EDUCAÇÃO, CRISTIANISMO E ÉTICA: REFLEXÕES EM TORNO DO MOMENTO POLÍTICO BRASILEIRO

Ó DEUS, AJUDA o rei a governar com a tua justiça. Ajuda o filho do rei a andar em santidade. Ajuda o rei a governar o teu povo com justiça, tratando ricos e pobres da mesma maneira. As montanhas e morros darão muitos frutos e o povo viverá em paz, por causa do governo justo do rei. Ele fará justiça aos aflitos e ajudará as famílias pobres; mas castigará o ladrão e explorador dos fracos. […] Isso acontecerá porque ele ajudará quem precisar de ajuda, ao pobre, ao fraco e a quem não tiver recursos. Com amor, ele se interessa pelos fracos e necessitados; ele salva os que não têm mais esperança de salvação (Salmos 72. 1-4; 12-13, Bíblia Viva, 1983)

Uma sociedade sem tradições, mitos e ritos é um povo sem história, sem marcas, sem identidade. Pensando o início da constituição do povo brasileiro, percebemos que somos frutos de uma “mistura racial” de brancos, negros e índios. Entretanto, temos ainda a realidade de um povo jovem que tem pouco mais de meio milênio de história. Estamos “engatinhando” na formação da nação tendo em vista a construção de nossa brasilidade humanizadora.

Um povo sem educação para a criticidade que permite o exercício da democracia e da participação política não consegue se perceber como sujeito de direitos quando estes lhes estão sendo negados e/ou não alargados de forma humana. O educador brasileiro Paulo Freire, Patrono da Educação brasileira, alertou-nos em seu livro Educação e atualidade brasileira no final dos anos 1950, que, nosso país vive uma contradição política: de um lado, fomos chamados a viver a democracia; de outro, nunca tivemos uma experiência democrática em nosso povo. Nossa educação de influência jesuíta nos seus primeiros momentos, propõe a formação para a obediência à Coroa portuguesa em nome da religião que alienou nossa brasilidade. Dessa forma, não tivemos elementos formativos para questionar a corrupção que levou nossas riquezas e a nossa identidade brasileira desde o início.

Partindo de uma compreensão equivocada do Cristianismo, um povo que vive a religião meramente institucionalizada, coloca Deus numa catedral, mas não consegue aproximá-lo do cotidiano. Jesus propõe uma espiritualidade que rompe com a separação razão-emoção, todo-parte, santo-profano, Deus-diabo, sacerdote-leigo, santuário-casa, religião-ética e temporalidade-eternidade. O cristianismo autêntico é a expressão do amor a Deus e ao próximo de tal forma que a fé é traduzida em ações ao outro como extensão de nós mesmos. O primeiro mandamento é…e o segundo semelhante a esse, é…

Longe da tentativa de estabelecer relações de dependência verticais entre a Igreja e o Estado, a fé e a política, a Bíblia nos dá orientações seguras de como agir frente ao momento político brasileiro. O texto do Salmo 72 citado acima traz elementos para esta discussão de maneira muito prática.

Em primeiro lugar, é necessário a dependência de Deus para o exercício de um governo ético (72:1). Partindo da compreensão de um estado dito “laico”, é preciso que em meio às divergências e/ou convergências, refletir que feliz é a nação cujo Deus é o Senhor! Quando o governante pauta o seu trabalho no temor a Deus (Provérbios 1:7; 9:10) a nação é afetada pela moral e pelos bons costumes. Para além do fundamentalismo religioso que segrega e/ou vive a fé religiosa que levanta a bandeira da ética sem moral para fazê-lo, podemos perceber que os países de primeiro mundo que abalizam seu governo em princípios teóricos e práticos da Palavra de Deus, estão em crescimento.

Em segundo lugar, vemos a necessidade do trato de justiça e de igualdade entre ricos e pobres (72: 2). No Brasil, parece-nos que a justiça funciona apenas para aqueles que tem maior poder aquisitivo. Os pobres ficam quase sempre a margem dos serviços públicos de qualidade, dentre eles: saúde, educação, segurança, moradia, lazer, etc. Os escândalos da política que estamos assistindo revelam o porquê faltam médicos nos postos de saúde; não temos escolas e ensino de alto nível na educação básica e/ou superior; não há sensação de segurança em nossas ruas, salários de servidores públicos achatados e/ou atrasados, altos impostos que impedem as empresas de melhor contribuírem para o desenvolvimento social, etc. O dinheiro que era para chegar na ponta aos necessitados quase sempre é interceptado por aqueles que usam seus cargos públicos como meio de enriquecimento ilícito.

Em terceiro lugar, tais princípios divinos aplicados à vida pública fomentam o equilíbrio da natureza e da paz entre as pessoas (72:3). Qual a razão das lutas pelo poder em nosso país? Por que os escândalos do Mensalão e do Petrolão? Quais os motivos e/ou impactos da violência, das drogas e do crime organizado em nosso país? Falta-nos a reflexão de que a paz e o equilíbrio social não se materializam longe da justiça.

Por fim, o resultado dessa maneira de viver dos governantes e do povo será a equalização das riquezas na vida social e o cuidado com os mais necessitados (72:12-13). Não estamos falando aqui de políticas públicas meramente assistencialistas, mas de caminhos em que o Estado e a sociedade civil organizada fomentem o serviço e/ou ação social que modificam a estrutura de um país. Um Estado que propõe políticas sociais que dão o peixe ao invés de ensinar a pescar não está preocupado com a transformação e a libertação de uma sociedade, mas com a manutenção que aliena e escraviza às pessoas.

A transformação de uma nação passa pelo tratamento do “pobre”, do “fraco”, do “necessitado”, dos que “quem não tiver recursos” ou de quem “não tem esperança” (72:12) da mesma forma que estão sendo tratados os ricos e abastados neste país. Não estamos falando aquilo do Cristianismo medieval das Cruzadas, da Inquisição e/ou das vendas das indulgencias. Essa matou em nome da religião institucionalizada. Acreditamos que o Cristianismo verdadeiro que se materializa no amor ao próximo na prática é um caminho para a constituição de políticas públicas que busquem aproximar a distância entre ricos e pobres. Este trouxe a possibilidade de viver amorosamente em comunidade ajudando uns aos outros de forma altruísta. O amor cobre multidão de pecados…Educação, cristianismo e ética! Justiça social! É possível!

Hamilton Perninck

Sobre Hamilton Perninck

Doutorando em Educação/Formação de Professores (UECE, 2016-). Mestre em Educação/Formação de Professores (UECE, 2015), especialista em formação de professores (UECE, 2010), Licenciado plenamente em Pedagogia (UNG, 2008) e Bacharel em Teologia com concentração em Ministério (SVB, 2003). Professor Pedagogo da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza. Educador Social e Pedagogo na Associação Terapêutica Grão de Mostarda. Membro do UECE/OBEDUC (Observatório da Educação da Universidade Estadual do Ceará).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *