Você já assistiu um maluco no pedaço?

Um dos meus maiores passatempos é assistir seriados, amo os roteiros extensos, a suspense que rola em cada trama e a intimidade que eu crio com os personagens que nem sequer são reais, mas que me cativam como se fossemos amigos próximos. Sofro, comemoro, sou estimulado a pensar, enfim… seriados são tão gostosos quanto livros!

Mas, acontece que essa paixão não é de hoje, pois uma das maiores nostalgias que tenho é assistir “um maluco no pedaço” na casa dos meus avós quando era criança. A série se passa nos anos 80 e retrata a história de um garoto chamado Will Smith, que após arrumar briga com alguns rapazes na Filadélfia, é mandado por sua mãe para morar com os tios em Bel-Air, um bairro classe alta em Los Angeles. Will já chega causando um alvoroço na mansão dos seus tios por ter costumes, gostos e sonhos diferentes de seus primos que sempre cresceram valorizando uma perspectiva de vida “além da média” dos americanos.

A forma como Phill(tio) era bruto, Geoffrey(o mordomo) sarcástico, Carlton(primo) inocente e Will “desenrolado”, escapando das situações geradas na mansão por ele mesmo, me arrancavam boas risadas, a atuação dos protagonistas eram surreais, não é atoa que muitos foram lançados aos holofotes pelo seriado e desde então, participam de grandes filmes. Vinte minutos eram pouquíssimo para o tempo que eu ficava esperando o episodio começar, creio que naquela época nem cheguei a sequer ver o último episodio da série sendo transmitido, mas uma coisa me deixou extremamente feliz nas ultimas semanas, percebi que a série toda constava no catálogo do Netflix, e resolvi maratona-la novamente, assistindo dois ou três episódios por semana.

Acontece que a perspectiva em cima da série foi totalmente diferente, ela deixou de ser apenas uma série de humor para se tornar uma série que trás a tona criticas sociais, não estou dizendo de forma alguma que o roteiro mudou ou que a série foi regravada, nada disso, mas que após anos, eu percebo as duras lições que a série nos propõe a ensinar, talvez por nessa caminhada ter perdido um pouco da inocência que eu tinha na infância, presenciando na caminhada que a vida é, diversas formas de preconceito acontecer, mas sem viver ou passar por nenhuma delas. Hoje eu sei que o autor nos apresenta um dos conflitos que marcaram a sociedade norte-americana: O racismo.

O sexto episódio da primeira temporada foi um dos mais marcantes desde que comecei a assistir novamente, onde Will e Carlton são presos por “aparentemente” roubarem um carro, a condução da policia é feita de forma ilegal e o “Tio Phill” fica furioso por saber que o motivo dos policiais ter prendido os rapazes não foi por nenhuma infração cometida, mas sim, por terem vistos “dois negros dentro de uma mercedes em plena Los Angeles”. O episodio é longo e não da para tratar os seus pequenos detalhes que o tornam marcante, mas confesso que terminei o capitulo bastante reflexivo, com um sentimento de anseio por querer que todos que estão ao meu redor tirassem um “tempinho” para assistir também. Me questionei se em algum momento da minha vida fui preconceituoso e percebi que sim, através de “piadas” aparentemente inocentes, que você até acha que não afetam a ninguém, mas que são o suficiente para abalar a autoestima de alguém ou a levar ao constrangimento.

Em época de polarizações, falar de preconceito é até intrigante, pois você fica a mercê de ser etiquetado por outros de “A ou B”, “vermelho ou azul”, “coxinha ou mortadela”. Mas a proposta do texto não é levantar bandeira de lado nenhum, mas sim, questionar onde está o senso dos “Martin Luther King” dessa geração? Onde estão aqueles que em resumo, lutam pela liberdade do próximo de poder andar por onde quiser ou fazer o que quiser sem ser visto com desconfiança? Como movimentos como o neonazismo ainda hoje são abraçados por alguns? Como após vinte anos, os problemas levantados em um maluco no pedaço ainda ecoam? Esses são questionamentos que a nossa fé nos propõe a pensar e achar soluções!

Precisamos aprender a valorizar o próximo, mostrar que não existe barreiras por conta da nossa “melanina”, precisamos mostrar as crianças que elas são amadas com as características que Deus deu para cada uma delas, estamos caminhando para isso, com passos pequenos, mas “eu tenho um sonho” de que o evangelho vai nos fazer continuar caminhando, e que nessa caminhada, eu mesmo preciso aprender cada uma dessas lições todo santo dia!

“Eu tenho um sonho. Um dia, meus quatro filhos vão viver num país onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pelo seu caráter… Com esta fé, seremos capazes de extrair da montanha do desespero a pedra da esperança. Com esta fé, seremos capazes de transformar as contendas desarmoniosas de nossa nação em uma maravilhosa sinfonia de irmandade. Com esta fé, seremos capazes de trabalhar juntos, orar juntos… na certeza de que um dia seremos livres”. – Martin Luther King

Se vocês de fato obedecerem à lei do Reino encontrada na Escritura que diz: “Ame o seu próximo como a si mesmo”, estarão agindo corretamente. Mas, se tratarem os outros com parcialidade, estarão cometendo pecado e serão condenados pela Lei como transgressores.
Tiago 2:8-9

Afonso Rocha

Sobre Afonso Rocha

Discípulo de Jesus que a cada dia tem aprendido a amar mais a missão que o mestre deixou, graduando em direito e teologia, fascinado por conversas de mesa, livros e séries.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *