13.04.12 15:00
Disco Elis, de 1972, ganha tratamento para reedição
Entre as duplas de ouro da música brasileira - como Roberto e Erasmo, Paulo Coelho e Raul Seixas -, Elis Regina e César Camargo Mariano juntaram forças para produzir muitas das canção mais belas do País. Me perdoem os outros arranjadores, mais foi nas mãos do elegante pianista que a Pimentinha viveu seus melhores anos de cantora. No bonde das homenagens pelos 30 anos de morte da intérprete, a gravadora Trama está reeditando o disco que deu origem à parceria de Elis e César. Elis, lançado em 1972, trazia grandes clássicos da gauchinha briguenta, como Casa no campo e Atrás da porta. O projeto de João Marcelo Bôscoli, filho da cantora com Ronaldo Bôscoli e presidante da gravadora, é atualizar a sonoridade do trabalho lançado em vinil numa época com bem menos recursos. O mesmo já foi feito com os discos Elis & Tom (1974), Falso brilhante (1975) e Elis (1980). Pra vitaminar o projeto, parte dos trabalhos está sendo transmitida pela TV Trama, de segunda à sexta das 16h às 18h.
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19.01.12 18:00
Elis Regina – Amigo é coisa pra se guardar
Mais que uma grande voz, Elis Regina soube aproveitar seu corpo e seu talento pra dar vida à própria carreira. No Beco das Garrafas ela fez fama ao protagonizar espetáculos que misturavam várias linguagens à sua música. Boa parte desses espetáculos trazia a assinatura da dupla Miele & Bôscoli. O primeiro nome da dupla era do paulistano Luis Carlos Miele, ex-locutor das rádios Tupi, Excelsior e Nacional que chegou ao Rio de Janeiro em 1959. O segundo nome é do carioca Ronaldo Bôscoli, mais conhecido como Veneno. Carioca malandro e bon vivant, ele foi um dos responsáveis pela explosão da Bossa Nova através de uma reportagem escrita para a revista Manchete.
Mais que produtor e cantora, Miele e Elis foram bons amigos. E cúmplices em grandes espetáculos musicais que dividiram no Beco, nos palcos e na TV. Sem precisar insistir muito, Miele relembra várias histórias que passou ao lado da estrela, entre brigas e comédias. “Eu tenho os cartões dela ainda hoje, que já até perderam a tinta. Coisas como ‘Miele, eu te adoro’”, lembra ele emocionado. Em uma rápida conversa por telefone, ele conta sobre o tempo que trabalhou com a cantora e, como um bom amigo, foge de temas mais polêmicos. “Ela foi a paixão musical da minha vida. Como costumo dizer, a única artista com cujo talento eu nunca me acostumei”.
O Povo – Como foi seu primeiro contato com a Elis?
Miele – Foi no Beco das Garrafas (reduto boêmio de Copacabana). Ela fez um primeiro show, produzido pelo Renato Machado, com o grupo do (músico) Dom Salvador e textos lidos pela Íris Lettieri, a grande voz dos aeroportos do Brasil.
OP – E como foi o primeiro o primeiro show que vocês produziram?
Miele – O primeiro show foi no Little Club. Tinha a participação da bailarina Marli Tavares, do pandeirista Gaguinho e do grupo Bossa Três, que tinha Luis Carlos Vinhas (piano). Durante essa sequencia de shows, a Elis fez um sucesso extraordinário e passou do beco. Por isso, ela teve que faltar por conta de outros compromissos de trabalho. Ela já vinha se apresentando em outros cantos, mas não ia perder aquele serviço no Beco. A carreira dela tava começando. Então ela dizia que tava doente. Como a gente não tinha cartazes, fazia propaganda dos shows no muro do beco. Uma vez, o Ronaldo (Bôscoli) ficou com raiva por conta das faltas dela, foi lá, e pediu um pouco de piche pruns caras que tavam consertando o asfalto. Pegou o piche e passou por cima do nome dela.
OP – Foi aí que começou a briga dela com o Bôscoli.
