um monte de sucos naturais para a capa do seu disco de 1983.
Os anos 1990 chegaram para Marcos Valle trazendo mais novidades. Com a ajuda da cantora Joyce Moreno, ele começou a conquistar a Europa e a Ásia, que retribuíram colocando seus sons mais balançados nas pistas. “Meu público lá é muito jovem. Esse público elegeu sucessos como Os grilos e Freio aerodinâmico, músicas mais grooviadas que pegaram eles em cheio, tanto quanto o Samba de Verão”, comenta. Outra mudança veio com a entrada de novos parceiros na sua lista, embora o irmão três anos mais velho Paulo Sérgio continue fiel (“como ele me conhece bem, em várias letras ele fala de mim, da minha personalidade, o que eu penso, minha cabeça maluca de emoções”).
Outra mudança das últimas décadas veio com introdução de um sotaque mais jazzístico em suas canções. Se o jazz faz uma ponte com os primeiros anos de Bossa Nova, também fez de Marcos Valle um nome requisitado pelos novos nomes do estilo americano. Entre eles, está a cantora Stacey Kent, que conheceu no aniversário de 80 anos do Cristo Redentor, e com quem vai engatar uma turnê que começa por Fortaleza ainda neste primeiro semestre. “Estamos em fase de ensaios. O repertório vai ser só Marcos Valle, com sucessos e músicas novas”, adianta o compositor. Essa vai ser uma boa oportunidade de conhecer um pedaço redescoberto da obra de Marcos Valle, antes, inclusive, de que ele mude de som novamente.
Posts Relacionados
07.02.12 13:27
Amelinha hoje canta muito mais
Uma das vozes mais marcantes da música cearense, já tinha tempo que o público perguntava pela Amelinha. Há décadas morando em Niterói (RJ), nunca faltou quem a cobrasse por uma volta aos palcos. O que boa parte das pessoas não sabiam é que ela nunca abandonou seu ofício de cantora. Acontece que Amélia Cláudia Garcia Colares, 61, faz parte de um grande grupo de artistas que vai ficando longe da mídia por não querer se adequar às regras míopes do mercado fonográfico.
No entanto, como é sabido, o mundo dá voltas. No caso de Amelinha, seu mundo deu algumas piruetas no ano passado. Depois de muito procurá-la, o DJ Zé Pedro enfim conseguiu formalizar um convite para que ela gravasse um disco pela sua gravadora, a Joia Moderna. “Talvez esse seja o disco mais importante da JM”, comentou o DJ que já tinha o carinho da cantora (ainda não revelado) por conta do remix do hit Frevo Mulher.
E assim que nasceu Janelas do Brasil, disco que sai 10 anos depois do revisionista e insosso Pessoal do Ceará (dividido com Belchior e Ednardo). Gravado durante “três noites mágicas”, o novo trabalho agrega 12 canções interpretadas em tom confessional e intimista por Amelinha. Ao seu lado, apenas o músico paulista Dino Barioni, responsável por arranjos, violões e guitarras. Tudo sem excessos. “Foi como se eu estivesse cantando na sala com amigos. Quando o Fagner, o Ednardo ou o Rodger me mostravam músicas, era sempre no violão”, lembra a cantora durante uma longa conversa por telefone.
Antes de receber a proposta, recebida com grande entusiasmo, Amelinha já vinha, desde 2008, com uma turnê de voz e violão chamada Janelas do Brasil. Zé Pedro e o produtor Thiago Marques Luiz lhe apresentaram uma seleção de repertório e lhe sugeriram o acompanhamento de Dino, a quem ela ainda não conhecia. “Escolhemos as músicas em fevereiro, mas só vi o Dino uma vez na casa do Zé Pedro, para tirar os tons, na primeira semana de julho”, conta. Nesse meio tempo, ela foi ouvindo as canções e entendendo o que cada uma tinha para dizer. Mas sem perder muito tempo “para não gastar a emoção”.
O resultado desse encontro foi um disco repleto de verdade e sutilezas. Janelas do Brasil começa revelando que a voz de Amelinha continua em forma. Mesmo longe de todo o aparato instrumental ou das vozes dobradas de antigos sucessos, como Foi Deus que fez você ou Frevo mulher, ela mantém o brilho do seu instrumento. “A voz lhe trata como você tratá-la”, sublinha a cantora que não gosta de dar palhinhas ou cantar informalmente. Cuidadosa, é como entoa na canção de Amaro Penna, que fecha o disco: “Pra seguir um violeiro, é preciso ser canção (…), cantar feito oração”.
Buscando abrir janelas próximas e distantes, o repertório passeia por canções ligadas à história da cearense e abre espaço para novidades. Da raiz, ela tira amigos de tantos anos, com quem ainda mantém um bom papo sempre que se encontram. São eles Fagner (Asa Partida), Ednardo (Terral) e Belchior (Galos, noite e quintais). Da paraibana Cátia de França, compositora do antigo sucesso Coito das Araras, ela refaz a solar Ponta do Seixas. Já a buliçosa Quando fugias de mim, vem de Alceu Valença e Emmanoel Cavalcanti. Entre as surpresas, o desejo antigo de gravar Zeca Baleiro (O silêncio) e uma interpretação madura de Marcelo Jeneci (Felicidade).
No início da carreira de cantora, um dos primeiros compositores de fora do Ceará a prestar atenção em Amelinha foi Vinicius de Moraes, com quem ela chegou a trabalhar numa temporada em Punta Del Leste. Em homenagem ao amigo, ela canta uma delicada parceria do Poetinha com Marília Medalha, Algum lugar. “Teve uma vez que ele foi lá em casa e eu resolvi cozinhar alguma coisa para nós. Imagina, eu cozinhando pro Vinicius? Acabei queimando tudo. E ele só dizia assim: “Bichinha, se incomode não. Eu vou lhe ensinar a receita de um franguinho”, lembra Amelinha entre risadas.
Mais emocionada ainda ela fica ao comentar sobre a boa recepção que seu novo disco vem recebendo. Tanto que agora Amelinha já pensa em abrir novas janelas, quem sabe para o som dos mineiros (“na minha casa tem uma janela lateral, como diz o Beto Guedes”). Certa de estar atravessando um bom momento, ela nem pensa no tempo que passou longe dos discos e nas propostas nada atraentes que recebeu. “A minha missão não terminou. É pra isso que eu vim, pra cantar, pra ter essa troca com o público”.
Posts Relacionados
06.02.12 10:42
Na enxurrada de artistas pernambucanos que tomaram de assalto a música pop brasileira a partir da década de 1990, havia um grupo que se destacava pela performance agressiva e teatral do vocalista. Tratava-se do Cordel do Fogo Encantado, banda inusitada até no nome, que juntava o som de muitos tambores e percussões, com som de cordas e uma poesia fincada na terra, inspirada em João Cabral de Melo Neto (1920 – 1999). À frente do quinteto, recitando tudo com sotaque bem característico, estava José Paes de Lira, o Lirinha.
Foram 11 anos, três discos e um DVD com o grupo, até que Lirinha (fotos: Caroline Bittencourt), agora morando em São Paulo, decidiu tentar novos rumos. Sua saída do Cordel aconteceu em 2010, decretando o fim da banda. Foi mais de um ano que o cantor levou para se afastar do que tinha de Cordel, para criar um novo som. Chegou a excursionar com o amigo Otto por um tempo, antes de chegar às conclusões agora apresentadas em Lira (Independente). Mostrando seu lado mais rocker, o disco traz uma nova formação de banda, calcada basicamente em guitarras (Neilton, do Devotos), teclados (Bactéria, do Mundo Livre S/A) e bateria (Pupillo, Nação Zumbi).
Soturno e intrigante, Lira intercala momentos de experimentação (Eletrônica viva) com outros mais pops (Memória), e mantém a veia poética cheia de imagens cinematográficas (“Eu te vejo voltando pra casa trazendo nos braços as flores colhidas”). “Meu trabalho anterior tinha uma base percussiva e era um objetivo meu manter essa característica, mas com uma ampliação dos elementos harmônicos, teclados, sintetizadores, guitarra, e uma poesia mais pessoal”, explica Lirinha que faz questão de afirmar que nunca brigou os antigos companheiros de banda.
Segundo ele, a decisão de seguir sozinho foi mesmo estética. Para essa nova aventura, ele convidou Pupillo para ser seu produtor. Em conjunto, eles foram trabalhando cada elemento do disco em particular, desde a procura por um som específico de baixo (feito nos teclados) até as participações especiais. Entre elas, Lula Côrtes, responsável pelo mítico Paêbiru (1975), disco dividido com Zé Ramalho. O músico toca tricórdio (espécie de cítara marroquina) em Adebayor, homenagem ao futebolista africano Emmanuel Adebayor. “Ele (Lula) dizia: “faz tempo que eu não toco”. Mas insistimos, ele gravou e a música ficou forte. A gente ainda ia gravar a voz, mas ele morreu uma semana depois que nos encontramos”, lamenta Lirinha.
Em compensação, Lira foi a oportunidade de Lirinha realizar um grande sonho, ter uma composição gravada por Ângela Ro Ro. A escolhida foi Valete (“vou te contar minha paixão por uma valete de paus, e ele vivia aqui na minha mão”), que conta ainda com os vocais de Otto. “Eu tinha uma música que ainda estava pela metade. Quando ela aceitou o convite, eu consegui completar o que faltava”, conta Lirinha lembrando das muitas farras que fez pelo Recife cantando Amor, meu grande amor e outras músicas de Ângela.
Num contraponto às 11 faixas que Lirinha canta com sua voz trágica e, agora, mais melodiosa, o disco encerra com My life, composição de João, seu filho de 9 anos. Longe das afetações das crianças prodígios, o pequeno, que mora no País de Gales com a mãe, enche seus versos (“eu realmente quero ser como meu pai”) de autenticidade. “Ele foi passar o Carnaval em Recife e, no meio do nosso ensaio, ele mostrou a música. Eu já botaria por uma corujisse. Ele é melhor do que eu”, admite o pai.
Ainda sem traçar uma rota certa para o futuro, Lirinha apenas tem certeza de que quer seguir tocando seu som. Fiel à história que construiu com o Cordel do fogo Encantado, ele fechou um ciclo pra começar um outro que fale mais sobre o que anda pensando, fazendo e sentindo no momento. “Numa carreira solo, a solidão é maior nas decisões e isso às vezes é ruim. Você fica com mais responsabilidades. Por outro lado, o positivo é poder ter essa coisa de fazer um caminho, escolher por si”.
DISCOGRAFIA – Queria que você começasse falando sobre o novo disco. Todas as músicas foram feitas especialmente pra ele?
Lirinha – Eu desejava fazer esse disco há um tempo. Ele tem uma relação minha maior com os recursos harmônicos. Meu trabalho anterior tinha uma base percussiva e era um objetivo meu manter essa característica, mas com uma ampliação dos elementos harmônicos, teclados, sintetizadores, guitarra, e uma poesia mais pessoal. É o disco dos meus sonhos, de um íntimo desejo. Também tive que reinventar uma interpretação mais melódica, mais cantada. Foi uma novidade. Esse repertório nasceu todo num momento só, evitei trazer pra ele músicas que já tinha. No Cordel ninguém parava de desenvolver, compor. Mas não foram essas canções que eu trouxe pra esse trabalho.
DISCOGRAFIA – O disco é tocado por recifenses, mas as fotos de divulgação foram feitas em São Paulo. O que ele tem de Recife e de São Paulo?
Lirinha – Eu moro já faz um tempo aqui em São Paulo, mas o trânsito é muito intenso. Vou muito a Arcoverde (Recife, terra natal de Lirinha). Eu ia mais. Esse ano to mais aqui. Fui a Recife no verão passado e gravei metade do disco, o Neilton mora lá. Mas o Pupillo tava aqui e é praticamente meu vizinho.
DISCOGRAFIA – A disco tem um clima soturno, apesar de músicas falando de amor. Como você pensava que ele deveria soar? Algo mudou durante o período de gravação?
Lirinha – Isso foi surpresa mesmo. Não tinha intenção que ele fosse melancólico. Depois que percebi que ele tem vários momentos assim. Mas foi um disco muito pensado, racionalizado. Eu tinha ideia de trabalhar com esses músicos. Quando chamei o Pupillo pra produzir, conversei sobre essas músicas. Eu já tocava todas as músicas no violão ou piano, gravei todas assim e terminei todas as letras antes (de gravar). Assim, fiquei com muita propriedade. Conversamos muito sobre o baixo, eu queria fazer com os sintetizadores. Tinha um som específico que eu tava procurando. Pensamos no moog, mas ele acabou nem usado. Eu sabia que o Neilton é muito bom, é um grande músico. Queria ver o punk dele nessa coisa.
