16.04.12 15:00
Banda americana Howler estreia em disco “curto e grosso”
Vinda de Minneapolis, EUA, o quinteto americano Howler acaba de lançar seu disco de estreia já cercado de elogios como o de “nova salvação do rock”. Rápido e enérgico, America Give Up é uma mistura de Strokes com sonoridades dos anos 60, tipo surf music e vocaizinhos agudos. Em apenas 32 minutos, o grupo liderado por Jordan Gatesmith emenda 11 faixas, todas creditas democraticamente à banda, sem abrir espaço para baladas. Mesmo sem estar precisando de salvação, o rock ganha um disco bacana com a estreia do Howler, principalmente para aqueles fãs que gostam de baterias marcadas, guitarras sujas e velocidade rápida. A produção de America Give Up ficou com Chris Heidman e Jeff Lorentzen, sendo o primeiro um especialista em novas bandas internacionais. Lançado pela gravadora Lab 344, a edição nacional do disco é bem pobrinha, sem letras ou ficha técnica, limitando-se apenas a enumerar os cinco músicos (mas sem dizer o que cada um toca). Muito pouco para os mais novos messias do rock.
Em resposta a esse post, a assessoria da Lab 344 informa que a edição nacional do disco do Howler saiu tal e qual a edição internacional. Ou seja, sem letras.
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24.01.12 18:00
Vivendo do Ócio prepara O Pensamento é um Imã
A banda baiana Vivendo do Ócio já está na agulha pra lançar O Pensamento é um Imã, seu terceiro disco em menos de meia década de carreira fonográfica. Com produção do ex-Forgotten Boys, Chuck Hipolitho, o disco vai trazer 11 faixas inéditas e participações especiais. Uma delas é do baixista Dadi Carvalho, ex-Novos baianos, em O Mais Clichê. A masterização foi feita em Los Angeles por Brian “Big Bass” Gardner, que já trabalhou com gente como Foo Fighters e Queens Of The Stone Age. As faixas Silas e Eu já gastei já foram disponibilizadas em streaming no site oficial da banda. Formado por Jajá Cardoso (vocal e guitarra), Luca Bori (baixo e voz), Davide Bori (guitarra) e Dieguito Reis (bateria), o grupo de rock com influências de hardcore planeja lançar O Pensamento é um Imã próximo 7 de fevereiro.
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13.01.12 17:30
Rocca Vegas lança disco e clip hoje no Órbita Bar
Revelada no festival Ponto.CE de 2011, a banda cearense Rocca Vegas apresenta hoje seu primeiro album intitulado Bailen Putos!. O lançamento acontece no palco do Órbita Bar, às 21h, com abertura da banda Selvagens à Procura de Lei. Na ocasião, o quinteto formado por Maurílio Fernandes (voz), Bruno Souza (guitarra), Igor Dantas (guitarra), Deo Menezes (baixo) e Breno Souza (bateria) ainda apresenta o clip da música O Espelho, dirigido por Roger Capone.
Serviço:
Rocca Vegas
Quando: hoje (13), às 21h
Onde: Órbita Bar (Praia de Iracema)
Quanto: R$20
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13.01.12 16:00
Bruno Morais e Bixiga 70 regravam pérola setentista de Erasmo Carlos
Os anos 70 foram luminosos para a música brasileira, quando se solidificaram carreiras até hoje referências. Nesse meio estava a dupla Roberto e Erasmo, vivendo seu auge criativo. O segundo inclusive entrou com tudo na década luminosa com o clássico Carlos, Erasmo. Tentando emplacar uma onda hippie na vida e na carreira, os discos que vieram na sequencia deste de 1971 foram igualmente excepcionais. Entre eles está Sonhos e Memórias, de 1972, que trazia 12 composições da dupla famosa, entre elas o hit arrasta quarteirão É proibido fumar. Bom do começo ao fim, o disco traz pelo menos duas canções que deveriam ser ouvidas com atenção por qualquer um que diga gostar de música brasileira. A primeira é Grilos, balada melancólica, regravada com maestria por Marina Machado e Samuel Rosa no disco Tempo Quente (2008). Em tom de cabeça baixa, a música traz uma tentativa de deixar as coisas bem depois de um vendaval doméstico. Ouçam a versão e a original, mas não comparem. São ambas ótimas.