Miele – Foi. Um pouco antes, ele chegou pra ela e reclamou: “ta achando que é a Barbara Streisand?”. (E ela) “To”. Isso piorou tudo e ela tava escalada para uns shows da (empresa de química que também patrocinava grandes shows) Rhodia. Como ela tava faltando no Beco, o Bôscoli chamou a Nara Leão. “Aqueles joelhos que cantam”, como dizia a Elis.
OP – E aí começou a intriga com a Nara. E quando vocês voltaram a trabalhar juntos?
Miele – O Manoel Carlos era diretor do Fino da Bossa, mas ia deixar programa. Então o Luizinho Eça sugeriu a dupla Miele e Bôscoli (pra produzir o programa), mas a Elis disse: “nem morta. Se eles vierem pra cá ou vou pra Tupi”. O Paulo Machado (fundador da rede Record) insistiu e ela disse que aceitava. “Mas só falo com o Miele, com o Ronaldo nem pensar”, disse ela. Ele respondeu: “é bom mesmo. Se ela falar comigo, eu caso com ela”. Mas foi como disse o Carlos Imperial: “quando eles se casaram, Deus castigou os dois”.
OP – Ela tinha fama de exigente e passional nas relações pessoais e profissionais. Muitos dizem que ela metia medo nas pessoas. Você sentiu isso?
Miele – Eu tinha muita sorte porque ela me usava pra mostrar que era muito acessível quando tratada com educação e elegância. Teve uma vez que eu pedi pra ela mergulhar no mar na Costa Brava (Rio de Janeiro). E ela dizia: “mas eu não sei nadar”. Eu respondia: “Mas o (Roberto) Menescal é campeão mundial de pesca submarina. Se você afundar ele vai lhe buscar”. Ela entrou na água, afundou e ele foi lá buscar. Comigo, ela nunca teve problema nenhum. Mas, quando ela se separou do Bôscoli, eu fui junto.
OP – Quer dizer que por conta da separação dela, vocês se afastaram?
Miele – Eu tenho os cartões dela ainda hoje, que já até perderam a tinta. Coisas como “Miele, eu te adoro”. Eu fiquei separado dela cinco anos. Uma vez ela ligou pra mim e disse: “Ei, viadinho, num vai no meu show, não?”. E eu respondi que, sem ela falar comigo, eu nem tinha pensado em ir. Na verdade, nem atendi o telefone pensando que era sacanagem. Aí ela disse pra secretária: “Fala pra ele que eu quero falar com o Carneiro”, era um código da gente. “Você não vai o Saudades do Brasil? Vai lá que tem uma mesa pra você”. Eu fui e ela dedicou Canção da América pra mim. E eu completamente em lágrimas. Já tava chegando no final, eu embriagado de lágrimas e whisky, e uma pessoa veio avisar: “a Elis quer você no camarim antes do final do show”. Quando ela interrompeu pro bis, veio pro camarim e perguntou: “Ta tudo certo entre nós?”. Eu disse que sim e ela voltou pro palco.
OP – Vejo que você guarda muitas boas lembranças dela.
Miele – Tem uma coisa bonita que nunca tinha contado. Ela tava no Teatro da Praia (Rio de Janeiro) e a Katyna Ranieri, uma estrela da música italiana, foi assistir. No fim do show, a Katyna foi ao camarim e ficou elogiando, “você é extraordinária”. Mas a Elis, quando era elogiada, ficava vesga. Pra sair do sem jeito, a Elis viu que a cantora tava usando um colar muito bonito, que aparentava ser muito caro, e falou “que beleza de colar”. A Katyna respondeu na hora “te regalo” e deu o colar pra ela. Outra vez, ela foi pra Alemanha e os alemães pegaram um monte de negrinhos pra fazer o clipe de Upa Neguinho. Uma hora o produtor disse: “que pena que você não poder cantar em alemão”. Ela respondeu: “Por que não? Escreve a pronuncia pra mim”. Ele escreveu e ela ficou cantando lendo a pronúncia.
OP – Você trabalhou com boa parte da nata da música brasileira. Em relação à Elis, o que era fácil e o que era difícil no trabalho com ela?
Miele – O trabalho era mais que fácil. Você dava uma ideia e ela saía ampliando. Ela teve uma fase se declarando contra o Caetano Veloso. Depois passou e disse: “vou cantar o gênio da minha geração” e escolheu cantar Irene. Eu sugeri que ficaria melhor se você fosse “enlouquecendo” até que chegasse o fim do ato. Depois fui pra plateia pra, teoricamente, dirigí-la. “Você não vai ficar olhando pra mim não, né? Vai ao cinema”. Eu aceitei a ordem dela e fui. Quando voltei, tava melhor do que eu esperava. Tem uma coisa engraçada. Os turistas da música, muitos deles achavam que eu só queria usar a Elis pra experimentar. Nem entro nessa discussão. Muito do que ela fez no palco – humor, dançar, sapateado – era sugestão nossa, mas que ela se divertia, se divertia.
OP – Muitos dos seus trabalhos com a Elis foram durante sua parceria com o Ronaldo Bôscoli, ex-desafeto que acabou se tornando marido dela. Como era a relação dos dois? Eles sabiam separar o profissional e o pessoal?
Miele – Eu procurava não estar com eles com eles no quarto. Eles eram explosivos mesmo. Não era bom ficar por perto. Uma vez eu passei por ela na piscina e a empurrei. Ela caiu toda desequilibrada. Eu pensei (em tom apreensivo): tem três opções. Ela achar graça, me mandar pra puta que pariu ou nenhuma das opções. Deu a terceira, ela saiu nadando. Ela foi a paixão musical da minha vida. Como costumo dizer, a única artista com cujo talento eu nunca me acostumei. E já vou dizendo, acho a Maria Rita é cara da mãe.
OP – Uma das características dos shows produzidos pela dupla Miele e Bôscoli era de tirar os artistas do conforto. Alguma vez a Elis se negou a fazer algo que vocês pediram?
Miele – Não. Era só eu pedir que ela fazia.
OP – Você também produziu muitos trabalhos dela pra TV. Como eram os bastidores dessas gravações? Ela era boa de TV?
Miele – Pra ela, aquilo era instintivo. Olhe, as pessoas com que eu trabalhei, vou citar três: Roberto Carlos, Elis e Simonal. Nenhum deles estudou nada. Pra mim, isso que é a explosão do talento. No palco, não tem escapatória. Nem adianta estudar, se não tiver as ferramentas.
OP – Passados 30 anos, Elis Regina continua sendo uma referência para o público e para novos artistas. O que a diferenciava das demais cantoras da época?
Miele – Eu dirigi numa época quatro cantoras brasileiras em shows diferentes. Nesse período, um jornalista do Globo me perguntou: quem são as cinco maiores cantoras do Brasil? Eu respondi: a Elis. Foi uma merda com as outras, mas era isso.
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19.01.12 16:00
Elis Regina – Um instante de intimidade
Em meados de 1978, Elis Regina estava trazendo para o Nordeste sua turnê Transversal do Tempo. Idealizado durante um engarrafamento em São Paulo provocado por uma manifestação de estudantes. Naquele momento, a cantora pensou em medo, esperança, ditadura, despedidas e reencontros. “Os dias eram assim”, cantou ela em Aos Nossos filhos, tempos depois. Na época, a atriz e jornalista Erotilde Honório dirigia a peça Os Saltimbancos, e encontrou por acaso com o empresário da turnê. Mesmo sem experiência com produção ou dinheiro para bancar uma vinda da estrela, ela teve curiosidade de saber quanto custava e acabou aceitando bancar a produção junto com o marido Ivo Roza. Foram três noites com o Centro de Convenções lotado, entre os dias 30 de junho e 2 de julho.
“Vendemos uma Caravan para pagar o primeiro show e, a cada show que terminasse, tínhamos que pagar a noite seguinte com o apurado”, lembra ela, que nem era tão fã assim da cantora. “A informação que eu tinha é que ela era chata, neurótica, arrogante”. De repente, no primeiro contato com a equipe se surpreendeu com a simpatia do diretor Maurício Tapajós. Além dos músicos (entre eles o marido César Camargo Mariano), Elis trouxe seus três filhos, João Marcelo (então com 8 anos), Pedro (3) e Maria Rita (menos de um ano). “Fiquei impressionada por que o Pedro a Maria Rita eram totalmente caolhos”, lembra sobre o tão falado estrabismo herdado da mãe.
