O tempo e o vento

O tempo voa, as pessoas correm, os corpos envelhecem, as mentes permanecem iguais. Passam os dias, enquanto orgulhosos sábios com magníficas teorias andam para frente sem sair do lugar.

Maturidade é algo que se espera de todos, mas que ninguém realmente tem totalmente. Todo mundo, de uma forma ou de outra, é uma criança por dentro. Isso até adiciona mais sentido à nossa necessidade de um pai. Do Pai.

Estamos todos crescendo, julgando, segregando e determinando o que é socialmente mais interessante.

Em certas épocas ou lugares, a moda varia e o sentido de maturidade varia junto.

Às vezes, é usar um terno e falar complicado.

Às vezes é ter um emprego que pague muito bem ou ter uma empresa de sucesso.

Às vezes, é seguir os próprios sonhos e abdicar de convenções limitantes.

Às vezes, é vestir uma roupa confortável qualquer e ter cara de quem não tem medo dos outros e do mundo.

Às vezes, é se conformar com qualquer coisa dita pela maioria das pessoas. Às vezes é contestar tudo que todo mundo fala. Às vezes, é ter suas próprias ideias. Às vezes, é seguir as ideias dos outros. Às vezes, é mostrar que conhece as ideias deles o bastante para aparentar ser esperto e poder apresentar as suas.

Às vezes, é ter fé. Às vezes, é ser cético.

Às vezes, é parecer sábio. Às vezes, é parecer um imbecil.

Mas às vezes, bem às vezes mesmo, percebemos que grande parte dessas coisas já é uma imbecilidade por si só.

Talvez, só talvez, as capacidades neurológicas, a compreensão moral, a inteligência emocional e relacional de uma pessoa não precisem estar intrinsecamente ligadas ao fato de ela usar moletom ou paletó.

Talvez possamos perceber, pouco a pouco, que as pessoas são tridimensionais, complexas, reais e defeituosas como nós. Talvez possamos abraçá-las mais e xingá-las menos, e entender que o amor não é emoção mutável e desejo covarde, mas escolha corajosa e determinada.

Talvez possamos pensar menos na aparência e mais na essência, não desejando a imagem de sabedoria, que esconde a superficialidade do conhecimento sem causa, e resolvamos ser, de fato, sábios. E o ser sábio requer bravura e compromisso de guardar o propósito das coisas que se ouve e que se diz.

Enquanto a vida passa, corremos atrás de pequenas conquistas que nos fazem acharmo-nos melhores, maiores, mais importantes, esquecendo que, no fim, “tudo é vaidade” (Eclesiastes 1:2).

Talvez possamos parar em mais momentos a corrida incessante da rotina e contemplar a beleza natural de cada dia, de cada labor, de cada ato de compaixão, de cada simples segundo da existência.

Talvez possamos diminuir o volume dos fones de ouvido para escutar a música quase imperceptível da natureza. Distinguir intrincados tons serenos que reverberam a alegria do nascimento, do sono, do acordar, do viver.

Talvez isso explique porque tantos gênios eram, também, igualmente inadequados, insanos até! Não eram maduros. Eram só inteligentes. Talvez essa distinção é que falte clarificar, para que se entenda a diferença gritante entre um pai amoroso que assiste desenho animado e um gênio da física que bate nos filhos.

Talvez, enfim, o vento carregue a cegueira e a imaturidade embora, junto ao tempo que voa sem volta.

É claro que isso não implica nos tornarmos igualmente retardados em relação ao que já somos, abdicando das convenções e jogando fora toda a tradição, em prol de um progressismo narcisista e idealista que prega um “novo sempre melhor que o velho”. Não podemos nos tornar um bando confuso de eremitas despojados, carentes de realidade, ignorando a sociedade por nossos caprichos. Maturidade é também reconhecer as limitações de um povo ferido e as verdades em meio a “desnecessidades”.

Seguir o caminho do meio é, sem dúvida, uma tarefa inglória, se todos os lados são extremos. Mas amadurecer é, por fim, entender que a força não resolve o que o coração não entende e que a guerra mais burra é a violenta, parafraseando os conselhos de batalha de Sun Tzu (sugestão de leitura para saber mais sobre o assunto: A Arte da Guerra).

O mundo não entende o grito. Mesmo assim, ele é uma sinfonia de berros incompreensíveis de dogmatas em negação.

