“DEUS NÃO HABITA EM TEMPLOS FEITOS POR MÃOS DE HOMENS”: RECUPERANDO A SIMPLICIDADE DO EVANGELHO E ABANDONANDO O CULTO À ESTRUTURA RELIGIOSA

Deus não habita mais em templos feitos por mãos de homens.
Deus não será jamais enclausurado nas paredes de uma religião.
(João Alexandre)

Para além do ateísmo da sociedade em que vivemos, a ciência reconhece que o homem é um ser religioso. Entendemos que a religião é a busca pelo religare, ou seja, o religamento daquilo que outrora foi desligado em algum momento da história humana. Dessa forma, diante da harmonia proposta pelo Criador, a autossuficiência buscou promover a divinização do homem estabelecendo o caos do desligamento, “pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3:23).

A partir dessa desconexão com o Sagrado, a história das civilizações apresenta a odisseia humana e a tentativa de dar respostas à revelação deixada pelo Senhor na natureza: “Deus fez isso para que os homens o buscassem e talvez, tateando, pudessem encontrá-lo, embora não esteja longe de cada um de nós” (Atos 14:27). Na busca pelo reencontro com o Criador, o culto, a religiosidade fez com que os meios se transformassem em fim, o lugar se tornou mais sagrado que o encontro, o sacerdote se elevou acima dAquele que o instituiu, e a agenda enclausurou Deus dentro de um cristianismo triunfalista, instrumental e demagogo. Triunfalista pois o cristão é chamado apenas a vencer. A derrota é sinônimo de falta de fé. Instrumental porque Deus é apenas um meio para alcançar a benção desejada. Demagogo pois muitos líderes e/ou grupos evangélicos usam a fé ingênua do povo para manipular e para construir seus impérios de poder aqui na terra.

Neste sentido, em primeiro lugar o cristianismo de hoje se tornou plástico, superficial e místico na igreja em que vivemos. Comumente dizemos: “vamos à igreja adorar a Deus”, mas na verdade isso é um grande equívoco. Não vamos à igreja, somos a igreja. Não vamos adorar a Deus, nós somos o templo vivo do Senhor (1 Coríntios 3:16). Nossa vida integral deveria ser o nosso culto inteligente a Deus (Romanos 12:2). Estevão relembrando a instituição do templo de Salomão afirmou: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor do céu e da terra, e não habita em santuários feitos por mãos humanas. Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas” (Atos 17:24,25). Uma concepção de um Deus que mora em lugar reduz a divindade do Criador ao nível de manipulação da criatura. Isso faz com que a fé se torne plástica, artificial e mística. Não é possível criar o ambiente artificial para Deus atuar através de nossa música, sacrifícios, ofertas, ou qualquer tipo de frenesi religioso. Não podemos chamar a sua atenção, é Ele quem voluntariamente decide se revelar a nós por graça: “pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou” (Romanos 1:19).

Em segundo lugar, tal cristianismo que enclausura Deus dentro de um sistema humano estabelece o culto a estrutura religiosa, e isso é idolatria. Quando a divindade é reduzida ao nível humano, a ênfase na regeneração do coração que muda o caráter fica em segundo plano. Na verdade, falar de mudança de dentro para fora não é algo que lote um auditório pois nos tira da zona de conforto em que alimentamos nossos “pecados de estimação”. Um caminho mais fácil é fazer da igreja uma empresa, do pastor um estrategista e animador de palco, do evangelho uma mensagem de autoajuda para o progresso financeiro e da vida cristã um caminho para o alcance de bênçãos materiais. Interessante pensar que, essa visão do cristianismo triunfalista é uma inversão dos valores do Reino de Deus. Assim, os líderes evangélicos têm convocado o povo para a construção de megas templos, promovido grandes campanhas/cruzadas, extraordinários desafios de fé e ofertas de sacrifícios financeiros. Tudo isso tem gerado frustração, aversão e alienação nas pessoas para que não se aproximem do evangelho de Jesus. Viver a fé cristã não é buscar coisas grandes de Deus, mas percebermos que Ele é grande nas pequenas coisas do cotidiano. Ser cheio do espírito não é ter mais do Espírito, mas o Espírito ter mais de nós, diria Millard Erickson, teólogo evangélico (Gálatas 5:22). Tudo que troca a glória de Deus pela glória humana é idolatria (Colossenses 3:5). Isso é a síndrome do Éden que ainda paira sobre o coração do homem até os dias de hoje: “…e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal” (Gênesis 3:5).