A outra canção é Sorriso dela, que mostra um Erasmo Carlos tomado pela alegria do casamento e da paternidade. Esta acaba de ganhar uma ótima regravação do paranaense Bruno Morais, em parceria com o grupo Bixiga 70. A música faz parte de um compacto que traz ainda Ela e os Raios, parceria de Bruno com Guilherme Held, que conta com o baixo do cearense Régis Damasceno (Cidadão Instigado). Voltando a Sorriso dela, Bruno manteve o clima etéreo e contemplativo desta que é uma das composições mais belas da dupla Roberto e Erasmo. Ancorado pelos metais e percussão do Bixiga 70, o cantor coloca sua voz cheia de intimidade numa canção que poderia ser entoada para uma filha, uma namorada ou quem quer que se goste. Pra quem ainda não conhece o Bixiga 70, trata-se de uma banda formada por nove músicos da cena paulistana (sempre lá) que fazem um som voltado pro afrobeat de Fela Kuti. Dessa junção do som personalista de Bruno Morais com o som possante da banda, saiu uma bela homenagem a dois pioneiros do rock nacional.
17.11.11 12:27
The Gift celebra os anos 80 com Explode
Aportando no Brasil para um show no Rock In Rio, os portugueses do The Gift deixaram por aqui o seu terceiro disco, batizado de Explode. Lançado inicialmente para download gratuito, o disco chega agora à lojas brasileiras pela gravadora Coqueiro Verde. Logo na faixa de abertura, Let it be by me, fica claro que para o quarteto os anos 80 ainda estão no ar. Mais precisamente a boa influência no New Order. Talvez por isso mesmo o disco seja uma boa dica pra quem quer um disco animado, bem feito, mas com poucas surpresas. Com 17 anos de história, a banda formada por Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, John Gonçalves e Miguel Ribeiro só veio tocar no Brasil agora por que insistimos em achar que só existe música (principalmente em se tratando de rock) nos EUA e na Inglaterra. Nem no Brasil acreditamos que tenha música. Mas tem, e boa. Voltando ao The Gift, a banda surgiu de um projeto paralelo de Nuno e Miguel, que logo quiseram aumentar os horizontes sonoros virando um quinteto. Gravaram o primeiro disco, Digital Atmosphere, em 1997 e logo perderam o músico Ricardo Braga, chegando assim à atual formação. Apesar de serem da terra do Manuel e do Joaquim, o The Gift compõe 99% em inglês e guarda um forte sotaque techno rock bem desterritorializado. A climática e etérea Mermaid song combina camas de teclado com um arranjo vocal viajandão. A produção de Ken Nelson, responsável pelos três primeiros discos do Coldplay, deu unidade às 12 faixas de Explode. De quebra, RGB, tem a maior cara da banda de Chris Martin. Já a quilométrica The Singles cruza New Order, Pink Floyd e Beatles numa quase ópera de 12 minutos. Tão psicodélica quanto essa mistura é a capa e o encarte do disco, recheado com fotos tiradas na Índia que logo remetem a um Woodstock de cores berrantes. De fato trata-se da celebração Holi, a Festa das Cores do hiduísmo que acontece entre fevereiro e março para comemorar a chegada da primavera. Um ponto fraco do disco fica por Primavera, única faixa em português (não sei de Portugal ou do Brasil). O velho sotaque apátrida deixa tudo com cara de artista latino querendo se dar bem no País do Futebol. Levando em conta a turnê brasileira, a faixa ficou com ar de oportunismo. Melhor ficar com a balada Aquatica, onde um piano sublinha a história de um filho que está por vir. Já na faixa bônus The mother of my mother o piano é o protagonista numa balada acústica melancólica que soaria deslocada se não fosse um bônus. Infelizmente, no meu disco ela veio pela metade (e no de vocês?). De fato o que guia este bom trabalho do The Gift são os teclados e sintetizadores fazendo cama para guitarra, baixo e bateria, tal qual fazia o New Order nos anos 80. Se você curtiu banda de Peter Hook, é bem provável que vá curtir esta aqui também.
16.11.11 15:19
A chuva intrigante de Glauco Lourenço
Sabe quando você põe um disco pra tocar pela primeira vez e bate uma sensação de que algo não está no lugar? É como se você já esperasse ouvir algo, mas o que se mostra vai para outro caminho diferente. Assim foi com Bebe Chuva, segundo disco do cantor e compositor carioca Glauco Lourenço. Embalado num projeto gráfico de cores pálidas que pouco dizem sobre o conteúdo, o disco sucede o elogiado Abalo Sísmico, que reunia apenas parcerias com Mathilda Kovak. Admitindo influências de Miles Davis, Joni Mitchell, Anita O’Day, Glauco fez um disco basicamente de jazz. Mas, ao me referir ao jazz, não pense num jazz bossanovística à la Diana Krall. Mas sim a algo próprio dos instrumentistas que buscam viajar nos sons, nas possibilidades, mais do que necessariamente a uma mensagem da letra. Bebe Chuva vai se mostrando mais intrigante a cada nova volta que dá na bandeja. Isso já fica impregnado na dissonância da faixa título, que traz letra de Suely Mesquita. Com uma voz aguda e bem colocada, ele enche as 12 canções (quase todas em parceria com Suely) de nostalgia combinada com tristeza, dando uma proximidade única com o ouvinte. Algo como se ele lhe falasse diretamente ao ouvido. Essa intimidade fica ainda mais evidente com o piano delicado de Ana Azevedo em canções como Angola, uma espécie de canção política de protesto. Mas, com boa vontade, ela pode explodir desse nicho e ir para outros caminhos. Além do piano, o cantor ainda se cerca de Edu Szajnbrum (bateria), Lipe Portinho (baixo) e João Gaspar (guitarra), músicos que tocam com Glauco há mais de três anos. Já em Automático ele expõe seus motivos para tanta proximidade com seu ouvinte. “Agora é diferente. Eu ando olhando pra frente e empurrando o coração num vagão de trem. (…) Coração tem que dar corda. Se eu não vigio, transborda”. Como letrista, Glauco também sabe se expor. Em Nada ele cria uma poesia quente e urgente, sobre beijos que incendeiam e tochas que se inflamam. Produzido, dirigido e arranjado pelo próprio Glauco Lourenço, Bebe Chuva é um raio-x do que há dentro do cantor compositor que diz em Ovo no Ninho “meu ninho era de penas que tirei do peito”. Mais intrigante ainda é ver que a maior letra de Bebe Chuva é um relato sobre os vários tipos de pelo. Pelos Públicos fala em “pelos arrancados, cortados, pintados, raspados, derretidos com químicas inacreditáveis que pinicam a pele”. Lançado de forma independente, com o apoio da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, Glauco promete que em breve o disco vai estar disponível para download em seu site oficial. Mas todas já podem ser ouvidas na íntegra. Sugiro que você confira.
31.10.11 14:23
Lulu chega hoje às lojas reunindo Metallica e Lou Reed
Uma das parcerias mais inusitadas do rock internacional, chega hoje às lojas o álbum Lulu que mescla a poesia marginal nova-iorquina de Lou Reed com a sujeira e o peso do Metallica. O encontro destes dois grandes nomes da música começou em 2009 quando eles dividiram uma apresentação nos 25 anos do Rock and Roll Hall Of Fame. Depois do show, já saíram com a vontade de fazer algo juntos. O disco vem agora reunindo um punhado de canções que Reed havia composto para o que viria a ser uma peça de teatro com histórias do dramaturgo alemão Frank Wedekind. O resultado foram 10 faixas que soariam estranhas para os fãs do Metallica e curiosas para os fãs do ex-Velvet Undergound, estes mais acostumados às experimentações do compositor. De lambuja, quem quiser ouvir com exclusividade o disco Lulu, ele já está disponível para os clientes cadastrados do canal Sonora até o próximo dia 9.
As faixas de Lulu (todas de Lou Reed, James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett e Robert Trujillo) são:
1.Brandenburg Gate – 4:19
2.The View – 5:17
3.Pumping Blood – 7:24
4.Mistress Dread – 6:52
5.Iced Honey – 4:36
6.Cheat on Me – 11:26
7.Frustration – 8:33
8.Little Dog – 8:01
9.Dragon – 11:08
10.Junior Dad – 19:28
21.10.11 09:00
Por Domitila Andrade (domitilaandrade@opovo.com.br)
O filho do seu Manoel parecia predestinado, desses que o caminho começa a ser traçado antes de nascer. A família foi de Pernambuco para São Paulo e a saudade se impregnou na casa dos Jeneci. Foi o sentir falta que fez Marcelo ouvir música e foi seu Manoel que incentivou o primeiro dedilhar no piano. Quando viu, o menino já tinha crescido e saído de casa para acompanhar músicos famosos. Tocando piano e sanfona, Marcelo Jeneci tocou com Chico César, Arnaldo Antunes, Vanessa da Mata e Cidadão Instigado.
Começou a compor e logo a primeira canção, Amado, foi parar na novela das nove na voz de Vanessa, ainda teve outra, Longe, que o sertanejo Leonardo gravou e também virou trilha de folhetim. Decidiu que era hora de gravar um CD solo e Feito Pra Acabar, o primeiro rebento, foi citado nas principais listas de melhores discos de 2010. Sucessos de crítica e público, Jeneci e sua Felicidade chega hoje, 21, a Fortaleza, para seu primeiro show na Cidade, encerrando a programação do IV Festival UFC de Cultura. O POVO conversou com o cantor e multiinstrumentista.
DISCOGRAFIA - Queria que a gente começasse você me contando um pouco de como foi o início do teu interesse por música, e como esse interesse passou a ser levado a serio, visto como profissão.
Marcelo Jeneci - A minha vida de músico aconteceu como vida de jogador de futebol que criança vai jogar em campinho de várzea, adolescente passa a treinar num time ou outro, e na fase adulta nem percebe que aquela diversão passa a ser um trabalho. Comigo foi assim. Desde os 15 anos eu recebo pra trabalhar por música. Eu cresci numa atmosfera de muita saudade, de música, de música para matar a saudade, muita TV aberta, muita cultura popular. Acho que eu fui absorvendo essa linguagem, e essa vocação para música acabou compatibilizando essas duas coisas.
DISCOGRAFIA - Você toca sanfona e a sua primeira foi doada pelo Dominguinhos. Por ser a sanfona um instrumento muito usado em ritmos nordestinos, como foi que você virou roqueiro e escolheu esse caminho alternativo?
Jeneci - Acho que pelo fato de eu ter morado a vida inteira em São Paulo, que é uma cidade que comporta vários gêneros musicais. Minha família é pernambucana, mas não existia essa pressão para que eu tocasse ritmos nordestinos. E quando eu comecei a tocar sanfona eu pensei: “Nunca vou conseguir tocar como esses caras”. Daí, segui outro caminho e a minha música tem influência da música indie argentina, do rock. Eu uso a sanfona nisso. Porque o instrumento é livre, é aberto para ser usado da maneira como a gente quiser.
DISCOGRAFIA - Quais outros instrumentos você toca? Começou mesmo com a sanfona?
Jeneci - Não, a sanfona foi um dos últimos, comecei a tocar por necessidade. Pela vontade de sair pra fazer música e surgir essa oportunidade para alguém que soubesse tocar sanfona e piano (aos 17, Jeneci fez parte da banda de Chico César). O meu primeiro instrumento foi órgão, depois piano. Com 17 comecei com sanfona e, em 2008, quando eu fui começar minhas composições, comecei no violão e na guitarra.
DISCOGRAFIA - O fato de teu pai ser do Nordeste (seu Manoel Jeneci é de Sairé, Pernambuco) e você sempre visitar a terra natal paterna reflete de alguma maneira na sua musicalidade?
Jeneci - Com certeza. Essa relação da saudade, típica do nordeste, é uma ponte direta para música que eu faço. No fundo eu acredito que o fato de eu ser musico é uma extensão de um movimento que começou bem antes de eu nascer. De uma família que migra de Pernambuco para São Paulo, que não tem nem um outro músico, mas tem um filho com vontade de ser músico, que é meu pai, e que acaba mexendo com coisas de eletrônica (seu Manoel consertava acordeons e tinha alguns clientes famosos, como o próprio Dominguinhos) e que quando eu apresentei a vocação me incentivou. De repente eu saio músico. Muito do que eu faço hoje é para dar satisfação para todas as pessoas que me guiaram até aqui. E a minha música guarda essa melodia saudosa, passional, por sentir falta de algo, e que é diretamente ligada à canção nordestina, aos lamentos sertanejos.
