O QUE NOS BASTA PARA VIVER?

Para impedir que eu me exaltasse por causa da grandeza dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás, para me atormentar.
Três vezes roguei ao Senhor que o tirasse de mim.
Mas ele me disse: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim.
Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.
(2 Coríntios 12:7-10, NVI)

Vivemos dias difíceis em que o homem insaciável cada vez mais não se contenta com o que é, com o que tem e com o seu modo de viver. Naturalmente, o ser humano é marcado pela inquietude e pela busca de SER MAIS. Humanos não nascem prontos e acabados como os animais, pois estão em constante processo de inconclusão, por isso precisam do outro para se completar numa rotina diária de hoje querer ser melhor do que ontem em face das imperfeições.

Pautado nesta legítima natureza inacabada do homo sapiens que é racionalidade mas que também é demens, loucura, fantasia e desequilíbrio, o sistema capitalista tem investido fortemente em dizer que quanto mais tivermos, mais seremos felizes e satisfeitos. Entretanto, esse movimento é exatamente o contrário. Parece que quanto mais temos o bastante para viver, menos somos satisfeitos com o alcançado. Quanto mais achamos que a ciência está evoluindo e produzindo tecnologia, menos os processos e as relações humanas estão promovendo a irmandade na vida planetária cotidiana. Neste aspecto, como diria Paulo Freire, tristemente, “ter mais é uma maneira de ser menos”.

Aqui somos picados pelo veneno do orgulho humano. Quanto mais temos materialmente no mundo dos homens, menos somos espiritualmente humanos. A publicidade, as mídias sociais, a televisão, a internet e a indústria musical tem fomentado no homem a “vontade de poder”, como diria Nietzsche (1844-1900). Para este estudioso, o fim último da vida humana é ser o “super-homem”, pois a humildade e o serviço são para os fracos. Diante disso, verificamos sua “alfinetada” no Cristianismo que prega o altruísmo e a abnegação em favor do outro.

Inseridos nesta sociedade alienada de Deus e marcada pela “síndrome da onipotência”, Deus continua a manifestar o seu amor e colocar em nós um freio: a dor. Podemos comparar a vida em processo de aprendizado do homo faber (homem que faz) na sociedade capitalista à uma corrida de fórmula um: temos que correr mais com o mínimo de recursos possíveis para produzirmos em larga escala. Muitas vezes levamos essa correria enlouquecedora de nossas profissões para a vida, para a família e para o serviço a Deus. Somos assolados pela tirania da agenda excessivamente preenchida. Não há tempo para parar, ler, orar e refletir! Alguém disse que não ter tempo para Deus é perda de tempo!

Apesar disso, se continuarmos a “teimar” com Deus e com as limitações do nosso corpo fazendo o que é errado, o Pai tem um remédio para a nossa “demência”: o “espinho na carne”. Imaginemos o que é um espinho na carne. Qual de nós quando estava andando descalço num terreno de piçarra não foi fisgado por um “espinho na carne”? Não importa o tamanho, seja grande ou pequeno, o espinho incomoda a nossa caminhada. Contudo, na vida com Deus, este espinho é um incomodo que leva a instabilidade e a uma nova acomodação. Quando temos um encontro real com Senhor que conhece o nosso ser em sua integralidade, Ele toca as nossas vidas para que sejamos sempre dependentes dEle: “Quando o homem viu que não poderia dominá-lo, tocou na articulação da coxa de Jacó, de forma que lhe deslocou a coxa, enquanto lutavam.” (Gênesis 32:25, NVI).

Se tudo em nossas vidas que estava equilibrado toma o rumo do desequilíbrio é preciso saber que Deus está trabalhando. É hora de “mexer do que está quieto!” O caos gera a ordem. Entretanto, como agir quando tudo parece não dar certo? É bom saber que, se somos filhos de Deus, o caos que vem sobre nós já chega com os dias contados para estabelecer uma nova ordem! Só vai permanecer o necessário e o quanto podemos suportar (1 Coríntios 10:13; João 9:1; Romanos 5:3-5). Assim, podemos confiar que Ele está no controle! Ele é Deus!

