As bem-aventuranças no meu cotidiano

Em Mateus capítulo 5, há um dos maiores sermões de Cristo. Talvez um dos
mais conhecidos em todo o mundo. Mesmo pessoas que não se identificam com o
Cristianismo, identificam-se com o sermão e tentam, em algum momento de suas
vidas, colocá-lo em prática. Grandes homens da História, como Gandi e Luther King,
fizeram grande revoluções na sociedade por influência desse sermão.
Gandi fez uma revolução na Índia, sem armas, tendo como base o Sermão do
Monte. O dar a outra face era seu lema e isto levou a Índia a ter sua independência da
Inglaterra.
Luther King lutou contra a segregação racial, sem armas, mas no poder da
prática da resistência e da coragem que esse sermão tem.
Mas, o que, de fato, há de tão especial nesse sermão? Talvez muitos se
perguntam e, na busca pela resposta, acabam se defrontando e sendo confrontados
com palavras poderosas e práticas.

Jesus fala a uma grande multidão e começa seu grande sermão:

Felizes os pobres de espírito, pois o reino dos céus lhes pertence.
Felizes os que choram, pois serão consolados.
Felizes os humildes, pois herdarão a terra.
Felizes os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados.
Felizes os misericordiosos, pois serão tratados com misericórdia.
Felizes os que têm coração puro, pois verão a Deus.
Felizes os que promovem a paz, pois serão chamados filhos de Deus.
Felizes os perseguidos por causa da justiça, pois o reino dos céus lhes pertence.
Felizes são vocês quando, por minha causa, sofrerem zombaria e perseguição, e
quando outros mentindo, disserem todo tipo de maldade a seu respeito.
Alegrem-se e exultem, porque uma grande recompensa os espera no céu.
E lembrem- se de que os antigos profetas foram perseguidos da mesma forma.
(Mateus 5: 3-12 versão Transformadora)

É interessante ouvir esta palavra feliz. Em outras versões, bem-aventurados. A
palavra que tem o sentido mais aproximado e costumamos usar talvez seja sortudo.
Você sabe o que é um cara sortudo? Pense naquele vizinho que ganhou uma
“nota”, na loteria! Ou, ainda, você descobriu que seu pai era um grande homem de
negócios, está à beira da morte e buscou você para lhe repassar a herança, pois
acredita que você é filho dele! Ou, quem sabe, aquele cara que foi resgatado de um
naufrágio, com vida, três dias depois de o barco ter afundado! Quem sabe, aquele
camarada que achou na rua uma bolsa cheia de dinheiro! Tudo isso, talvez, soe
familiar quando pensamos em alguém sortudo.
Talvez Gandhi e King não pensassem assim. Suas revoluções lhes causaram
grandes transtornos e muita dor. Como poderiam se ver como sortudos ou bem-
aventurados diante das circunstâncias de dor?
Jesus começa o sermão declarando quão sortudo é o pobre! Como assim??????
O pobre passa necessidades todo tempo! Ele, muitas vezes, não tem um lar, uma
refeição decente, nem muitos amigos! Ele passa frio, fome, vergonha por não ter uma
roupa…!!Como o pobre pode ser um bem-aventurado ou um sortudo?
Isso soa como paradoxo. E os chorões? Os humildes?
Diante de muitas bandeiras de orgulho, como o fato de ser humilde leva
alguém a conquistar algo?

Em face daquilo que temos vivido, a sede pelo poder, pelo estrelato, desejo de
ser reconhecido ou de lutar por seus direitos, o Sermão do Monte não parece muito
atual e, talvez, não muito inspirador. Diante dessa forma de ver e pensar ele não
parece muito convidativo.
Penso que isso é um grande diferencial. A religião tem o poder de colocar
sobre os homens jugos pesados. Uma gama de regras, de faça ou não faça sempre
percorre os círculos das grandes religiões.
Jesus começa o seu grande sermão confrontando o homem em sua
autossuficiência. Ele nos desafia a olharmos para nós mesmos com muita honestidade
e perguntarmos: podemos comprar tudo? Temos todo este poder que pensamos ter?
O Sermão do Monte nos humilha, nos confronta e nos apresenta uma
perspectiva única de olharmos a vida como deve ser olhada. Jesus nos direciona para
ele e está nos dizendo que não podemos fazer nenhuma dessas coisas. Nada! Mesmo
que nos disciplinemos, tudo será como um castelo de areia construído à beira do mar:
irá ruir rapidamente.
Nossa pobreza é revelada em situações difíceis, a saber: quando uma doença
degenerativa nos alcança, quando perdemos um filho ou quando tudo aquilo que
construímos evapora de um dia para o outro. Nossa pobreza é revelada, quando
vivenciamos alguma dessas situações e não há nada que possamos fazer.
Jesus nos chama a rever quem nós somos e nos revela como, mesmo com um
trilhão de reais na conta bancária, somos os mais pobres de todos os homens.
Mas o que Jesus ensina só fará diferença se, de fato, reconhecermos que tudo
que temos é nada comparado àquilo que devemos. Nossa dívida é muito elevada.
Nossos pecados criaram uma barreira intransponível entre nós e Deus e não há
dinheiro que possa ser usado para construir um muro de acesso. Quando percebemos
isso, podemos compreender quão miseráveis somos. Assim, nossa pobreza se
transforma em sorte, em bem-aventurança!
Jesus foi e é o mais rico de todos, pois só ele tem o que é necessário para
pagar toda nossa dívida. Mesmo em nossa miséria e pecado, ele, com misericórdia e
graça, veio ao nosso encontro, para tomar nosso lugar, tomar nossa culpa e pagar tudo
que devíamos.
Há algo interessante por trás destas duas palavras, misericódia e graça.
Misericórdia, porque Jesus olha a nossa situação de pobreza e necessidade e age,
mesmo tendo prejuízo. Graça, porque ele olha para o nosso pecado e trata. Jesus fez
isso não porque merecíamos, mas porque ele é misericordioso e gracioso.
Isto sim é ser bem-aventurado, sortudo, feliz. Quando reconhecemos que não
temos nada, isto nos leva para a próxima bem-aventurança: felizes os que choram,
pois serão consolados. Quando olhamos quão pobres somos, quando reconhecemos
isso, choramos nossa miséria, lamentamos nossa pobreza. Assim, Cristo se apresenta
como aquele que nos consola, pois ele chorou o nosso pecado e sofreu por nós na
cruz. Nosso choro só terá eco, quando chorarmos por nosso pecados, nos lamentarmos
por eles e reconhecermos que eles levaram Cristo à cruz.
As bem-aventuranças só serão revolucionárias em nossas vidas quando,
efetivamente, entendermos que elas não são um monte de regras a serem cumpridas,
mas raios X de que nada podemos fazer, somente confiar e crer em Cristo.
Ele é a nossa bem-aventurança.

Revisão: Marilene Pinheiro

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