DISCOGRAFIA - Você já tocou na banda do Arnaldo Antunes e do Chico César, compôs algumas músicas para outros cantores. Como se deu a passagem do músico instrumentista para o compositor? Quando você sentiu que era o momento certo para engatar uma carreira solo?
Jeneci - Quando eu comecei a tocar com o Chico César e viajar pelo mundo, eu não fazia ideia que dez anos depois eu estaria compondo. Eu sabia que antes dos 30 eu ia fazer alguma coisa autoral, mas até lá eu fiquei ligado à função do instrumentista. Vivendo essa vontade de estar perto de quem eu achava interessante. E chegou um ponto que se confundiu um pouco isso de saber se era eu que estava ali atrás deles, ou eles que estavam me procurando, porque eu passei a me colocar de forma mais autoral. Eu lembro que eu ficava nas passagens de som pensando “Pó! Eu acho que se eu fizesse tal música ia funcionar nesse festival, esse público de dez mil pessoas ia curtir”. Aí eu comecei a criar num plano virtual esse álbum, idealizando o que seria bom de fazer, o que eu tinha vontade de fazer, me colando naquele lugar. Parecido com quando a gente está apaixonado que a gente faz plano, coloca as coisas num plano virtual e cria essa vontade. Foi mais ou menos assim na mudança do instrumentista para compositor. Primeiro eu fiz com a Vanessa da Mata o Amado. Nessa mesma época eu conheci a Laura Lavieri (cantora que acompanha Jeneci no CD e nos shows), eu era muito amigo do pai dela, gostei muito da voz dela, que eu não gostava da minha. E eu tocava no Cidadão (Instigado) e me reencontrei com essa música mais sentimental. Fui compondo pensando na voz dela, porque eu não gostava da minha. Em dois anos eu compus o repertório todo e já desenhei ele na cabeça, qual ia ser a primeira música, a última.
DISCOGRAFIA - E como você passou a gostar da sua voz?
Jeneci - Aos poucos, o que era insegurança se tornou convicção e eu passei a entender esse instrumento novo, que é a minha voz e por fim eu me senti realizado e aliviado. Hoje eu já sinto diferente. Taí uma coisa que com certeza vai mudar para o segundo álbum.
DISCOGRAFIA - O Feito Pra Acabar foi citado em diversas listas de melhor álbum de 2010. Como foi pra ver teu primeiro trabalho já alcançando esse sucesso?
Jeneci - Ele foi alimentado por uma necessidade de viver algo. Nesse processo, eu sentia que tinha de dar conta, de dar uma satisfação a essas pessoas que me guiaram. Então, ele tem uma questão existencial. Eu estive por muito tempo ligado o tempo inteiro a ele, não tive descanso até ele ser finalizado. E não foi um processo fácil, foi bem pesado. Quando eu terminei me senti aliviado, enfim eu podia pegar ele pronto, ir na casa dos meus pais, colocar ele para tocar e dizer “Olha, foi por isso que saí de casa aos 18 anos”, e foi o que eu fiz. Enfim, eu podia devolver para Guaianases (bairro paulista onde Jeneci cresceu, conhecido por ser reduto de nordestinos), para periferia de São Paulo, algo que eles pudessem gostar. Eu estou ali naquele álbum fazendo uma música para eles, uma música popular. E essa sinceridade foi de dentro para fora, e está começando a se manifestar de fora pra dentro também, porque todas as coisas feitas de dentro para fora com essa sinceridade, a resposta é igual. Às vezes o tempo é injusto, nesse caso não foi.
DISCOGRAFIA - Em uma entrevista, o (Fernando) Catatau contou que no começo do Cidadão Instigado ele se assustava quando as pessoas cantavam as músicas dele, tinha até certa raiva. Essa popularização da tua música, então, não te assusta?
Jeneci - Não, não. A vontade do compositor é de que a música chegue às pessoas, deixe de ser dele.