Ideias mudam pessoas, quando pessoas ouvem e pensam sobre ideias; pessoas ouvem ideias, quando conversam; pessoas pensam, quando se esforçam para deixar a inércia. Quão perigosas (e irônicas), portanto, são as ideias que penetraram a mente humana nas últimas décadas! Justamente as da falta de comunicação, da troca do debate pela massagem dos egos, das “conversas” sem diálogo, dos “debates” monológicos, do alinhamento ideológico imutável baseado em fundamentos pouco sólidos! E mais, do fim do pensamento, substituído por telas brilhantes, livros decorativos e bandeiras de uma cor só!

É só dar uma olhada numa rede social: frequentemente, passam fotos e mais fotos de sorrisos sem vida em rostos de pessoas sem alma, acompanhando frases bonitas com conteúdos que nenhum interlocutor compreende muito bem.

Nas mentes, sonhos utópicos no lugar de belas filosofias e isso só se percebe quando a esperança ainda existe.

Os exemplos são muitos para essa que é a pior das barganhas. O verdadeiro e definitivo imaturo, no final, é a criança que se recusa a escutar as outras. Irônicas são as modernas ideias justamente porque o que fazem é o oposto do que uma ideia deve fazer: inflamam a ardente vontade de ignorância. E o pior: fazem-no sutilmente, sem que se perceba.

A batalha do homem moderno é a do retorno à maturidade. Não necessariamente no sentido clássico. Não é a volta do bigodudo de cara fechada, seriedade inviolável e amor por futebol, cerveja e, sei lá, materiais de construção (não que este tenha sido extinto); ou o resgate da dona de casa recatada que cozinha, lava, passa e limpa o dia todo, resignada (não que a felicidade não se possa encontrar no labor caseiro, que vem se perdendo). Não! É o pensar! É chegar mais longe do que nunca se foi e alcançar o que nunca se teve, embora talvez já tenhamos estado em melhor condição.

Num adendo necessário, provavelmente não estivemos muito melhor, já que cada fariseu, cada orgulhoso, cada hipócrita, cada viciado em prazeres, cada ser humano é, no fundo, criança que não cresceu o suficiente e não terminou de aprender a viver. Escolhemos nos limitar a pouco. O pensar e o amadurecer, assim, começam no reconhecimento da criança interior de cada um: primeiro passo ao eterno combate à infantilização do intelecto. Afinal de contas, em resumo, que sejamos puros e amáveis como as crianças, mas deixemos de lado as frescuras e encaremos as responsabilidades de deixar de sê-las por inteiro!

E Renato Russo já alertava: “Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo / São crianças como você / O que você vai ser / Quando você crescer?” (Pais e Filhos – Legião Urbana – 1989).

E as palavras sagradas fazem coro à ideia de que precisamos crescer em espírito, sem deixar a brandura e o encanto da meninez, mas sabendo agir, nas palavras de Cristo, com a prudência da serpente e a simplicidade da pomba (Mateus 10:16). Cessemos, assim, de agir como crianças na mente e na fé, como alertou Paulo (1 Coríntios 3:1-2), mas mantendo o caráter contemplativo e perceptivo dos pequenos que se espantam com tudo e se deslumbram, reconhecendo a grandiosidade das coisas criadas, como faziam os salmistas.

Há um salmo que se encaixa, quase como um quebra-cabeça, nestes três elementos: a glória na natureza, a criança na Palavra e a personalidade inflada do homem que se pensa grande.

“Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos firmaste o teu nome como fortaleza, por causa dos teus adversários, para silenciar o inimigo que busca vingança. 

Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes?” (Salmos 8:2-4).

Quando reconhecemos nossa pequenez, podemos achar o Amor que nos acolhe mesmo nela.

Talvez a maior utopia de todas seja esta: esperar a mudança do homem. Esperar que gerações de crianças barbadas resolvam reconhecer-se falhas o suficiente para se despojarem do orgulho, sem menosprezo, e se desenvolverem em amor e na graça de Deus.

Esse aguardo pode ser infinito, mas é uma das poucas utopias que vale a pena perseguir.

Enquanto esperamos o mundo mudar, seguem, sem parar, duas coisas: o tempo e o vento

daniel marques

Sobre daniel marques

Cristão. Estudante de Direito na Universidade Federal do Ceará. Entusiasta de Direito Natural e Direitos Humanos. Gosta de tudo que é interessante, sejam livros, teologia, música, quadrinhos, basquete ou várias outras coisas que não cabem na descrição. Escreve porque ama.

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