E LÁ SE VAI MAIS UM DIA…

[…]
Porque se chamava homem
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases
lacrimogênios
Ficam calmos, calmos, calmos
E lá se vai mais um dia
(Flávio Venturini)

Final de tarde, começo de noite. Termina o expediente de um dia de trabalho. Bate aquela sensação de dever cumprido e realização, particularmente, quando se faz aquilo que se gosta – esse é o meu caso. Sou um professor que entende a docência como a proto-profissão e a educação como a base da sociedade.

Ao chegar em casa, uma pequena pausa para reflexão do dia. Isso porque não consigo conceber a vida humana apenas como uma peça no funcionamento da engrenagem do sistema capitalista. Não sou uma coisa, sou gente! Gente pensa, sente, chora, sorri, ganha, perde, fica feliz, experimenta a tristeza. Noto que a existência pauta-se no movimento e não na cristalização. A vida é movimento, pois a partir do momento em que paro de existir densamente, estou aos poucos morrendo.

Para mim, a pausa durante o dia é repouso ativo e não passivo. Refletir é sair de mim para pensar sobre e em mim. Essa parada é necessária pois viver freneticamente no ativismo irreflexivo é caminhar para a morte, seja ela processual ou um momento letal. Parar um pouco no cotidiano é ao mesmo tempo continuar caminhando para dentro de mim. Isso é fundamental para meu equilíbrio integral.

Essas reflexões todos os dias vem ao meu coração e me fazem entender que como ser de incompletude, os sonhos impulsionam a minha vida a cada dia. Meu cotidiano faz sentido à medida que entendo que preciso de um sonho pelo qual possa morrer, pois só assim, tenho motivos reais para viver.

Sou uma pessoa muito observadora. Parado no sinal de trânsito, andando pelo shopping, almoçando em um restaurante, no fila do banco, e/ou em qualquer outro lugar, fico pensando: “o que move o meu viver?” A resposta que vem aos meus pensamentos é: “quem deixa de sonhar, deixa de ser humano, animaliza-se.” O sonho, a utopia, a busca pelo devir é a mola propulsora da vida humana.

Ser humano é ter sonhos. Meu sonho maior é ver um mundo melhor, no qual meus filhos possam ter condições de se humanizar. Apesar dessa utopia, sei que não posso mudar o mundo, mas creio que posso mudar o meu mundo. A sociedade não muda se eu como pessoa não mudo. É algo de dentro para fora. Da individuação para a socialização. Entretanto, o processo de socialização interfere na individuação. Sou pessoa porque estou em sociedade.

Por isso, sonhos não envelhecem. Minha idade existencial não é do mesmo tamanho de minha idade cronológica. A existencialidade que experimento é do tamanho dos sonhos que não envelhecem em mim. A maneira de não envelhecer é constantemente sonhar. Como diria J. Quest, acredito que “vivemos esperando / O dia em que seremos melhores / Melhores no amor / melhores na dor / melhores em tudo”. Como eu disse, apesar da necessidade da luta por melhores condições de vida em sociedade, acredito que o ser humano não tem a solução em si, precisa sair de si em busca da transcendência. Não uma transcendência impessoal, uma força, uma ideia, mas uma Pessoa que se chama Jesus Cristo: o caminho, a verdade e a vida (João 14:6).

Sonhos ficam calmos e me deixam calmos. Para além da perenidade, os sonhos ajudam a manter a serenidade da razão e da emoção. À semelhança de uma bússola, apontam para o norte de minha caminhada. Em meio às turbulências do dia, das demandas do trabalho, da crise da sociedade, das lutas dos homens em torno do poder, das intrigas, das incoerências, de tanta maldade do homem que se desumaniza a cada dia, ao final de cada dia, penso: “meu sonho de me encontrar comigo mesmo em Deus (Jeremias 29:13), à medida que me encontro no/com o outro diferente de mim”, faz-me vencer hoje.

E lá se vai mais um dia. Vai-se mais vinte e quatro horas que o Criador me deu como presente no presente. As preocupações de ontem e as ansiedades pelo amanhã precisam dar espaço às possibilidades do HOJE. O ontem é história, serve para que eu analise e não cometa os erros do passado de novo no presente. O amanhã é esperança, porvir., desenho, projeção… Contudo, é possível pensar que o futuro se plasma no presente tendo o passado como referência. Resta-me, hoje, agradecer pelo sol que se pôs e pela lua que anuncia o fechamento do ciclo do movimento de rotação. Sem linguagem nem fala, um dia faz declaração a outro dia… Só por hoje procuro estar contente e ser feliz (Mateus 6:34).

Em meio a escuridão da noite, brilham as estrelas que me impulsionam a agradecer pelo fôlego soprado em minhas narinas  mais um dia. Momento hoje de cuidar, conhecer, partilhar, querer bem, amar, chorrar, alegrar-me, ousar fazer o que ainda não fiz. Sonhar e continuar sonhando. Costurar com minha vida, profissão, e talentos os fios que podem constituir um novo tecido social através do amor de Jesus que se manifesta naquilo que sou e faço.

Hamilton Perninck

Sobre Hamilton Perninck

Doutorando em Educação/Formação de Professores (UECE, 2016-). Mestre em Educação/Formação de Professores (UECE, 2015), especialista em formação de professores (UECE, 2010), Licenciado plenamente em Pedagogia (UNG, 2008) e Bacharel em Teologia com concentração em Ministério (SVB, 2003). Professor Pedagogo da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza. Educador Social e Pedagogo na Associação Terapêutica Grão de Mostarda. Membro do UECE/OBEDUC (Observatório da Educação da Universidade Estadual do Ceará).

2 thoughts on “E LÁ SE VAI MAIS UM DIA…

  1. Texto lindo. Poesia, sensibilidade, musicalidade , espiritualidade e boniteza. Esse texto inundou meu ser de , regou meus sonhos e alimentou o espírito. Gratidão pela construção e partilha. Namastê! ….”Os sonhos não envelhecem…”

  2. Texto lindo. Poesia, sensibilidade, musicalidade , espiritualidade e boniteza. Esse texto inundou meu ser, regou meus sonhos e alimentou o espírito. Gratidão pela construção e partilha. Namastê! ….”Os sonhos não envelhecem…”

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