DISCOGRAFIA – A sonoridade inclusive é bem diferente do que você fazia no Cordel. Isso foi de caso pensado?
Lirinha – Ah, sim. Saí do Cordel sem nenhuma briga e foi dificílimo por isso mesmo. Foi uma decisão estética. Queria fazer uma música que não cabia no Cordel. Eu fundei o Cordel, dei o nome da banda. Mas queria exercitar uma outra coisa, uma mensagem que eu queria dar. Pra mim não fazia sentido sair, pra continuar com a sonoridade do Cordel. Na verdade, com minha saída do Cordel, não me vejo substituindo aqueles músicos. Eram todos muito bons. Mas aquele som era muito meu.
DISCOGRAFIA – Como nasceram essas novas canções?
Lirinha – Aconteceram algumas surpresas. Noite fria é uma música diferente, nem ia entrar nesse disco. Mas ela praticamente surpreendeu a todos. Ela foi gravada por um clássico tocador de violão de sete cordas de frevo. Chamamos o Maestro Forró pra fazer o trompete e ele fez três. Algumas coisas foram acontecendo.
DISCOGRAFIA – O disco encerra com uma faixa do seu filho de nove anos, que inclusive lhe homenageia. Como nasceu essa canção?
Lirinha – Eu só botei por que não dava pra não botar. Eu botaria por uma corujisse. Ele mora no País de Gales e foi passar o Carnaval em Recife. No meio do nosso ensaio, ele mostrou a música. Foi muita coragem da parte dele. Ele é melhor do que eu.
DISCOGRAFIA – O disco traz uma participação do Lula Cortes. Como foi o convite?
Lirinha – Quando convidei o Pupillo, ele sugeriu uma homenagem ao Paebiru (disco de 1975, gravado por Zé Ramalho e Lula Cortes). Falamos com ele, mas ele não queria tocar o tricordio (instrumento usado na época da gravação do disco). Ele dizia: “faz tempo que eu não toco”. Insistimos, ele gravou e a música ficou forte. Esse foi o último registro dele. A gente ainda ia gravar a voz, mas ele morreu uma semana depois que nos encontramos.
DISCOGRAFIA – Queria que você falasse nas outras participações, Otto e Ângela Ro Ro.
Lirinha – Eu tinha muita vontade de gravar com a Ângela, e que ela gravasse uma música minha. Nem acreditava que isso pudesse acontecer. Eu ouvia muito ela. Muitas farras foram feitas ouvindo Ângela Ro Ro. Eu tinha uma música que ainda estava pela metade. Quando ela aceitou, eu completei a música. Já o Otto é um amigo importante. Quando saí do Cordel, passei um tempo muito triste e ele me convidou pra fazer uma série de shows que foi muito importante pra mim. Foram cinco shows com ele.
DISCOGRAFIA – Recife continua sendo um dos principais produtores de talentos do Brasil. Você continua acompanhando o que se faz por lá?
Lirinha – Existe uma cena nova, uma produção intensa. Acompanho, mas a gente termina tendo muito contato com os músicos. O que eu poderia dizer também é que a terra tem essa característica. Minha percepção é de uma característica do lugar, de uma forma de ter uma produção e uma vontade de ser diferente, um movimento que se faz. É cobrada essa diferença. Lá, não pode chegar um vocalista imitando o Chico Science.
DISCOGRAFIA – Seu modo de cantar é bem marcante, principalmente pelo sotaque e pela teatralidade. Qual sua relação hoje com o teatro? Ainda continua atuando?
Lirinha – Fiz uma peça como se fosse uma transição, chamada Mercadorias e Futuro. Uma peça que eu atuava sozinho, com vários pedais que disparavam vários sons. Já tinha ligação com a música. Mas eu to mais a fim de passar um tempo trazendo essas minhas características pra música. Me sinto mais feliz. Antes do teatro mesmo, minha primeira escola, foi a declamação de poesia. Comecei a fazer teatro e juntar música, e virou o Cordel, que durou três anos. Quando fomos pra Recife, mudou pra ser o nome da banda.
DISCOGRAFIA – Sua saída do Cordel foi definitiva pro fim do grupo. O que tem de bom e de ruim em seguir carreira solo? Quais seus planos?
Lirinha – A solidão é maior nas decisões e isso às vezes é ruim. Você fica com mais responsabilidades. Por outro lado, o positivo é poder ter essa coisa de fazer um caminho, escolher por si. Quanto aos planos, quero seguir tocando. Já comecei a turnê em outubro (2011).
23.01.12 17:15
Do outro lado da linha, uma música alta impede a conversa de seguir normalmente. “Adoro Maria Callas, música cubana. Sou muito salseiro, sabe? Misturo tudo numa porralouquice só”. Aliás, porralouquice poderia ser o sobrenome de Edivaldo Araújo de Souza. Cantor, pintor, ator, diretor, figurinista, apresentador são só algumas das funções que esse baiano de Juazeiro assumiu ao longo dos seus 74 anos. O mais curioso é que ele parece misturar tudo ao mesmo tempo. A vida para ele é um palco constante. Por isso mesmo, precisava de um nome mais pomposo para assinar. Foi aí que nasceu Edy Star.
Sobrevivente da loucura criativa da década de 1970, Edy fez fama por onde passou usando sua vasta cabeleira, suas calças coladas ao corpo malhado, sua maquiagem pesada e seu rebolado irrefreável. Depois de quase 20 anos morando na Europa, onde foi morar “pra não morrer de fome”, ele está de volta ao Brasil para relembrar que ainda existe vida fora do politicamente correto. Isso ele prova ao longo das 13 faixas de Sweet Edy, seu primeiro e único disco relançado em CD depois de 38 anos pela Joia Moderna.
A “licença poética” feita pela gravadora exclusiva das cantoras se explica pelo fato de Edy Star ser um dos primeiros artistas assumidamente gays do Brasil. Aliás, gay não, por que ele odeia essa palavra. É bicha mesmo. “Em programa de auditório, descobri que o público adorava quando eu fazia bicharia no palco. Na rua era outra coisa, coçava até o colhão”, lembra o brigão que, quando mais jovem, sentava o braço ou passava a navalha em quem viesse tirar piada com seu estilo. Aliás foi justamente esse jeitão que lhe rendeu o apelido de “Bofélia, a bicha mais bofe”, dado pelo amigo Raul Seixas.
Engraçado, teatral, escrachado, Edy Star fez o que pode pra botar mais da sua personalidade explosiva em Sweet Edy. Pra isso, recorreu aos amigos pedindo músicas inéditas para gravar. E que amigos. Erasmo, Roberto, Caetano, Mautner, Leno foram alguns dos colaboradores. Gonzaguinha, Zé Rodrix e Luiz Melodia também se dispuseram, mas ficaram de fora do disco por conta da censura federal. Gilberto Gil, amigo com quem foi preso por vadiagem, lhe homenageou com o rock Edyth Cooper (“Edyth Cooper faz minha vassoura voar”). “Eu sempre pensei: ‘como o disco não vai vender, vou fazer do meu jeito’”, lembra ele orgulhoso por ouvir de Paulinho da Viola que sua versão para Esses Moços (Lupicínio Rodrigues) é a melhor já ouvida pelo sambista.
Embora não tenha gostado muito do resultado logo que ouviu em 1974, Edy Star confessa que ficou bem emocionado ao ver o relançamento luxuoso de 38 depois. “Fiquei uns dez minutos olhando, sem ter coragem de abrir”, admite. Principalmente, por que muita gente vai lembrar que ele não é só o cara que dividiu com Raul Seixas, Miriam Batucada e Sérgio Sampaio o mítico Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10. “Foi um disco que não influenciou minha carreira. O Raul mandou me chamar por que eu tinha um programa de TV e já era conhecido”, explica antes de elogiar o trabalho coletivo lançado em 1971. “Acho um disco contemporâneo que cumpriu a finalidade dele. Um divisor de águas”.
Apesar desses dois LPs hoje serem um tesouro perdido em alguns poucos sebos pelo mundo, nenhum chegou a render muito dinheiro para Edy. Como ele achou Sweet muito comportado para seu padrão de qualidade, preferiu não cantá-lo em shows. Quanto a Sessão das 10, foi a própria gravadora que decidiu não fazer divulgação. Edy então foi se dedicar mais ao teatro. Chegou a trabalhar oito meses em Fortaleza, de onde levou uma grande amizade com a humorista Rossicléa. Em 1992, cansado de bater cabeça atrás de trabalho, partiu para a Europa para atuar como apresentador num cabaré de strip-tease.
Elétrico, como se fosse ligado a uma tomada, nem um câncer de próstata há quatro anos o afastou dos palcos. Agora que ele descobriu que é um artista cult e que seus LPs chegam a ser vendidos por até R$500, ele já planeja uma continuação de Sweet Edy. O novo disco ainda não tem prazo, mas já começou a ser desenhado. Além de incluir as faixas que foram cortadas pela ditadura, vai trazer participações de velhos amigos como Cauby Peixoto, Emílio Santiago e Caetano Veloso. “Esse relançamento é uma oportunidade de trabalhar em cima da minha figura. Eu sou Edy Star, não o cara que trabalhou com o Raul”. E que venham mais canções, transgressões, plumas e paetês.
Sociedade do espetáculo
Para muitos fãs de Raul Seixas, Edy Star é reconhecido como o único sobrevivente do disco Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10. O disco lançado em 1971, foi um projeto idealizado por Raul Seixas, então produtor musical da CBS, que passou batido pelo público da época por que não teve apoio pra divulgação. Reunindo uma turma de malucos que incluía Edy Star, Sérgio Sampaio (1947 – 1994) e Miriam Batucada (1947 – 1994), Raul montou uma espécie de ópera rock homenageando Beatles e Frank Zappa. Curiosamente, na época que gravou Sessão das 10, Edy nem assinava como “Star”. Mas a gravadora implicou com o fato de Raul se lançar como cantor e mandou recolher os discos das prateleiras. Como resposta, o Maluco Beleza pediu demissão e foi tocar a própria carreira.
Em 2009, Edy Star, já morando na Europa, recebeu um convite para participar da Virada Cultural paulista cantando todas as músicas desse disco, que agora era um clássico. Com sua performance hipnótica e sua voz poderosa, ganhou o público de tal forma que acabou voltando ao evento por mais dois anos seguidos. Com o relançamento de Sessão das 10 no ano passado, toda a carreira discográfica de Edy Star ficou disponível nas lojas. É só adquirir um e viajar para os tempos do desbunde total.
21.01.12 09:10
Já é comum entre os compositores aproveitar a inspiração de um novo relacionamento para transformar tudo em música. Curiosamente, o inverso também existe. Muitos discos e canções nasceram de amores defeitos. Sejam trágicos ou serenos, regados a whisky ou cerveja, muitos términos também viraram música. E esse foi o caso de Que isso fique entre nós, terceiro disco do cantor e compositor paulistano Pélico.
Após uma despedida com sabor de dramalhão, daquelas com direito a mala na calçada e panela voando, o cantor decidiu dar um tempo viajando para se livrar das lembranças. Durante uma parada de 40 dias em Buenos Aires, ele começou a escrever canções sobre o passado e moldar o que viria a ser o Que isso fique entre nós. Apesar do tom pesado adotado no término, o disco caminha pela lado da delicadeza. Os arranjos cheios de sopros e a voz intimista do cantor parecem querer deixar tudo esclarecido, apagar mágoas e apertar os últimos nós. “Pode apostar, não há por que tanta mágoa assim se ainda não é tempo de chorar”, diz ele logo na abertura.
Neto de seresteiro e filho de um casal de músicos que costumava tocar na igreja, Pélico cresceu ao pé do radinho de pilha ouvindo de tudo, desde os hitmakers dos anos 80 até o onipresente Roberto Carlos. Isso lhe deu gosto pelas músicas simples, diretas e até aparentemente banais. Chegou a se virar como office-boy e vendedor de tecidos antes de, aos 17 anos, começar a trabalhar num estúdio. “Isso foi essencial pra minha formação musical, porque tive a oportunidade de ver grandes profissionais compondo, fazendo arranjos e produzindo discos”, lembra em entrevista por email.
Nessa época, Pélico já tinha algumas composições aguardando pra ver a luz do dia. Em 2001, ele lançou o EP Suburbano. Dois anos depois foi a vez do disco Melodrama, com composições, arranjos e produção próprios. Mais um EP em 2006, e em 2008 vem o roqueiro e passional O Último Dia de Um Homem Sem Juízo. “Eu estava numa fase muito ligada à estética do rock. Também estava passando por um momento bem difícil na minha vida pessoal, talvez por isso a escolha desse nome, o conteúdo das letras, o sarcasmo, o inconformismo. Eu estava bebendo muito nessa época. Não sei, talvez só eu veja isso, mas eu sinto uma certa embriaguez no disco. Mas eu gosto muito do resultado”, revela.
