Pensamentos Empacotados

O mundo está polarizado. Já faz um tempo, é só olhar pro século passado. A guerra
fria mal acabou e já começou de novo. Parece que quanto mais se fala de aceitação mais se
deseja diferenciar e, enquanto isso, as divergências se transformam em desavenças e criam uma sociedade cada vez mais dividida, a maioria diluída em minorias que se digladiam por fatias de poder.

No dia a dia, percebo tantos discursos sobre tolerância, mas nem todos estão
dispostos a ouvir. Convicção é algo bem importante, mas se eu prego todo tempo a
diversidade, o mínimo que eu devo fazer é escutar o diverso – e até o inverso – de mim mesmo. Mas as ruas se enchem de palavras de ordem, as universidades se apinham de uns que se importam, uns que se revoltam e uns que ignoram. Nem sempre a solução é parar tudo, nem sempre jaz nas mãos de poucos, mas o remédio microscópico que são as ações desses poucos já gera um pingo de esperança.

Mas se há algo em falta na sociedade hoje, é isso: reter o que é bom, senso crítico,
debate saudável, equilíbrio. Divergência e diversidade na esfera macroscópica; mas coerência e respeito na esfera pessoal, no plano interno. Não. Hoje é tudo ou nada. Fortaleza ou Ceará, esquerda ou direita, Willys ou Bolsonaro, Comunismo ou Neoliberalismo, lindo ou horrendo, fanatismo ou relativismo, militância ou marasmo. A religião ou é ópio do povo, expressão fanática da cegueira mental, raiz dos males; ou é a resposta irrefletida para cada problema e situação. Dos prazeres e do dinheiro pode-se dizer quase o mesmo.

Você não precisa aceitar tudo que lhe dizem. Pelo contrário. Você não deve tomar
toda informação por verdade e certa, e consequentemente nada por falso ou errado. Se não houver parâmetro, não haverá verdade. Porém, também não deve se fechar no casulo da opinião. E, como um amigo meu gosta de falar, não precisa se filiar a um “pacote de ideias” pré-estabelecido. “Pensar fora da caixa” talvez seja provar pensamentos e mesclar numa coisa chamada Eu. Minha mente. Não é necessário aderir ao pacote Bolsonaro ou ao pacote Jean Willys; ao pacote Malafaia ou ao pacote de sei lá que outras personalidades.

Mas ninguém consegue ouvir um pingo de divergência, de sugestão de mudança, de
progresso ou de retorno a uma antiga ideia, sem se retorcer e arrepiar todos os cabelos do
corpo de medo do diferente. Preparamos logo as tochas e queimamos, hoje, não as pessoas, mas os pensamentos (Freud já disse que foi um avanço os nazistas queimarem livros em vez de pessoas, antes de retroagirem e começarem a queimar as pessoas também). E num gradual e hoje não-tão-lento quê de genocídio cultural, ideias se esvaem e as pessoas quase se esvaem junto, pra ficar somente o necessário. E o necessário, pra alguns, é pouco demais.

Toda essa confusão social contemporânea faz lembrar de Fahrenheit 451, primorosa
obra literária de Ray Bradbury que apresenta uma distopia em que os livros são proibidos e queimados. É um livro sobre uma época em que já não há mais livros. A sociedade
democraticamente decide que seu lugar é na fogueira, onde não poderiam mais gerar confusão – nem reflexão. Em vez disso, entre grandes TVs e carros potentes, os habitantes dessa terra trocam a cada dia todo pensamento por entretenimento. Espero que esse dia esteja longe, mas temo que nem tanto.

Bradbury, ao final, em seu comentário em primeira pessoa intitulado “CODA”, dá uma
amostra direta de seu pensamento sobre o cerceamento dos detalhes que vão contra o que algum grupo acredita:

O sentido é óbvio. Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos.

Cada minoria, seja ela batista, unitarista; irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista; sionista, adventista-do-sétimo-dia; feminista, republicana; homossexual, do evangelho-quadrangular, acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio. Cada editor estúpido que se considera fonte de toda literatura insossa, como um mingau sem gosto, lustra sua guilhotina e mira a nuca de qualquer autor que ouse falar mais alto que um sussurro ou escrever mais que uma rima de jardim de infância.

 Beatty, o capitão dos bombeiros em meu romance Fahrenheit 451, explicou como os livros foram queimados, primeiro, pelas minorias, cada um rasgando uma pagina ou parágrafo desse livro e depois daquele, até que chegou o dia em que os livros estavam vazios e as mentes caladas e as bibliotecas para sempre fechadas.

Interessante como, na história do livro, bem como em momentos do passado, algumas
pessoas preferiram queimar junto às ideias. Só isso já demonstra que elas não são tão fáceis de destruir, ou, ao menos, que resistir é útil.

O apóstolo Paulo, ao conversar com os filósofos gregos, expôs a Fé de uma forma
que pudesse ser compreendida na linguagem daqueles homens. Assim também o fez com os diversos tipos de pessoas que encontrava em suas jornadas, cada uma com sua peculiaridade. Talvez seja a hora de nós, cristãos, buscarmos conhecer mais as ideias produzidas por tantos através dos dons que lhes foram dados. Sobre a quantidade de informações que existem por aí e a crescente polarização, que evitemos radicalismos, pois o próprio Cristo, na medida em que adotava posicionamentos extremamente firmes, sabia acolher todos aqueles que não conheciam a Verdade por ele pregada. Ninguém era mais criticado por Ele do que o hipócrita que condena os outros antes de si mesmo. Façamos, então, valer as palavras que pregamos a plenos pulmões, para que sejam também cumpridas de todo coração.

Este texto é, antes de tudo, uma defesa da liberdade. Não é uma defesa da aceitação
irrestrita da ofensividade e daquilo que atenta à estrutura comunitária. Mas é pra que
entendamos que existem pessoas diferentes, que têm direito de assim ser. O politicamente
correto às vezes mata a criatividade e a autonomia de quem produz, pensa ou fala algo de que eu não necessariamente gosto. E quando surgir a diferença, inspiremo-nos nas palavras do apóstolo: “mas ponham à prova todas as coisas e fiquem com o que é bom” (1 Ts 4:21). No exercício de nossa liberdade, que a sabedoria seja usada para contemplar ideias e compará-las à Verdade revelada.

Em vez de queimar, conhecer.

daniel marques

Sobre daniel marques

Cristão. Estudante de Direito na Universidade Federal do Ceará. Entusiasta de Direito Natural e Direitos Humanos. Gosta de tudo que é interessante, sejam livros, teologia, música, quadrinhos, basquete ou várias outras coisas que não cabem na descrição. Escreve porque ama.

2 thoughts on “Pensamentos Empacotados

  1. Parabéns, Daniel .Você descreveu a sociedade atual tal como ela se encontra.Excelente abordagem.

  2. Daniel, meu filho… Meu orgulho.

    Seu primeiro texto num jornal, e já tão impactante, já tão profundo, já tão perfeito.

    Postura equilibrada, linguagem objetiva, abordagem desafiadora, conteúdo irretocável. E quando arrisca-se na exortação, de imediato acompanham importantes ressalvas.

    Você me inspira, filho. E sei que ainda inspirará multidões. Isso é só o começo…

    “Enterprise, aqui é o capitão. Tripulação, preparar para decolagem. Velocidade de dobra”.

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