O Haiti de todos nós

Por Edilson de Holanda*

Foto: Carlos Barria/Reuters

Tragédias como a do Haiti – e do Chile, ocorridas no inicio do ano – nos levam a questionar inúmeros aspectos da existência humana. O que justificaria um tormento de tal monta, a atingir uma população já tão sofrida? Ainda que a catástrofe tenha raízes em ações humanas cumulativas e globais, que culpa têm as crianças feitas órfãs e as mutiladas de tanto sofrimento? Confesso que gostaria de ter alguma palavra capaz de dar lógica e sentido ao drama daquele povo, e assim talvez amenizar sua dor, como parte, quem sabe, de um “propósito maior”. Mas não tenho.

Assim como no Haiti, em alguns momentos nossas vidas particulares são sacudidas por terremotos e invadidas por tsunamis. Só quem passa pela dor da perda de um ente querido, do desmoronamento de um sonho ou de uma úlcera na alma provocada pela traição, por exemplo, sabe do que falo.

Entretanto, desafio você a “desembaçar” a vista, encoberta pela poeira do desastre, para avistar alguns preciosos detalhes que ocorrem justamente embaixo dos escombros de nossa existência: os milagres. Eles estão lá, mesmo que passem ao largo de nossos incrédulos olhos ou simplesmente não os reconheçamos. Milagres são carinhos de Deus para a alma sozinha, são afagos divinos para o coração carente.

Ocorrem milagres apenas onde não há mais possibilidade de ação humana. Você já pensou nisso? Não defendo o acontecimento de hecatombes para que venhamos a aprender o que quer que seja.  Também não acredito que Deus promova o sacrifício da vida de filhos seus para simplesmente ensinar uma lição. Se fosse assim, preferiria não aprender lição alguma e permanecer imune a calamidades.

Mas o fato é que, quando formos surpreendidos com o mal à nossa porta, passíveis disso que somos, devemos aprender a enxergar, junto ao caos, sinais da Graça de Deus que nos alentem e amenizem nosso sofrimento, o que, em última análise, produzirá fé e redundará em glória para Ele. Não o flagelo, mas a sensibilidade de discernir a possibilidade do Seu mover no improvável, exatamente como nos anima sua palavra:

“Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me protegem.” (Salmos 23:4).

O nascimento de uma criança no Haiti, em uma sala de parto improvisada do meio da rua, é uma demonstração da ação divina, apesar da desesperança. Uma frágil vida que desafia a doença, a miséria e as implacáveis estatísticas e probabilidades, na batalha para não morrer. A vida nascendo e desafiando a morte. Um parto em meio a cadáveres. Tal qual o arco-íris, que simbolizou o pacto de Deus para a não-destruição da humanidade através de águas, o nascimento de uma criança em um hospital de campanha é um sinal de que Seu amor nos é presente.

A dor deve ser vivida, mas devemos nos permitir sentir ser agraciados pelas indizíveis manifestações de carinho celeste sob as ruínas de nossa alma. Afinal, por sobre os entulhos do Haiti surgiram voluntários de todos os continentes para doarem parte de seu tempo a pessoas desconhecidas, missionários que foram enviados com o pão e a Palavra consoladora de Cristo, médicos abnegados, soldados altruístas e tantos doadores de víveres e intercessores do mundo inteiro.

Também conosco, se a moléstia chegar, que então traga consigo o surgimento de novas amizades, o aperfeiçoamento de virtudes, a correção de falhas de caráter e a oportunidade de recomeços, inclusive sob o reconhecimento de nossa total dependência de Deus.

Por vezes é impossível fugir à dor da tragédia, mas é possível viver intensamente os milagres em meio ao infortúnio.

* Advogado e “quase-sociólogo”.  Membro da Igreja Batista Central de Fortaleza desde 2007 e voluntário no Ministério Palavra Amiga.

Assessoria IBC

Sobre Assessoria IBC

Jornalista diplomada pela Universidade Federal do Ceará. Produtora, repórter e apresentadora no telejornalismo cearense e potiguar. Atualmente é Assessora de Comunicação da Igreja Batista Central de Fortaleza.

2 thoughts on “O Haiti de todos nós

  1. Olá…

    No final não entendo bem quem escreveu o texto. Porém de qualquer forma o texto está muito bom.

    Principalmente quando acontecem grandes catástrofes, seja de escalas internacionais (atentados do 11 de setembro), nacionais (como o caso do Rio) ou até de nosso cotidiano (como vitimas da violência, mortes prematuras etc…) sempre vêm a mente aquela perguntazinha: “Onde estava Deus?”

    Essa pergunta me marcou mais ainda quando aquela linda garotinha Alanis foi brutalmente assassinada. Os pais eram cristãos. E lembro claramente uma amiga da minha mãe entrando em casa soltando chamas pelos olhos e me perguntando (como se eu fosse advogado de Deus): “cadê??? cadê esse Deus que deixa uma barbaridade dessas acontecer com essa garotinha????”

    Na hora, por ter sido pego de surpresa, não tive resposta. Fiquei calado e deixei ela desabafar… Mas essa pergunta me custou uma noite de sono.

    Ao raiar da alvorada, fechei meus olhos e ameacei uma oração… Mas palavras não saíram.. Acho que eu mesmo não queria ir ao que interessa e perguntar a Ele a mesma coisa que a distinta senhora me perguntou…

    Mas mesmo assim, num sei se Deus ou a inspiração de uma alvorada linda após uma madrugada turbulenta, as coisas parecem que se acalmaram dentro de mim e só me veio ao coração uma frase sussurrada, leve como uma brisa, que dizia: “Certamente não no coração daquele assassino. Isso lhe asseguro…”

    Onde estava Deus na tragédia do Haiti?

    Certamente no coração de muita gente que atravessou o mundo para levar socorro aquela gente já a muito tempo andava sofrida…

    Aliás, antes do terremoto já tinha, não só no Haiti, mas nos lugares mais obscuros do mundo… Que Deus abençoe e continue inspirando os milhares de voluntários de todas as áreas profissionais que estão aí, sem esperar nada em troca, usando seus dons pelo bem do próximo…

    Isso é divulgado? Óbvio que não… Aliás, a mídia já tem vários ex-BBB’s e astros pop’s excêntricos para ocupar sua atenção…

    George Facundo

  2. Certamente, irmão, a tragédia “dá mais ibope” que os milagres da solidariedade e do compartilhar. Mas de tanto insistirmos em cumprir o papel de Igreja (orar e agir), a tendência é que a realidade ao nosso redor mude.

    Graça e paz…

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