OS GURUS DA RELIGIÃO E AS ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO DAS GRANDES MASSAS EM NOME DE DEUS: UMA REALIDADE QUE DESCARACTERIZA O EVANGELHO DE JESUS

Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus (Mateus 22:29)

Por natureza o homem é um ser religioso. Seja de forma consciente ou inconsciente, todos os seres humanos estão em busca do religamento ao transcendente. A vida baseada na materialidade não dá conta de resolver os anseios, duvidas, angústias e questionamentos do homem que tem em si o senso da religião e o senso da divindade (Romanos 1:18-21; 2:14).

De forma bastante particular, o Brasil é um país no qual a sua identidade é não ter identidade alguma. Somos um povo com pouco mais de meio milênio de história. Não temos tradição milenar assim como os povos europeus e/ou asiáticos. Percebemos que a formação da América Latina padeceu do abandono da cultura local em troca de uma visão do mundo trazida da Europa que nos colonizou. Tal colonização de transplante, sobretudo a portuguesa, trouxe-nos uma centralidade religiosa submissa à pessoa, o sacerdote; a um lugar, a Catedral; a um serviço, o momento da liturgia; e a um dia de adoração, o domingo do Senhor.

Dentro desse contexto, de um lado, o protestantismo histórico nos apresentou a centralidade da religião em torno do templo e do mediador, assim como no Antigo Testamento. Nessa perspectiva, não há serviço a Deus fora das reuniões, dos dias de culto, dos programas, das atividades eclesiásticas e da mediação sacerdotal. A erudição teológica e a participação assídua na liturgia era e, para alguns, ainda é, o sinal de maturidade espiritual.

De outro lado, o pentecostalismo que chegou ao Brasil no início do século XX, acrescentou a esta dependência espiritual do sacerdote e do templo o valor da mística e da experiência sobrenatural do homem com Deus. Logo, é preciso ir além da “letra da Lei” e conhecer a “dimensão do Espírito” através do fenômeno do falar em outras línguas.

Em acréscimo a esse pentecostalismo clássico, surgiu o neopentecostalismo. Sem abandonar a necessidade de “experiências sobrenaturais com o Espírito”, viver o evangelho de Jesus agora é experimentar a Teologia da Prosperidade que não permite o cristão passar por privações pois “Deus é dono do ouro e da prata”; e/ou ainda, “todos somos filhos do rei”. Verificamos que o evangelho de Jesus de caráter teocêntrico se dissolveu em ensinamentos antropocêntricos que fazem de Deus servo dos homens e não contrário.

Diante desse cenário histórico que estamos discutindo em torno da religião romana, do pentecostalismo e do neopentecostalismo, vários gurus espirituais tem surgido para fazer o povo dependente de seus ensinos. Percebemos a criação humana de uma “indústria da religião”. A igreja de Cristo se tornou um grande “balcão de negócios” em que o líder-guru é o sacerdote que faz a mediação das benesses divinas em troca dos dízimos e das ofertas do povo.

Há um grande empresariamento da fé em nome de Deus, um outro nome para apostasia anunciada pela Palavra de Deus desde do início do século I: “O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios. Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos, que têm a consciência cauterizada” (1 Timóteo 4:1,2)

Para manter esse “comércio da religião”, muitos líderes têm criado estratégias de manipulação das massas que, em sua grande maioria, são analfabetas das Escrituras Sagradas. O discurso sempre é o mesmo: “Venha para reunião do grande homem de Deus!”; “Dê o seu melhor que Deus irá retribuir, trinta, sessenta e cem vezes mais a sua fé”. Neste sentido, está sendo criado um mecanismo de retroalimentação da dependência do povo para que continue sustentando estes “abutres do evangelho de Cristo”.

Sensacionalismo, espetáculo, retórica emocionalista, autodivinização, superioridade, iluminação exclusiva da Bíblia, manipulação, dentre outras, são estratégias de manutenção pastoral das pessoas que vão a essas comunidades manter o luxo desses gurus da religião. A grande questão é que a vida desses não condiz com o que pregam e as mídias sociais tem denunciado a falsidade, a corrupção e as posses materiais compradas com o dinheiro do povo humilde da comunidade, como atitudes que mancham o puro evangelho da graça de Jesus.

Precisamos retornar a uma espiritualidade cristã que se aproxime da vida simples e da ética de Jesus. Tudo isso acontece porque não conhecemos a Palavra e o Poder de Deus. De um lado, a Palavra de Deus é a lâmpada para nossos caminhos e o alimento para nossas almas. Entretanto, não basta conhecer intelectualmente os cânones da fé. O saber precisa ser traduzido no fazer e no ser. De outro, o Poder de Deus é não uma manifestação do frenesi que traz experiências sobrenaturais inconscientes, ao contrário; o poder é o evangelho de Jesus que nos faz conscientes de quem somos e de quem Deus é para nos levar a salvação da qual não somos capazes de comprar e/ou de fazer por onde encontrá-la (Romanos 1:16-17). É graça de graça, mas não foi barata; foi muito cara: custou a morte de Cristo que nos trouxe vida (1 Coríntios 6:20; 1 Pedro 1:18).

Por fim, entendemos que as lideranças das igrejas e os mestres foram instituídos por Deus (Romanos 12:6-8; 1 Coríntios 12-14; Efésios 4:11-16; 1 Pedro 4:11). Contudo, elas não podem ser a única fonte de nossa espiritualidade diária. Não podemos viver um evangelho dependente de gurus. Nós temos o Espírito. Quando nos arrependermos dos nossos erros e nos entregarmos a Cristo, o Mestre Consolador vem morar em nós e nos ensina todas as coisas (1 João 2:27). Façamos o movimento de todos os dias buscar a Palavra da Vida através de uma vida na Palavra. O que Deus tem nos falado? O que vamos fazer a respeito? A teologia é vida e nasce de nossa vida com Deus. A teologia não se constrói meramente numa escrivaninha de estudos, mas na vida diária em comunidade. O conhecimento apreendido na cabeça, deve descer para o coração e ser traduzido em atos de compaixão, a começar de nossos lares e atingir os outros ao nosso redor. Isso é viver o evangelho de Jesus! Quem aceita o desafio?

Hamilton Perninck

Sobre Hamilton Perninck

Doutorando em Educação/Formação de Professores (UECE, 2016-). Mestre em Educação/Formação de Professores (UECE, 2015), especialista em formação de professores (UECE, 2010), Licenciado plenamente em Pedagogia (UNG, 2008) e Bacharel em Teologia com concentração em Ministério (SVB, 2003). Professor Pedagogo da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza. Educador Social e Pedagogo na Associação Terapêutica Grão de Mostarda. Membro do UECE/OBEDUC (Observatório da Educação da Universidade Estadual do Ceará).

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