DISCOGRAFIA - Queria que você me contasse um pouco do teu processo criativo. Você bola primeiro a letra ou a melodia? A música sai toda de uma vez? A inspiração é autobiográfica?
Jeneci - É bem misturado, não tem muita regra, não. Onde eu tiver lugar para sentar é um bom lugar. No piano, avião, banheiro, janela, rua, chuva, fazenda ou numa casinha de sapê (risos). Às vezes, vem uma frase ou a letra e eu procuro a música. Às vezes é o contrário. Ou é uma soma de insights que surgem numa conversa, e a partir disso vem o trabalho braçal. Ao final é preciso editar tudo isso.
DISCOGRAFIA - E, como compositor, você tem como parceiros também grandes nomes da MPB, pessoas como o Arnaldo, Wisnik, Tatit. De que modo compor com artistas desta envergadura contribui para a formação da sua linguagem musical?
Jeneci - Toda vez que eu me aproximo de alguém para fazer música acontece alguma troca. Ou eu contribuo nas músicas de alguém, ou eles contribuem no meu projeto. Eu não fico pensando “Ah! Quem ta aqui é o Arnaldo, ou Wisnik, ou Tatit”. Eu penso que eu trabalho a serviço de uma terceira pessoa que é a canção, e como ela está ali confiando em mim, para ela ir seguir, para ela ser finalizada. E quando eu acho que para que a canção seja melhor, ou que falta alguma coisa, eu vou atrás da ajuda de algum parceiro. Lógico que ter a chance de passar algumas tardes com o Arnaldo, com o Wisnik, ter esse privilégio, é coisa rara, é um presente, e tem de ser aproveitado. Eu cito esse três porque eu acho que são eles com quem eu aprendo a fazer coisas que tenham um conteúdo que resista ao tempo, que seja sincero, poderoso, que as pessoas escutem deixem aquilo guardado no coração.
DISCOGRAFIA - Tem alguém com quem você ainda quer compor em parceria?
Jeneci - Acho que com Roberto Carlos. Não só por ele ser um cantor romântico, mas porque ele consegue sintetizar em poucos versos sentimentos que todos nós sentimos.
DISCOGRAFIA - Sobre o show aqui em Fortaleza, como estão as expectativas? E o repertório é do Feito Pra Acabar, mas tem alguma novidade?
Jeneci - Essa situação de um primeiro show é sempre instigante, o pessoal da UFC foi muito bacana de me convidar para o projeto. Eu fico tentando preparar alguma coisa para responder o carinho do público, das pessoas que pediram o show pela redes sociais. O repertório é do Feito Pra Acabar com mais duas músicas que não estão no CD, e uma terceira se eu sentir que as pessoas estão com vontade de me ouvir. Eu vou com espírito de fazer um show de todos. Meu que vou estar ali no palco, mas também de quem me escuta, e se tiver alguém disperso eu chamar: “Vem cá”.
04.10.11 11:00
Ave Sangria: um escândalo psicodélico pernambucano
Por Camila Holanda (@camilasholanda)
Ave Sangria escandalizou, incomodou e encantou Recife, em 1974, com letras que iam do romantismo à agressividade de uma moça carniceira. Os integrantes da banda usavam mertiolate nos lábios para chocar o público. Conseguiram.
A profusão de melodias e sentimentos produzidos pela psicodelia do grupo pernambucano é valiosa para a música brasileira. Aliás, os artistas do movimento Udigruidi, na década de 1970, são de extrema relevância, devido à irreverência e ao estilo prafrentex da turma. Zé Ramalho, Lula Cortes, Alceu Valença e Marconi Notaro são alguns contemporâneos do Ave Sangria no movimento cultural.
No primeiro e único disco do grupo formado por Marco Polo, Almir de Oliveira, Ivson Wanderley, Agrício Noya, Israel Semente e Paulo Raphael, vê-se o desatino de jovens inquietos que viviam em um Brasil paradoxal: de um lado, a contracultura, do outro, a ditadura. Ir contra os padrões fazia a cabeça deles. Ave Sangria também foi alvo das censuras do governo militar. A ilustração da capa do único disco da banda foi submetida a modificações, depois, definida pelos integrantes como sendo um papagaio drag queen. Após esse trabalho, feito sob vários problemas, a banda voltaria com o show Perfumes & Baratchos, que acabou servindo como uma despedida da curta carreira. Cinco anos depois, o guitarrista Ivinho seria o primeiro brasileiro a tocar no lendário Festival de jazz de Montreux, na mesma noite em que Gilberto Gil tocaria ao lado de Pepeu Gomes. Acompanhado somente pelo violão de sete cordas, ele improvisou cinco temas na hora que ficaram registrados em disco.