Apesar da imagem negativa, Elis foi bem simpática com a equipe de aventureiros que a recebeu em Fortaleza. A única exigência feita para o camarim foi uma garrafa de vodka Wyborowa, até então bem rara na cidade, que logo cedo começou a ser consumida pela cantora. Diante da boa receptividade de Elis, Erotilde quis realizar o sonho de um dos seus companheiros de teatro. Ator iniciante e já com queda para cantor, o jovem era Marquinhos Moura, cearense que estouraria tempos depois com Meu Mel.
Entre as imitações que Marquinhos costumava fazer nos bastidores, a de Elis já era famosa pela perfeição. “Quando minha diretora Erotilde me apresentou à Elis, e disse que eu era um fã e rival, ela não acreditou e caiu na gargalhada. E eu completamente paralisado”, lembrou ele recentemente, em entrevista para O POVO. Ele então resolveu demonstrar ao vivo sua performance. Nesse momento Elis não viu graça nenhuma. Embora não tenha sido grosseira ou dito nada, Elis trancou a cara e fez questão de deixar claro que não gostou da homenagem.
Passados os três dias de show (de sexta a domingo), a anfitriã levou Elis e família para conhecer a Prainha onde a estrela se encantou com o artesanato local. Em especial, uma toalha de mesa com motivos orientais que não pode ser levada na hora por que ainda estava sendo confeccionada. Erotilde voltou ao local para comprar a toalha com intenção de encaminhar para a artista. Por conta dos contratempos do dia a dia, a encomenda não chegou a ser enviada e hoje fica guardada como uma lembrança daqueles momentos.
Da turma toda, César Camargo Mariano era o mais calado. Por outro lado Elis não deixava de comentar sobre assuntos como Maria Bethania (“como ela desafina”) e maternidade (“eu me sinto a pessoa mais irresponsável do mundo por colocar três meninos nesse mundo”). “No dia seguinte, não pude levá-la ao aeroporto. Me despedi e fui embora. Quando cheguei em casa, o telefone toca e era ela agradecendo. A fama de pedante foi ao chão completamente”, admite Erotilde que voltou a encontrar a estrela anos depois, em um restaurante de Fortaleza, durante uma nova turnê. “Já estávamos de saída quando vimos ela chegar. Elis veio encantada, me deu um abraço e disse ‘nunca mais eu venho a Fortaleza sem ser convidada por vocês’. Parece que o show não foi tão bom”. Pouco tempo depois, a cantora faleceu em São Paulo, deixando uma legião de fãs perplexos, enquanto no Ceará sua toalha de mesa com motivos orientais continua guardada esperando o dia de ser entregue à dona.
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19.01.12 15:13
São Paulo acordou cinzenta naquele distante 19 de março de 1982. O Brasil acordou assim. Durante uma ligação para o namorado Samuel MacDowell, por volta das 9h30, a voz de uma das maiores cantoras da MPB foi sumindo, ficando pastosa e desarticulada. De repente um estranho silêncio e o fim. Morria Elis Regina Carvalho Costa, 36 anos, gaúcha, mãe de três filhos, reveladora de sucessos. A notícia se espalhou tão rápido que até o único irmão da cantora, Rogério, ficou sabendo pelo rádio. Do outro lado do País, em Fortaleza, as amigas Rosa Maria e Fátima, espalharam a coleção de discos pelo sofá e promoveram uma homenagem particular regada a lágrimas e melodias.
Os fãs de Elis já estavam acostumados a chorar com suas interpretações arrebatadoras. Sua morte, no entanto, era dose mais forte do que se podia esperar. “Foi um choque grande. Eu nem sabia que a cabeça dela era tão doidinha. Era como se fosse uma pessoa que convivíamos pessoalmente”, relembra Fátima Bastos, 58, que assume ainda sentir uma “dor imensa” quando lembra daquela manhã de terça-feira. “Tem algumas músicas dela que me trazem imagens na memória. Eu sempre quis ter uma casa no campo por conta da música. Ela ta viva em tudo que canta”, confirma Rosa Maria, 64.
A sensação de ter perdido alguém de dentro de casa parece uma unanimidade entre os fãs de Elis. Algo como se teimassem em assumir que ela morreu de fato. É que sua passagem por este plano foi curta, mas suficiente para mexer com muita gente. De sua garganta poderosa, saíam as saudades do irmão do Henfil, quaquaraquaquas debochados, histórias de um coração dilacerado. Também saíram palavras duras, como as críticas que fazia às rivais Maria Bethania e Nara Leão, ou protestos contra a invasão dos roqueiros nos festivais de música. Talvez hoje, quando estaria perto dos 67 anos, esses comentários merecessem uma reavaliação.
Isso tudo fazia parte do personagem durão que gostava de demonstrar. Quem a conheceu mais de perto, como Rita Lee, preferia dizer que ela um “doce de pimenta”. Com essa mistura de temperos, sua performance no palco era sempre explosiva. Tanto que após cada show o que mais queria era uma cama onde pudesse descansar. Ciente do que podia com a voz, Elis usava seus graves e agudos pra hipnotizar o público. “Dizem que a única coisa que me deixava quieta quando criança era ouvir Elis”, lembra a cantora cearense Lorena Nunes, 26. Mesmo sem ter assistido a diva ao vivo, ela reconhece ali uma inspiração. “Uma excelente interpretação consegue ultrapassar qualquer barreira de emoção. E o sentimento que ela consegue passar, é impossível não se identificar. Não se inspirar nela é burrice”.
Personalidade
Das primeiras apresentações nas rádios de Porto Alegre até assinar o primeiro contrato para um disco foram apenas 15 anos. Tímida de doer, sua primeira apresentação foi frustrante. Um silêncio lhe tomou conta e nenhuma palavra saía da garganta. “Canta, minha filha”, insistia a mãe em vão. Um nova chance só veio cinco anos depois. Dessa vez ela cantou e não parou mais. Com afinação perfeita e coragem de buscar o que queria, Elis conquistou espaços nunca imaginados, chegando a ser a única artista brasileira a se apresentar duas vezes no palco nobre do Olympia, em Paris.
Se, como cantora, sua presença inspirou e continua inspirando, como ser humano não foi diferente. O olhar altivo e o jeito seguro de se expressar da Pimentinha também ajudaram a moldar uma geração de mulheres que a admirava. “Ela era uma rebelde, mas com causa. Era decidida, disposta e eu gosto muito de gente assim. Me inspirava muito a ter coragem”, admite a dona de casa Liduína Ferreira, 56. Atenta a todas o shows e apresentações, ela até usava um corte de cabelo curtinho igual ao do ídolo. “Era feito na navalha. Eu chegava pra cortar bem curto e perguntavam ‘é igual ao da Elis Regina?’. ‘É, igual’, respondia”.
Tão inesquecível foi Elis, que ainda hoje se especula o que ela estaria cantando. Ainda procuraria novos compositores, como fez com Fagner e Belchior? Estaria atenta aos nomes do pop? Talvez estivesse cantando o Brasil de Cazuza ou o Monte Castelo de Renato Russo. Em sua última entrevista, feita em 5 de janeiro de 1982, ela já se mostrava incomodada com os novos rumos da indústria fonográfica. “A prepotência ganhou outros nomes em inglês, como mershandising e marketing. As gravadoras pensam que seu produto é o disco. Sem o artista, aquilo é só uma bolacha preta com um buraco no meio”, disparou.
Duas semanas depois, enquanto selecionava as canções do próximo disco – Caetano Veloso, Beto Guedes e Milton Nascimento já estava numa lista preliminar –, a artista encerrou seu show. Ela foi encontrada no chão do quarto inerte, naquele 19 de janeiro de 1982. No sangue corria uma combinação fatal de cocaína e álcool. “Elis era careta. No máximo ‘dava uma bola’”, tentou defender Rita Lee, sua vizinha de sítio na serra da Cantareira, falando em bom “maconhês”. Mas já era tarde. O coração da Pimentinha já não batia. Agora era o Brasil que ia sentir saudades de Elis Regina.
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