Passada mais essa turbulência, veio o novo Que isso fique entre nós. O disco é um apanhado de 14 faixas de próprio punho – apenas duas trazem parceria – que contam com instrumentos distantes do pop, como fagote, clarinete ou banjo. Ainda assim, não se trata de um disco para eruditos. A produção de Jesus Sanchez deu unidade a letras e melodias melancólicas, sem deixar o clima deprê. Vamo tentá, por exemplo, é roquezinho animado e esperançoso por uma nova chance. Levarei é um cruzamento de Cidadão Instigado com Odair José. Tenha Fé, meu bem é um hula-hula sobre saudade.
Dando unidade ao disco também está a voz rouca e sentimental de Pélico. Com um toque de tristeza e urgência, ela lamenta em Não vou te deixar, por enquanto ou Não éramos tão assim. “Gosto de interpretar minhas músicas, fazer uma versão de outro compositor, mas sempre procuro cantar do jeito que posso. Sempre me identifiquei com aqueles que cantam na raça”. Mesmo confessando que a melancolia não era o propósito do disco, ele faz de “Que isso fique entre nós” uma carta aberta aos pais, amigos e ex-amores. E deixa claro que vai passar por todos os turbilhões com a ajuda da música.
DISCOGRAFIA – Começando pela sua história, sei que antes da música você fez vários outros trabalhos. Queria que você começasse falando sobre essa época. Quando e como foi a primeira vez que você ganhou algum dinheiro com música?
Pélico - É, antes de trabalhar com música eu fui office-boy e vendedor de tecido. Passei rápido por essas duas profissões e aos 17 anos comecei a trabalhar num estúdio. Isso foi essencial pra minha formação musical, porque tive a oportunidade de ver grandes
profissionais compondo, fazendo arranjos e produzindo discos. Nessa época eu já tinha algumas composições, mas só fui gravar meu primeiro EP em 2001. Depois de dois anos eu gravei meu primeiro CD, nos anos seguintes alguns EPs e em 2008 eu lancei o
CD “O Último Dia de Um Homem Sem Juízo. Só depois do lançamento desse disco, é que eu vi alguma graninha pingar no meu bolso. Não que eu tocasse de graça antes disso, mas o cachê mal pagava os músicos que me acompanhavam, por isso eu sempre
tive um outro emprego que financiasse minha carreira.
DISCOGRAFIA – Como neto de seresteiro, você é filho de uma família musical?
Pélico - Profissionalmente só meu avô paterno é quem foi músico. Mas meus pais são muito musicais, quando jovens, minha mãe tocou órgão e meu pai saxofone na igreja.
DISCOGRAFIA – Qual foi seu primeiro canal para conhecer música? O que ouvia? Quais são suas lembranças musicais mais antigas?
Pélico – Sempre teve muita música em casa, de Tião Carreiro & Pardinho a Nat King Cole. Mas minha lembrança mais remota é o sonzinho do rádio que minha mãe ouvia. Ela costurava e eu ficava ali em sua sala de costura brincando. Lembro de ouvir Roberto Carlos, Guilherme Arantes, Nelson Ned, Lulu Santos e vários outros artistas populares que tocavam na rádio no início dos anos 80.
DISCOGRAFIA – Quais são as principais referências do seu trabalho?
Pélico - Tenho uma identificação com compositores que fazem música de forma simples, direta, visceral e até mesmo aqueles que pareçam ser banais. Gosto dos incoerentes. Tenho pavor de compositores acadêmicos.
DISCOGRAFIA – Ao mesmo tempo que as gravadoras andam sofrendo com a pirataria, muitos novos artistas vêm lançando discos novos. Queria que você falasse sobre o lançamento e a recepção a este “Que isso fique entre nós”.
Pélico - A pirataria é um problema da indústria e, claro, não devemos menosprezá-la, mas isso não deve impedir a produção artística. Antes de lançar o “Que Isso Fique Entre Nós” eu pensei duas vezes antes de oficializar o download gratuito. Hoje tenho certeza que fiz a melhor escolha. Mesmo com o download gratuito, o CD – 3 meses após o lançamento – já está indo pra segunda edição. Isso mostra que a prática de “doar música” prejudica a venda de CD não é regra. A crítica recebeu muito bem o disco, mas o que me deixa mais feliz são as mensagens que as pessoas me mandam, ou dizem depois de um show e tal. Já vieram me falar: -
Pô, a música “Recado” é tudo aquilo que eu queria dizer pro meu namorado. Um outro: – Quando me separei da minha mulher, eu praticamente declamei a “Vamo Tentá”. Uma outra garota: – Seu disco é tão minha pseudo-vida-amorosa. Enfim, depoimentos
como esses são os melhores elogios que um compositor popular pode receber, na minha opinião.
DISCOGRAFIA – Este é seu terceiro trabalho. Como foram os anteriores? O que eles tem de semelhante e diferente com o novo?
Pélico - O primeiro CD “Melodrama” é um resumo dos meus primeiros anos como compositor. Eu fiz a maioria dos arranjos e a produção, então eu acho que é mais um laboratório. O segundo “O Último Dia de Um Homem Sem Juízo”, eu estava numa fase muito
ligado a estética do rock, também estava passando por um momento bem difícil na minha vida pessoal, talvez por isso a escolha desse nome, o conteúdo das letras, o sarcasmo, o inconformismo. Eu estava bebendo muito nessa época. Não sei, talvez
só eu veja isso, mas eu sinto uma certa embriaguez no disco. Mas eu gosto muito do resultado. Com o novo eu volto à simplicidade das canções, a abordagem direta nas letras, a escolha de novos instrumentos, o Bruno Bonaventure fazendo arranjos pra metais e
madeiras, uma nova concepção do produtor (Jesus Sanchez – que também produziu o anterior). Acho um disco mais sereno. O que eles têm de semelhante? Acho que a busca da sinceridade nas canções.
DISCOGRAFIA – Seu disco conta com a participação de muitos músicos, mas você também tem apresentado ele com um formato mais intimista, só você e um instrumento. Como são esses dois formatos de show? Tem um preferido?
Pélico - Na verdade, tenho quatro formatos de show: voz e violão; voz, violão e sanfona; voz, duas guitarras, sanfona, piano elétrico, baixo e bateria; e um outro formato com dez integrantes – incluindo metais e madeiras – onde eu tento levar pro palco a sonoridade do disco. Cada formato tem seu charme, gosto de todos. Tento me adaptar ao espaço e ao público, claro que tem a questão financeira também, mas faço o possível pra não deixar de tocar.