Em último lugar, somos chamados para retornarmos à simplicidade do evangelho de Jesus. Esse não é um convite à divinização do humano mas sim a sua humanização através do divino. O evangelho verdadeiro é Deus morando em pessoas e não em lugares (João 1:18; 4:24; 1 Coríntios 3:6). A estrutura religiosa é meio e não fim. O cristianismo não deve se ancorar numa fé triunfalista que faz os crentes levitarem como se fossem “anjos glorificados” que estão vivendo o céu na terra. O Reino de Deus chegou até nós quando nos arrependemos e cremos em Cristo para a restauração de nossas vidas (Marcos 1:15). Contudo, a dor, as doenças, as lutas, o desemprego, a fome, as guerras, a luta pelo poder e os problemas/conflitos familiares ainda estão presentes em nossas vidas. A grande questão é que em Jesus temos nova vida (2 Coríntios 5:17). Essa nova existência não faz do cristão em nada diferente das outras pessoas, mas o ajuda a enxergar a vida com outro prisma. O alvo de Deus não é a construção de grandes templos, mas a experiência de edificar o templo do Espírito em nós. A igreja de Jesus não é uma agência de promoção triunfalista do “grande homem de Deus” mas um lugar seguro onde podemos dividir nossas dores e multiplicar nossas alegrias como pessoas falhas em processo de restauração. Somos humanos e vivemos num mundo humano!

Em conclusão, Deus está chamando cada um de nós para usarmos a estrutura e amarmos as pessoas não o contrário. O Pai não pode ser enclausurado nas paredes de nosso coração que deseja o endeusamento do eu ao invés da glória de Deus. O Senhor não pode ser contido em nossa míope visão dEle. Não podemos continuar esperando o sobrenatural de Deus acontecer quando não percebemos que tal sobrenaturalidade da vida está na naturalidade das coisas criadas, da história e do cotidiano. O extraordinário de Deus é o ordinário que não conseguimos ver na beleza do lírio do campo nem ouvir no canto dos pássaros que celebram a Deus pelo alimento diário. Isso é milagre! Aqui está a verdadeira fé e a simplicidade do evangelho que é o poder de Deus para a salvação (Romanos 1:16-17). Esse cristianismo nos ensina que vencer na fé é também a aprender a perder na vida! Seja na conquista por uma graça de divina e/ou num leito de dor, precisamos saber que tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus e estão sendo formados segundo o caráter de Cristo (Romanos 8:28-29).

Assim diz o Senhor: ‘O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés. Que espécie de casa vocês me edificarão? É este o meu lugar de descanso? Não foram as minhas mãos que fizeram todas essas coisas, e por isso vieram a existir?’, pergunta o Senhor. ‘A este eu estimo: ao humilde e contrito de espírito, que treme diante da minha palavra’ (Isaías 66:1,2)

Hamilton Perninck

Sobre Hamilton Perninck

Doutorando em Educação/Formação de Professores (UECE, 2016-). Mestre em Educação/Formação de Professores (UECE, 2015), especialista em formação de professores (UECE, 2010), Licenciado plenamente em Pedagogia (UNG, 2008) e Bacharel em Teologia com concentração em Ministério (SVB, 2003). Professor Pedagogo da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza. Educador Social e Pedagogo na Associação Terapêutica Grão de Mostarda. Membro do UECE/OBEDUC (Observatório da Educação da Universidade Estadual do Ceará).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *