LEMBRANÇAS DE UM TEMPO QUE NÃO VIVI

Pela relevância da obra e pelo conteúdo – por vezes tido como “indecifrável”, o mais relevante poeta-músico brasileiro.

Muitos cantam como poeta. Muitos compõem como poeta. Mas poucos, como Belchior cantaram, compuseram, viveram e morreram como poeta.

Abaixo um texto que escrevi em 2007 sobre ele.

LEMBRANÇAS DE UM TEMPO QUE NÃO VIVI

Assisti a um show de Belchior, cantor e compositor cearense, cujo auge da carreira se deu nas décadas de setenta e oitenta passadas. Não obstante a distância temporal que nos separa daqueles dias (tempos áureos e, ao mesmo tempo tenebrosos da vida política brasileira), deparei-me, na Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará, com uma multidão. Jovens como eu, de “vinte e poucos anos” (que clichê!), urbanos, sobreviventes da miséria social a que estamos entregues e reféns da pobreza musical galopante desde os anos noventa [… … …] Mas o que fazia eu na apresentação de um cantor de aparência nada condizente com o padrão global, cuja ritmação musical foge às baladas repetitivas e monossilábicas que ouvimos por imposição dos motoristas de ônibus e alternativos de minha capital, e cujas letras nem mesmo meus pais sabem dominam, por serem talvez desconformes, estranhas? Que força tem essa música, capaz de atrair imberbes expectadores, conhecedores do tempo nela retratado apenas em razão dos livros de História?

Conheci Belchior através de uma velha fita cassete jogada fora por um dos moradores do prédio onde moro. Sorte minha era ainda possuir um “som três em um”! Encontrei-a como em meio a escombros de um tempo passado, presente, vivido, entre o sonho e o som. A razão de meu encantamento imediato com o poeta foi a fiel retratação de uma época que não vivi, em que não era sequer um projeto na mente de meus pais, mais pela qual me apaixonei.

Não que deseje que sobre nós se agigante uma nova ditadura, muito menos militar. Nem me comprometo nessas linhas com um ou outro movimento social organizado. Mas há algo naquelas décadas que não encontro hoje em minha geração. É essa ausência, amigo, a razão da superlotação daquele anfiteatro. Um incômodo velado que sentimos e que não sabemos expressar, sobre essa coisa sem jeito que eu trago no peito, e que eu acho tão bom.

Os ativistas que se opuseram à ditadura, assim o fizeram porque foram cerceados em suas liberdades pelo duro regime, e assim tinham pelo que lutar, contra quem lutar. Pulsava em seus peitos o ímpeto de mudança. E nós? O muro caiu em Berlim e Marx tornou-se progressivamente uma utopia para uma sociedade global vocacionada para o Capital. Quanto a Lula, esperança reluzente de nosso horizonte político, tornou-se uma realidade. Dura, cruel e “pleonasmicamente” real. Pontuo aqui que esta é uma análise que, por óbvio, não pretende exaurir os ricos detalhes da História recente.

Somos livres hoje para expressar nossos gemidos sociais, conquistamos (ou conquistaram para nós) a Constituição Cidadã da liberdade e o sinal não está mais fechado pra nós, que somos jovens. Mas não falamos, não pensamos, não sabemos pelo que lutar, não demonstramos forças ao menos para contraditar e agora que o sinal abriu, não sabemos por onde guiar o bonde da história. Eu sei, “poeta de bigode”, que não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia nem no algo mais, nem em tinta pro meu rosto, oba-oba ou belo dia pra acompanhar bocejos, sonhos matinais. Você mesmo repetiu que amar e mudar as coisas me interessa mais. Mas a multidão, do Anfiteatro da Universidade e da Concha Acústica da Vida, sabe que nossos ídolos ainda são os mesmos, que ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. E faz coro: “mudar o quê, amar o quê?”.

O alerta, se estivermos atentos, já foi dado pelo Mestre Supremo: “nos últimos dias, o amor de muitos esfriará”. Pondero: não comparo esta época àquela de forma maniqueísta. Mas, ainda que perturbado pela razão cartesiana, confesso ter saudades. Tenho saudades de um tempo inocente, quando havia galos, noites e quintais, em que havia um desespero era que era moda em setenta e três. Tenho saudade da época em que ainda acreditávamos ser o país do futuro. O futuro chegou e o Brasil parece obsoleto. Olhamos para o passado, em busca da beira do caminho no qual caímos. Talvez por um esforço hercúleo nos encontremos em alguma estrada empoeirada e esburacada. E nos veremos pobres, cegos, nus e à espera de que a última pérola da coroa de D. Pedro seja vendida.

Ver-nos-emos miseráveis e lazarentos, mas eufóricos, como festeja a grande mídia e nossa cúpula política. Afinal, neste final de semana assistiremos às finais de vários campeonatos. E queremos saber se o Roger está ou não de namoro firme com a Débora Secco. Que anestesia! Aplicada em nós de forma que esquecemos que país é este.

Mas não continuemos a divagar desta maneira em busca de uma solução “sociológica”. Nosso último presidente era um respeitado sociólogo, mas dizem que ele deu a dica: “esqueçam tudo o que eu escrevi”. Já o atual, como não escreveu lá muita coisa até hoje (não me diga que ele foi um renomado constituinte), não me surpreenderá se qualquer dia desses bradar: “esqueçam tudo o que eu falei”. Meu Deus, os dois são figuras ilustres dos tempos de Belchior! Muito de escreveu à época de Belchior. Muito se lutou à época de Belchior. Tenho saudades daquele tempo. E fico por aqui. Vida, vento, vela, leva-me daqui.

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