DISCOGRAFIA – Por falar em banda, gostaria que você falasse da sua, que inclusive conta com o meu conterrâneo Régis Damasceno.
Pélico - Me considero um cara privilegiado em poder tocar com uma banda tão talentosa. Sou muito grato a minha banda. Eles são muito generosos e foram decisivos pro resultado do disco. Sim, Régis Damasceno toca comigo. Ele é um dos melhores músicos que já vi tocar. É impressionante a sua criatividade e precisão. Fora que ele toca numa das bandas mais sensacionais do Brasil. Fui e sou muito influenciado pelo Cidadão Instigado.
DISCOGRAFIA – Na apresentação do seu disco novo, a Tulipa comenta seu trabalho como cantor. O que você mais gosta: cantar, tocar ou compor?
Pélico - Fiquei emocionado com os comentários da Tulipa, ouvir isso de uma grande cantora é um presente. Na verdade, nunca tive pretensões de ser cantor e nem me considero. Gosto de interpretar minhas músicas, fazer uma versão de outro compositor, mas sempre procuro cantar do jeito que posso. Sempre me identifiquei com aqueles que cantam na raça. (hahaha). Não sei qual dos três eu mais gosto. Compor é uma necessidade e, que às vezes, é até dolorido. Tocar e cantar é o mais divertido, é a troca de energia com o público e é nessa hora que você mostra o porque de seguir uma carreira artística.
DISCOGRAFIA – Seu disco é cheio de homenagens bem íntimas, como Minha dor, feita para sua mãe, e O menino, para o pai. Se jogar desta forma nas canções deixa o ato de compor mais fácil?
Pélico - Depois de alguns anos compondo você acaba procurando outras formas de compor e nesse disco eu tentei ir à fundo em algumas questões. Acabei descobrindo que componho com mais facilidade quando abordo temas difíceis para mim. Não ter medo
da exposição foi o melhor exercício, em relação às letras, desse disco.
DISCOGRAFIA – Essas duas músicas parecem trazer um pedido de desculpas nas entrelinhas. É isso?
Pélico - Não sei se de desculpas, acho que foi uma coisa de demonstrar atenção, tipo: – Olha, eu me preocupo com vocês. Estou há algum tempo fora de casa, mas os seus problemas me interessam.
DISCOGRAFIA – “Que isso fique entre nós” tem uma dose forte de melancolia, mais nas letras que no som. Isso foi intencional? Você é uma pessoa melancólica?
Pélico - Não foi intencional, são temas que faziam parte da minha vida naquele momento. Não me acho melancólico, mas é difícil dizer, né? A gente nunca sabe se realmente somos aquilo que achamos ser. Enfim, não me importo, gosto de ser confuso.
DISCOGRAFIA – Quais são seus planos agora?
Pélico – Quero trabalhar bastante na divulgação do disco, tocar em outras cidades e gravar um clipe. Acho que até o final do ano terei um clipe na mão.
03.01.12 17:00
Quando Dado Villa-Lobos chamou o cearense Jonnata Doll para cantar no seu show na Praça Verde do Centro Dragão do Mar, afirmando ser alguém que “logo todos vão conhecer”, uma parte do público levou um susto. Contrastando com a figura séria e sóbria do guitarrista da Legião Urbana, o vocalista dos Garotos Solventes remexia seus 57 kg como se estivesse pisando em brasa quente. Com a voz rouca e poderosa, ele cantou Namorada Fantasma, Ainda É Cedo e Por uma dose de amor, enquanto o anfitrião parecia um coadjuvante.
Diferente da figura que em cena se joga no chão, berra e se contorce, Jonnata Araújo dos Santos, 30, é bem dócil fora do palco e até se diz tímido. Convidado pelo O POVO para contar sobre sua vida e sua carreira, ele antes pediu uma cerveja para poder acalmar os nervos. O local escolhido para a conversa foi o Passeio Público, onde o cantor sugeriu um passeio pelos bares e bordéis da região para a sessão de fotos. O lugar traz a ele boas lembranças de quando tocou com sua banda no tradicional Motel 90.
A atração de Jonnata Doll – codinome artístico em homenagem à banda New York Dolls – pelo lado marginal da sociedade é como uma resposta aos seus primeiros anos de vida. Crescendo sob as duras regras de uma família evangélica, ele parecia não se interessar muito pelas proibições e já sonhava ter uma banda. Mais ainda quando descobriu o rock no filme The Wall, marco na carreira do Pink Floyd. Morador do Bairro Álvaro Weyne, ele se juntou a uma turma de amigos que apelidou de Jack Boys e passou a perambular pela Cidade trajando jaqueta e blusa do Ramones.
Para realizar seu sonho adolescente, por volta dos 16 anos, Jonnata Doll montou a banda Kohbaia e começou a cantar sobre viciados, prostitutas e outros personagens do submundo. Implodida por conta de um dos maiores clichês do rock, o abuso das drogas, a banda deu lugar em 2009 aos Garotos Solventes. Ele mesmo já teve problemas com drogas e, negando os arrependimentos, transformou suas experiências em música. No entanto, a mudança para o que ele chama de “um esquema mais profissional” não trouxe prejuízo para o lado performático do vocalista que continua transformando cada apresentação num happening.
Quando pisa num palco, Jonnata se entrega de tal forma que nem ele sabe onde vai acabar. Incorporando deuses da música como Michael Jackson, Freddie Mercury e Jim Morrison, ele se joga no chão, lambe o pedestal do microfone e se rebola como se seu corpo fosse feito de borracha. “Parece que eu tenho que me ferir pro público gostar”, confessa ele meio contrariado ante de mostrar as marcas que ganhou no show com Dado Villa-Lobos. Outra vez, numa calourada, o público começou a arrancar-lhe a roupa até que não lhe sobrasse uma gravata borboleta pra lhe cobrir as vergonhas. “Às vezes isso incomoda. Já tive problemas com produtores. Eu sou músico e quero que a música venha em primeiro lugar”.
Entre Television, Stooges e Lou Reed, o cantor cita Secos & Molhados e o Tropicalismo como suas influências. Entre as primeiras músicas que cantou ao vivo estava justamente Ainda é cedo, da Legião Urbana. Este ano, em duas viagens para São Paulo, conheceu Dado Villa-Lobos por intermédio de Fernando Catatau, o que lhe rendeu o convite para o show no Dragão do Mar. Formado em Ciências Sociais, hoje Jonatta divide suas atenções entre a música e o trabalho como observador de campo da Fiocruz, onde acompanha viciados em crack. Entre os planos, pretende conhecer melhor a cena musical paulista junto com os Garotos Solventes, com quem também gravar logo em breve. Até lá, ele segue falando sobre drogas, desilusões amorosas, prostituição adolescente, pedófilos e outros assuntos nada amenos.
26.12.11 12:21
O músico Eduardo Bidlovski nasceu em São Paulo, mas morou muitos anos em Los Angeles. De volta já há um bom tempo a sua terra natal, ele é casado com uma japonesa. Por conta da estranheza do sobrenome de origem polonesa, ganhou na escola o apelido curtinho de Bid. E é com essa forma simplificada que ele assina seus trabalhos como músico, compositor e como um dos produtores mais requisitados da cena alternativa brasileira.
Assumindo que não sabe mais de onde é, Bid tornou-se um especialista em misturas e monta seu trabalho a partir delas. Foi assim desde seu primeiro trabalho como produtor, o clássico Afrociberdelia, que fundia maracatu, metal, funk, samba e mais. Curiosamente, foi durante uma viagem de ônibus para o SESC Bauru (SP) que ele e Chico Science começaram a desenhar o que viria a ser o segundo disco da Nação Zumbi. Naquele momento, eles ainda gravaram uma faixa (Roda rodete rodeando) que só viria a público 20 anos depois, quando Bid assinou seu primeiro trabalho solos, o multiétnico e polifônico Bambas & Biritas, que juntava Seu Jorge, Black Alien e Elza Soares num só disco.
Repetindo uma fórmula que ele chama de “velho novo”, ou seja misturar diferentes gerações de artistas, Bid está lançado agora Bambas & Biritas Vol.2, mais uma vez apostando na mistura. Iniciado durante uma viagem de férias para a Jamaica, em janeiro de 2010, o disco traz como proposta construir uma ponte sólida unindo o reggae da Ilha Mágica com sons nordestinos como forró, xote e baião. “O disco é todo sem bateria pra ficar mais parecido com a crueza do baião”, explica ele em entrevista por telefone.
A ideia nasceu quando Eduardo passeava de barco pelo mar do Caribe e pediu pro piloto do barco pra botar pra tocar Francisco, Forró y Frevo, disco de Chico César com produção sua. O piloto do barco, um autêntico jamaicano com todos os dreadlocks que tem direito, começou a improvisar um reggae por cima. Era o estalo que faltava pra ele encerrar a folga. “Tem que esperar os insights chegarem. Quando a ideia vem completa, não precisa se esforçar muito”, comenta lembrando que o mesmo aconteceu com o primeiro disco do Funk Como Le Gusta, big band fundada por ele que mistura sons latinos com o funk.
Bid é desses produtores que procura formas de se empolgar com o que faz e, por isso, acaba criando uma marca própria. Um delas está em procurar o inusitado. Dominguinhos, por exemplo, divide a faixa Brasil com Ky-Mani Marley, penúltimo dos 11 filhos de Bob. Já o “culpado” pelo projeto, Chico César, encontra Jah Marcus na contagiante Little Johnny. Com o prêmio de “Ideia mais inovadora”, a jamaicana Queen Ifrica musicou os agradecimentos do disco e cantou ao lado do músico americano Joey Altruda. Entre as 14 faixas, há uma versão reggae de Something (George Harrison) dividida pelo cantor Luciano e o guitarrista Ernest Ranglin, inventor da levada do ska. “Tem gente até comparando com o Buena Vista Social Club, mas não é coletânea. Aqui é todo mundo produzindo canções novas”, corrige Bid.
Pra completar, Bambas & Biritas Vol. 2 está sendo vendido em formato simples ou acompanhado de um livro de 88 páginas, trazendo um dicionário de instrumentos musicais. O fato é que a preocupação primordial de qualquer projeto que Bid resolva botar o dedo é tirar dali alguma experiência além da própria música. “Tenho preocupação de deixar uma história. Não sou um fabricante de talentos. Nem sei fazer isso”, confessa desdenhando até um possível convite de Ivete Sangalo. Ele mesmo já soube o que é maistream quando foi guitarrista da banda Tókio, famosa por ter lançado o vocalista Supla, seu colega de peladas na infância. “Eu que o levei pra pintar o cabelo de branco a primeira vez”, relembra entre risadas.
Hoje Bid assume que fica mais à vontade como produtor. Entre seus projetos, por enquanto, está um trabalho com o rapper Marechal (“ainda sem grana, mas a música me move”) e um possível disco juntando a tradição de Elza Soares, as pick ups do DJ Marky e uma banda de metais. Bid e Elza, inclusive já se encontraram na trilha do filme Chega de Saudade. “Ela tem uma confiança muito grande em mim. Eu fico do lado dela no estúdio pra gravar, é muita intimidade. Quem gosta de música, sabe que são situações muito especiais”, emociona-se lembrando que já ganhou até selinho da diva. Por conta do caráter das suas ideias, acabou ganhando fama de difícil e cabeça dura. “Eu sou complicado por que gosto de fazer as coisas do jeito certo. Eu levo muito a sério essa parada de música”.
Faixas do CD:
1. Music For All – The Heptones
2. Little Johnny – Chico César e Jah Marcus
3. Hapiness Is All In Your Hands – Queen Ifrica
4. Brasil (Little Sunday) – Ky-Mani Marley e Dominguinhos
5. We Put The “M” Inna Music – Tony Rebel e Siba
6. Children Of The Future – U-Roy
7. Chiquinha Hey – Luiz Melodia e Anelis Assumpção
8. Lehá Dodi (sheeba) – Oku Onuora e Karina Buhr
9. Something – Luciano e Ernest Ranglin
10. World Cry (Al Fayah Mix) – Jesse Royal e Karina Buhr
11. Only Jah Love (Raggatu) – Sizzla Kalonji e Bi Ribeiro
12. Forever You Are – Queen Ifrica e Joey Altruda
13. Something Is Wrong – I Wayne
14. Nyahbinghi (Medley) – Priest Kassa, Priest Delroy, “Tiger” Williams, Prophet Caue A.K.A. Dada Yute, Marvin Wright e Papete
23.12.11 12:19
Flores em vida para Nelson Cavaquinho
O dia 18 de fevereiro de 1986, o Brasil perdia não só um dos seus compositores mais inspirados, mas também um dos seus personagens mais folclóricos. O carioca Nelson Antônio da Silva era um boêmio incorrigível que tirava da noite e dos frequentadores a matéria-prima para suas músicas. Se tivesse vivo, Nelson Cavaquinho, como ficou imortalizado, estaria completando 100 anos em 2011. No entanto, quiseram os céus que ele partisse aos 74 anos, vitimado por uma enfisema pulmonar.
