O que Fortaleza já perdeu com a Copa?

torcida brasil - copa da mundo

Não restam dúvidas de que o Brasil é o país do futebol. A hegemonia desse esporte na preferência do povo e no espaço da mídia, justificam o sonho acalentado por décadas de termos novamente a Copa do Mundo no Brasil, ainda mais se pensarmos no desastre que foi o Maracanaço na edição de 1950 quando o Brasil sucumbiu diante dos uruguaios.

Tínhamos na tradição, no público, nas belezas naturais, nas cidades e no talento brasileiro todas as condições de fazermos uma superCopa, projetando definitivamente para o mundo uma boa e digna imagem do nosso povo, nossa tecnologia e nossos recursos naturais.

Contudo, o que colhemos depois das fictícias promessas de sempre foram estádios mal-acabados, superfaturados, propositadamente isolados da miséria e descaso público ao redor, com raríssimas exceções como no caso do nosso Castelão que, embora também isolado do descaso público ao redor, foi muito bem administrado e concluído pelo competente Secretário Especial da Copa, Ferrúcio Feitosa.

Fortaleza perdeu uma grande oportunidade de ganhar as manchetes como a cidade-sede mais bem equipada e preparada para receber os times e turistas neste grande evento, não fosse o descaso com aspectos que afetam a população independentemente da realização de uma Copa do Mundo no seu quintal.

Ao propor um diálogo com a sociedade civil sobre a Copa 2014, no evento da última terça-feira, 06,  realizado no auditório da Assembléia Legislativa, os governos estadual, municipal e federal não contabilizaram os descasos estruturais, os transtornos da mobilidade e a precariedade dos serviços a que somos submetidos todos os dias enquanto cidadãos.

As principais vias de acesso que ligam o Castelão a qualquer outra parte do município, afunilam-se em ruelas apertadas, engarrafadas pelo trânsito caótico e mesmo a BR-116 continua sendo um corredor da morte, pelo seu inexplicável estreitamento na altura do viaduto da Rua Padre Pedro de Alencar. Além disso, em toda a sua extensão a iluminação central e lateral é absurdamente precária.

Alguém já viu na BR-116 os buracos e desníveis pouco depois do Anel Viário indo em direção ao Castelão? Turistas que fizerem a rota Fortaleza – Natal para assistir os jogos ou mesmo conhecer as duas cidades, vão se surpreender com a falta de infraestrutura às margens das Rodovias, exemplificada pelos postos de combustíveis sem qualquer senso de higiene e limpeza em seus banheiros.

As comunidades mais carentes do entorno do Castelão e outras localidades sofrem a falta de saneamento, escolas, postos de saúde e estão loteadas pela indústria do crack, fazendo crianças e famílias reféns do produto maldito que estimula o crime e a dependência.  Além disso, a droga encontrará na Copa uma oportunidade de expansão.

A despeito da seriedade e do esforço do recém-empossado Secretário de Segurança Pública e Defesa Social, Servilho Paiva, não nos preparamos o suficiente e com a antecedência necessária para o que estamos vendo se alastrar a partir das comunidades mais carentes da infraestrutura tão “marquetizada” pelo governo.

Enquanto nos escandalizamos com o que fizeram os radicais islâmicos ao Norte da Nigéria, ameaçando negociar as quase 200 crianças deles reféns, deveríamos nos indignar e agir para coibir o abuso sexual de menores que se intensifica por ocasião da bem vinda e celebrada Copa. Dados e denúncias internacionais parecem não sensibilizar as autoridades que poderiam estar empenhadas em ganhar esse jogo contra o leilão de nossas crianças para residentes e estrangeiros inescrupulosos.

No encontro da Assembleia Legislativa, se nos apresentaram uma simulação do que teremos em poucos dias por ocasião da Copa. Alças conectando ruas e avenidas, VLTs deslizando sobre trilhos paralelos às grandes e largas vias, corredores exclusivos de ônibus e ciclistas, uma apresentação que nos fez sentir numa das intercessões das vias públicas americanas ou europeias, coisa de outro mundo, pois por aqui o que vemos são acessos estreitos, buracos e deformações na pista, passarela precárias sobre nossa principal via de acesso à cidade e, inclusive ao Castelão, e muita obra inacabada como túneis e aquilo que se pretendia fazer no Aeroporto Pinto Martins, coisas que teremos que ocultar com tapumes a pouco mais de um mês do início da Copa.

Fortaleza ganhou um belo estádio, palco de grandes finais e outros espetáculos artísticos, por outro lado perdeu uma grande oportunidade de dar ao seu povo e, por tabela, aos turistas uma cidade mais limpa, menos poluída, mais trafegável, mais segura e menos injusta com aqueles que acreditaram numa utopia chamada COPA.

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Armando Bispo
(bispo@ibc.org.br)

Pastor Titular da Igreja Batista Central de Fortaleza (IBC)

Assessoria IBC

Sobre Assessoria IBC

Jornalista diplomada pela Universidade Federal do Ceará. Produtora, repórter e apresentadora no telejornalismo cearense e potiguar. Atualmente é Assessora de Comunicação da Igreja Batista Central de Fortaleza.

One thought on “O que Fortaleza já perdeu com a Copa?

  1. A verdade é que atingimos um nível tão alto de sujeira e corrupção no Brasil, que o tapete ficou curto para esconder qualquer coisa.
    Nossa esperança é sabermos que embora não pareça, há um Deus que governa, que está no controle e que trabalha por aqueles que Nele esperam. O nosso Deus não é um Deus globalizado, é individualizado, cuida do indivíduo e não das multidões.

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