23.11.11 15:00
O violão vadio de Baden Powell
Ao longo da história, muitos músicos brasileiros contribuíram para que fosse dado ao violão a dignidade que ele merece. Até então ligado à boemia, Chiquinha Gonzaga forçou a entrada do instrumento nos grandes teatros e até criou uma orquestra de violonistas. Raphael Rabello e Heraldo do Monte levaram a brasilidade das seis cordas para os amantes do jazz em todo o mundo. João Gilberto apostou na economia e criou a Bossa Nova. Outros fizeram seresta, samba e chorinho. Nessa salada de influências, um carioca nascido na pequena Varre-Sai também deu sua contribuição.
Batizado com o nome do criador do escotismo, Baden Powell de Aquino ainda bem pequeno, começou a dedilhar o violão incentivado pela musicalidade que absorvia dentro de casa. Seu primeiro contato aconteceu quando roubou o instrumento do quarto da tia para tentar desvendar o que era aquilo objeto. Foi o suficiente para que seu pai, músico amador, começasse a ensinar as primeiras notas. Ágil e compenetrado, o aluno foi adotando um estilo que transitava levemente entre o erudito e o popular.
Compositor de clássicos e músico requisitado por grandes estrelas, Baden Powell viajou o mundo em gravações e apresentações internacionais. Uma delas volta agora em DVD lançado pela Coqueiro Verde. Batizado simplesmente de Tristeza, o pacote com CD e DVD traz uma apresentação de 1970 gravada em Säarbrucken, na Alemanha. Em pouco menos de 30 minutos, Baden e um trio formado por Helio Schiavo (bateria), Ernesto Gonçalves (baixo) e Alfredo Bessa (percussão) interpretam nove temas, a maioria de nomes da Bossa Nova.
Mesmo sem nunca ter sido um autêntico bossanovista, Baden construiu sua obra mais célebre ao lado de Vinicius de Moraes, um dos símbolos do movimento. Os afro-sambas, como ficaram conhecidos, fizeram o cruzamento do samba carioca com o som dos terreiros de candomblé. Foram quase três meses com o jovem violonista trancado num apartamento com o poeta diplomata somente compondo e bebendo whisky. Em Tristeza, os afro-sambas são representados por Tristeza e Solidão e Berimbau, esta creditada inexplicavelmente como “Ferro de passar”. Também imperdoável é a marca da gravadora no canto da tela durante toda a apresentação.
Apesar desses escorregões, a obra de Baden Powell se sobrepõe. Com o rosto sóbrio e um cigarro entre o anelar e o mínimo, ele desliza os dedos sobre as cordas num arranjo soberbo para Manhã de Carnaval. Garota de Ipanema ganha um balançado diferente, mais dançante, resultado dos seus anos tocando com a banda de Ed Lincoln. Já a tristonha Tristeza e solidão, outro afro-samba, tem a participação de uma esquecida Dulce Nunes, atriz que se lançou cantora ao lado do violonista.
Dentro e fora do Brasil, grandes artistas reverenciaram a importância de Baden Powell. Seus discos passam por Paris, Berlin, Hamburgo e Frankfurt. Por aqui, perto de falecer em 26 de setembro de 2000, ele já não tocava seus afro-sambas. Convertido à religião evangélica, ele evitava citar os símbolos do candomblé. Preferia excursionar com os filhos músicos, Phillip e Marcel Powell tocando outras coisas. Ainda assim, mesmo contra a vontade do músico, seus afro-sambas continuam sendo um capítulo fundamental da história do violão brasileiro.
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