Desde cedo, o sambista costumava pedir, no lugar das costumeiras homenagens póstumas, lembrassem dele ainda vivo. Ainda assim o parceiro e amigo Carlinhos Vergueiro não perdeu a efeméride e colocou nas lojas sua homenagem. O disco Carlinhos Vergueiro Interpreta Nelson Cavaquinho – 100 anos (Biscoito Fino) reúne 12 canções do violonista (apesar do “sobrenome” Cavaquinho), dando destaque a clássicos como Pranto de poeta, Folhas secas e Palhaço. Embora creditada somente a Zé Ketti, O meu pecado é uma parceria com Nelson, que teve seu nome excluído por decisão da gravadora. Há ainda Palavras malditas, canção rara lançada em 1950, redescoberta por Beth Carvalho, no seu disco mais recente, e agora por Vergueiro.
Por telefone, Carlinhos Vergueiro conta que este disco começou a ser pensado em 1984, quando produzia Flores em Vida, o último disco de Nelson Cavaquinho. “Eu consegui que ele fizesse o disco pela (gravadora) Eldorado, junto com um documentário e outras homenagens em vida”. Além de tocar juntos, a dupla também costumava rodar pelos bares da noite carioca. “De todo mundo que eu conheci, o Nelson foi o mais resistente pra bebida. Eu chegava no Bar do Zé e, quando chegava uma hora, saía pra dormir. No dia seguinte, quando voltava, ele ainda estava lá”, lembra o cantor entre outras histórias. Em outra delas, Carlinhos recebeu uma ligação da mulher Nelson perguntando se ele saberia do paradeiro do compositor. Com medo de uma briga matrimonial, ele preferiu mentir que não. A esposa então perguntou: “mas ele tava bebendo?”. Carlinhos: “bom… tava sim”. “Graças a deus. Eu ficaria preocupada se ele não tivesse”, respondeu ela aliviada.
Para Nelson Cavaquinho, o palco poderia estar num teatro, num botequim ou até no meio da rua. Sem nunca ter ligado para posses ou patrimônio pessoal, ele era bom mesmo era reunir amigos pra fazer música. Da mesma forma, Vergueiro convidou os seus para este tributo e mais uma vez se remeteu ao disco Flores em Vida. Cristina Buarque, com quem dividiu a produção do disco em 1984, participa de Beija-flor. Chico Buarque, que fez dueto com Nelson em Dona Carola, agora escolheu Nome Sagrado. E o baterista Wilson das Neves, que na época não cantava, agora assume os vocais em Folhas Secas.
No ano passado, Carlinhos Vergueiro homenageou Adoniran Barbosa, outro parceiro e amigo, e agora tem planos regravar canções de Paulo Vanzolini. A homenagem a Nelson Cavaquinho, confessa, foi uma forma de não deixar o amigo com ciúmes. “Tive a sorte de conviver com muitos dos meus ídolos. Pra mim, o Nelson era o Garrincha do samba. Eles tinham a mesma ingenuidade e pureza”, conta ele que também tem planos para um trabalho autoral. No que depender dos seus amigos, seja como autor, seja como intérprete, ele vai estar bem abençoado.
08.12.11 16:53
Luiz Millan e um tributo à amizade
Entre os brasileiros que conseguiram projetar seu nome no cenário musical internacional, Mozar Terra é um nome que merece destaque. Pianista, compositor, arranjador mineiro, ele começou sua carreira na adolescência. Em mais de 30 anos, acompanhou grandes figuras como Caetano Veloso, Joyce e Emílio Santiago, tocou com instrumentistas do nível de Paulo Moura, Egberto Gismonti e Raphael Rabello e deu aulas de música na Dinamarca, Nova York e na Holanda.
Falecido em janeiro de 2006, vítima de um câncer de pulmão, um ano antes Mozar havia conhecido o médico paulistano Luiz Millan, que já acumulava alguma experiência como compositor. Apresentados pelo amigo e também compositor Jorge Pinheiro, Millan ficou emocionado ao ouvir do pianista famoso o convite para que colocasse letra em E o palhaço chorou, melodia registrada no disco instrumental Caderno de composições. Millan passou o carnaval com essa missão. Voltaram a se encontrar para ver como ficou, mas logo na sequencia Terra adoeceu.
A amizade durou pouco mais de um ano, mas foi o ponto de partida do disco Entre Nuvens, lançado este ano com 14 composições de Luiz Millan. Repleto de participações especiais, o disco passeia com sofisticação entre bossas, choros, valsas e traz referências de Tom Jobim, Edu Lobo e Chico Buarque. Entre os convidados, nomes importantes da cena instrumental brasileira, como Sylvinho Mazzucca (baixo), Toninho Ferragutti (acordeon), Lea Freire e Teco Cardoso (sopros). Para assumir o microfone, foi convocado um time competente, embora ainda pouco conhecido, formado por Consiglia Latorre, Tuca Fernandes, Ana Lee e Maurício Detoni.
Mesmo que o ponto de partida tenha sido a parceria com Mozar Terra, outras canções foram entrando em Entre Nuvens exibindo várias fases do compositor Luiz Millan. “Dia dos namorados é da época da faculdade e Outono fiz aos dezesseis anos, mas estava inacabada e o Michel (Freideson, produtor) fez a parte B”, lembra o compositor apontando o critério emoção como o mais importante, uma vez que cada que cada canção tem sua história.
Compondo desde os 13 ou 14 anos, Luiz Millan só começou a mostrar sua produção quando ingressou na faculdade de medicina da USP. Na época, promovia reuniões para falar arte e política, e até participou do LP coletivo Ponte de Rama. Mesmo tendo se dedicado mais à profissão de médico, nunca deixou a música de lado. Apesar de Entre Nuvens trazer apenas seu nome na capa, não deixou de ser um trabalho coletivo com a presença de amigos sugerindo sons e camadas. Quanto à amizade com Mozar Terra, ele só lamenta ter sido interrompida tão breve. “Nas poucas vezes em que nos encontramos, nos demos muito bem, demos muita risada juntos. Provavelmente teríamos uma parceria frutífera se ele não tivesse adoecido”.
Posts Recentes
Categorias
Arquivos
Blogs O POVO