Mas entre a alegria do amanhecer e o choro da noite (Salmos 30:5), existe um espaço de tempo a ser preenchido pela oração do coração contrito (Isaías 57:15). Paulo orou três vezes para que Deus lhe tirasse a sua dor! Assim, saibamos que, muitas vezes, o Criador e Sustentador de nossas vidas não irá atender o nosso pedido, mas isso não deve nos levar a cessar a oração. Oramos não para receber o “sim” de Deus, mas para mantermos comunhão com Ele. A prática da oração contínua (1 Tessalonicenses 5:13) faz nossos corações acessarem o sinal do “WIFI celestial” na busca de encontrar a perfeita conexão para uma vida com sentido e significado mesmo em face do sofrimento (Salmos 16:11).

Nesse ínterim entre o presente de tribulações e o futuro de paz, a oração nos conduz a experiência da suficiência da graça de Deus. Tudo o que precisamos para viver é da graça do Pai. O salmista confirma esta verdade quando exclama: “Eu Te louvo, porque sentir o teu amor fiel e constante vale mais que a própria vida” (Salmos 63:3, Bíblia Viva). Louvar a Deus em tempos de dor nos permite sentir seu amor leal e constante. O suprimento da graça de Deus é melhor do que as benesses e ofertas da vida humana terrena oferecidas a nós.

Essa experiência de graça na dor faz com que o poder de Deus se aperfeiçoe em nossa fraqueza. Assim, aprendemos a nos gloriar não só nas vitórias e nas conquistas que tivermos, mas também nas fraquezas com alegria e por amor a Cristo. Não é uma proposta masoquista do Cristianismo aprender a ser alegre na tristeza, ter nada, como se tudo tivesse, sentir-se suprido em face da escassez, vivendo mesmo diante da morte. Ao contrário, quando a graça vem até nós, as contradições da existência humana são minimizadas pelo amor gracioso de Jesus que traz o alívio a nossas dores. Vinde a mim todos o que estão cansados e sobrecarregados e que aliviarei vocês (Mateus 11:28-30). Diante da aceitação dessa dependência de Cristo, o poder de Jesus repousa em nós ao aprendemos que quando somos fracos é aí que somos fortes! Toda prepotência humana é contraditoriamente um grande sinal de fraqueza. Ser forte é reconhecer a fraqueza, e que por isso, é preciso pedir ajuda!

Enfim, o que precisamos para viver? O que nos basta para continuar amanhã na intenção de vislumbrar dias melhores? Por que ainda mantemos a pose do orgulho que não nos deixa reconhecer nossas fraquezas no caráter, na vida conjugal, na criação dos filhos, na relação com a comunidade, na vida profissional, etc. Só é possível SER MAIS se estivermos trilhando os caminhos da humildade e da percepção do outro diferente como extensão de igualdade entre nós! A oração é o caminho da libertação das prisões de nossa alma: “Está aflito alguém entre vós? Ore. Está alguém contente? Cante louvores.” (Tiago 5:13). Oremos não esperando uma resposta positiva, afirmativa ou de espera da ação de Deus. A despeito de que o Senhor atenda ou não nossas orações, saibamos o melhor será feito para nós (Romanos 12:2). A graça de Deus nos basta para viver pois na fraqueza somos fortes porque “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia.” (Salmos 46:1, NVI)

Hamilton Perninck

Sobre Hamilton Perninck

Doutorando em Educação/Formação de Professores (UECE, 2016-). Mestre em Educação/Formação de Professores (UECE, 2015), especialista em formação de professores (UECE, 2010), Licenciado plenamente em Pedagogia (UNG, 2008) e Bacharel em Teologia com concentração em Ministério (SVB, 2003). Professor Pedagogo da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza. Educador Social e Pedagogo na Associação Terapêutica Grão de Mostarda. Membro do UECE/OBEDUC (Observatório da Educação da Universidade Estadual do Ceará).

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