Inversão de lógicas

Por Deive Ulhôa

Nada mais poético e profundo do que o conteúdo de algumas letras de forró e funk que ouvimos no rádio, nas ruas, na TV e que parecem grudar como chiclete nas nossas cabeças. Fico inebriada com tamanha sutileza dos versos, estrofes, rimas etc. Quão talentosos compositores e intérpretes! Chego a me emocionar pensando na sublimação dessas canções. E os duplos sentidos?! Que nada, isso é coisa do passado! Tudo agora é escancarado, sem meias palavras, uma aula de gênero e sexualidade às avessas. Um verdadeiro marco na história da música! Mas antes que me venham acusar de preconceituosa e contrário ao gosto popular, deixem-me prosseguir nos meus pensamentos.

Há alguns meses fui a uma festa de formatura de oitava série, repleta, e não poderia ser diferente, de muitos adolescentes sorridentes, dispostos a comemorar e se divertir. Até então, tudo normal, até que a música começou a tocar. Imaginem a cena. Meninas de classe média e bem educadas dançando em posições insinuantes e cantando em alto e bom som um repertório seleto de frases depreciativas e obscenas. Do outro lado, os meninos apreciando a performance e vibrando com os movimentos quase acrobáticos das colegas. Quanto aos pais e educadores, expressões que variavam entre a normalidade e a perplexidade. Essa situação é apenas um exemplo, um recorte da banalização da sexualidade nos dias de hoje.

Falamos de feminismo, emancipação, valorização da mulher, mas somos nós mesmas que cantarolamos músicas que depreciam a nossa condição. E não digam que eu estou exagerando, pois basta  prestar atenção em duas ou três destas canções para concluir o óbvio. Somos achincalhadas, denegridas, menosprezadas, ultrajadas, humilhadas e concordamos em reproduzir essa lógica. E as mulheres frutas? Coisificando e mercantilizando seus próprios corpos, dão a sua parcela de contribuição na estigmatização do feminino. Retrocedemos sem perceber porque achamos que é apenas uma brincadeira, uma letra despretensiosa, mas na verdade não é bem assim, existe todo um processo histórico por trás dessas, digamos, “manifestações populares”. Sem nos darmos conta, nossas crianças e adolescentes vão sendo erotizadas e aculturadas conforme padrões preconceituosos.

Mas quem começou com essa história de preconceito aí? Alguns dizem que foi a Bíblia quando trata da submissão das mulheres. Neste momento, caros leitores, preciso confessar que sinto uma vontade quase incontrolável de gargalhar. “A Bíblia é preconceituosa”. Essa é boa! Vulgarizamos o sexo e a mulher ao mesmo tempo que inflamamos discursos pós-modernos;  distorcemos o sentido do texto bíblico, desconhecendo a posição e o valor da mulher e do homem dentro dos planos de Deus e, ainda assim, conseguimos achar a origem de todos os males. Pensando sobre o assunto, não consigo concluir nada mais que uma total e completa inversão de lógicas. Basta ser razoável para perceber…

2 thoughts on “Inversão de lógicas

  1. Que texto! Valeu Deive, não pela realidade descrita, mas pela inteligente antecipação dos que vão levantar a bandeira do “caça preconceito”. Uma mulher de fé, esposa, mãe, profissional e precisa coloca luz no canto escuro da incoerência pós-moderna.
    Vale divulgação senhores redatores.
    Paz

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