Destaques musicais
Dois navegantes é a primeira faixa do disco lançado em 1974, com produção do ex-Jovem Guarda Marcio Antonucci, e que hoje ganhou ares míticos. Uma viagem de sinestesia. “Só deixes o vento que solta teus cabelos, espelhos dos meus”. Se o ouvinte deixar-se levar um pouco, sentirá até a maresia que sai da canção Dois navegantes. Pulando para O Pirata, quarta composição, baixo, guitarra, percussão, bateria e letra encaixam-se em uma sincronia que dá vida à música. Seu Valdir é para curtir a dor de cotovelo de forma animada. Por que tem um diferencial: o triângulo embalado por Agrício Noy. Sem dúvidas, Geórgia, a carniceira é a música que mais incomoda, quando fala: “Geórgia, a carniceira dos pântanos frios, das noites do Deus Satã, jogando boliche com as cabeças das moças mortas de cio. No levantar das manhãs de abril”. Ademais, todo o disco merece atenção especial: letras, melodias e arranjos são despojados e alinhados, em sintonia com o paradoxo de tudo o que envolvia Ave Sangria.
03.10.11 16:49
Fornfun se volta pros 90 no ensolarado Alegria Compartilhada
Nos anos 90, um ritmo que fez muito a cabeça das novas bandas de rock brasileiro foi o reggae. O estilo jamaicano foi trazido alguns anos antes por Gilberto Gil e Paralamas do Sucesso e fez a graça da juventude noventista nas festas e no rádio. Enquanto Skank e Charlie Brown Jr, por exemplo, passaram pelo balanço de Marley, Cidade Negra e Natiruts o adotaram como bandeira. Quase duas décadas depois, em 2008, foi a vez do quarteto carioca Forfun decidir trocar seu “pop punk” (hã?!) sem graça pelas positive vibrations e lançar seu segundo disco, Polisenso. A viagem deu certo e agora eles mergulham de vez no mundo dos dreadlocks para lançar Alegria Compartilhada. Embalado em inspiradas ilustrações de Noelma Guimarães, o quarto disco solo do Forfun faz jus ao nome (“para alegrar”) e às lições de Jah com 12 canções compostas pela banda e bem amarradas pela produção coesa de Daniel Gajaman. Claro que tudo no disco, das letras falando sobre positividades ao tchac tchac da guitarra de Danilo Cutrim, segue direitinho a cartilha do reggae (pop) brasileiro pós-90. Minha jóia, por exemplo, poderia bem estar num disco do Natiruts. Assim como Descendo o rio poderia estar num do Cidade Negra. Para mal, Tropicália Digital lembra Charlie Brown Jr, apesar da letra curiosa que vai de jabulani a rivotril. Há momentos bem melhores como o sambafunk Quem vai, vai (que lembra Quero ver você no baile, de Paula Lima) ornada com um nipe de metais arranjados pelo metre Tiquinho do Funk como le gusta. A garça tem uma bela letra, assim como Quando a alma transborda (“Quando não cabe no corpo, é quando a alma transborda”). Vitor Insensse, antes guitarrista, agora é responsável pelos samplers e teclados e constroi climas e ruídos que casam bem com a cozinha de Rodrigo Costa (baixo) e Nicolas Cesar (bateria). O sempre afiado Gustavo Black Alien (ex-Planet Hemp, também dos 90) dispara seu discurso em Cosmic Jesus falando em Krishna, Buda e Alá. Pra encerrar este Alegria Compartilhada, Pra sempre faz uma espécie de oração envolta em guitarras pesadas e teclados estilo “nave da Xuxa”. Aos dos 42 minutos do disco a sensação é de que, se você procura um disco para ir à praia curtindo um som, essa é uma boa dica.
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