Ouvindo a voz que redimensiona nossa visão de mundo

*Por Hamilton Perninck Vieira

O menino Samuel ministrava perante o Senhor, sob a direção de Eli; naqueles dias raramente o Senhor falava, e as visões não eram freqüentes.

[…]

O Senhor voltou a chamá-lo como nas outras vezes: ‘Samuel, Samuel!’ Samuel disse: ‘Fala, pois o teu servo está ouvindo’.

(I Samuel 3.1,10)

Palavras. Vozes. Sons. Ruídos. Barulho. Este é o mundo do frenesi insano que quer nos engolir cotidianamente a fim de nos alienar daquilo que é espiritual. O mundo pós-moderno pauta-se na ausência da pausa para  escuta e a reflexão. Diferentemente do conselho bíblico, somos prontos para falar e tardios para ouvir (Tiago 1.19) e costumeiramente, falamos muito e ouvimos pouco (Provérbios 18.13). Diante disso, podemos seguir o rumo da nossa vida ouvindo nosso coração, o mundo ao redor ou aquilo que o Senhor Criador do Universo tem a nos dizer. Isso nos faz pensar: que vozes ouvimos quando buscamos aprovação e reconhecimento nos outros? Do ponto de vista negativo, o que uma adolescente deseja quando decide experimentar a sexualidade inconsequente e, às vezes, como consequência, tem que assumir uma gravidez precoce? O que motiva um indivíduo a se envolver com o mundo das drogas? Do ponto de vista positivo, o que esperamos quando fazemos o bem à alguém? Reconhecimento, aplausos, atenção? Será que nosso bem estar emocional depende da aprovação dos outros? Logo, podemos querer ser o que pensamos ser, o que os outros acham que somos, ou aquilo que Deus diz que éramos, somos e seremos.

Em primeiro lugar, podemos ouvir a voz do nosso coração e sermos enganados. Por isso, sabemos que “o coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável. Quem é capaz de compreendê-lo?” (Jeremias 17.9). Neste sentido, não podemos configurar nossa maneira de viver por aquilo que pensamos. Nossa visão é rasteira, míope e, acima de tudo centralizadora. Se o coração for nosso guia seremos como um carro desgovernado sem combustível e direção para chegar ao seu destino. Seremos  pessoas que buscam a automotivação e a auto-ajuda, achando que o homem é um sim em si mesmo. Portanto, acreditaremos como o filósofo sofista Protágoras (480-410 a.C.) que, “o homem é a medida de todas as coisas”. Se assim for, estaremos nos auto-enganando pois, nunca saberemos conduzir nossa vida porque não somos auto-suficientes. Sendo assim, a Bíblia nos diz: “Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apóie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas (Provérbios 3.5-6). Não nos bastamos, somos seres de dependência…

Em segundo lugar, é possível viver na dependência das vozes daqueles que estão ao nosso redor e sermos frustrados. Tais pessoas vivem o tempo todo instáveis esperando o reconhecimento de suas ações em relação ao outro. Nada e ninguém pode ser a fonte plena do bem-estar e felicidade. É fato que os relacionamentos interpessoais são instrumentos para o nosso aperfeiçoamento humano. Por isso, “assim como o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro” (Provérbios 27.17). Entretanto, podemos fazer do outro o altar que construímos para cultuar nosso ego divinizado. O objetivo na verdade não é o outro, mas nossa autopromoção. Em outras palavras, precisamos da aprovação do humano na tentativa de nos tornamos divinos (Gênesis 3.5). Nesta direção, o Senhor nos diz: “O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água” (Jeremias 2.14).  Somos seres para além de nós mesmos e dos outros….

Em terceiro lugar, existe a possibilidade de ouvir a voz do Pai que nos faz humanos completos. À semelhança do nosso Irmão mais velho, necessitamos da proclamação em alto e bom som daquilo que Deus pensa sobre nós. Jesus, apesar de ser plenamente Deus, era plenamente homem. Nasceu. Viveu. Teve fome e sede. Sentiu dor, sofreu e morreu. Para que pudesse concluir sua missão celestial por duas ocasiões Deus bradou aos quatro cantos da terra a seu respeito. No início de seu ministério, o Senhor lhe disse: […] ‘Este é o meu filho amado, de quem me agrado’ (Mateus 3.17; Marcos 1.11; Lucas 3.22). Durante seu ministério, por ocasião da Transfiguração, novamente Deus renova ao coração de Jesus o que havia lhe dito no batismo: “Enquanto ele ainda estava falando, uma nuvem resplandecente os envolveu, e dela saiu uma voz, que dizia: ‘Este é o meu filho amado de quem me agrado. Ouçam-no!’ (Marcos 12.6; Mateus 17.5). Pedro ainda diz: “Ele recebeu honra e glória da parte de Deus Pai, quando da suprema glória lhe foi dirigida a voz que disse: ‘Este é o meu filho amado, de quem me agrado’” (II Pedro 1.17).

Desta forma, se Jesus precisou afinar o ouvido do seu coração à voz do Pai que definia sua identidade (quem somos?) e missão (o que fazemos?), nós, como seus discípulos, também carecemos do que nos diz o Senhor. É em Sua Palavra que aprendemos quem éramos, pecadores condenados à ausência de Deus e a morte (Romanos 3.23); o que somos, pessoas acolhidas por seu amor incondicional que nos fez filhos (I João 3.1) e; o que seremos, eternos e incorruptíveis (I Coríntios 15.52-53) que não mais conhecerão a dor, a tristeza, o choro e a morte (Apocalipse 21.4). Logo, é à Palavra de Deus que devemos ouvir…O sussurrar de sua voz ao nosso coração que diz que somos amados não pelo que somos, mas por aquilo que ele é: amor sem medida…Assim, “Portanto, sejam imitadores de Deus, como filhos amados” (Efésios 5.1), “pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu filho amado” (Colossenses 1.13)

Enfim, que vozes estamos ouvindo? Nosso coração? Às pessoas ao nosso redor ou Àquele que conhece nossas mais profundas carências e que só Ele pode supri-las? Nada material e nenhum amor  humano podem preencher aquilo que somente a Fonte do Amor é capaz de fazê-lo. Quando nossas forças se esgotam e nos perdemos no Cristo que morreu de braços abertos para o mundo que podemos nos encontrar nesta vidam projetando-nos para a vindoura. Portanto, é ouvindo a voz de Deus na verticalidade que podemos redimensionar nossa visão de mundo na horizontalidade e usufruirmos de relacionamentos interpessoais saudáveis, não doentios e duradouros. Eis  a disposição diária de nosso coração: Fala Senhor que Teu servo ouve…

* Hamilton é bacharel em Teologia, pedagogo, especialista em formação de professores e membro da IBC

Assessoria IBC

Sobre Assessoria IBC

Jornalista diplomada pela Universidade Federal do Ceará. Produtora, repórter e apresentadora no telejornalismo cearense e potiguar. Atualmente é Assessora de Comunicação da Igreja Batista Central de Fortaleza.

One thought on “Ouvindo a voz que redimensiona nossa visão de mundo

  1. Amados do Senhor
    Que bom ler algo de tamanha importância, que nos pucham as orelhas, nos alerta, nos consola e edifica.
    Em Cristo.
    José Jaime Barbosa – servo e irmão.
    Igreja Batista Quemuel no Mantiqueira – Belo Horizonte – MG

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