A pedagogia do silêncio

Até o insensato passará por sábio, se ficar quieto, e, se contiver
a língua, parecerá que tem discernimento (Provérbios 17:28)

Você já parou para pensar na importância da fala no seu dia-a- dia? É através da fala que
nos comunicamos por meio dos signos linguísticos com seus significantes e significados. A fala é a execução dos termos da língua que são expressos através da linguagem falada ou escrita.

Vezes por outra falamos pouco. Outras vezes falamos demais. Nunca sabemos qual a hora
certa de falar. O mundo em que vivemos é marcado pelo barulho e pela tagarelice. Não há pausa para ouvir, refletir, e pensar, pois viveremos a tirania do imediato. Tudo tem que ser agora e rápido.

Neste contexto, quase sempre não temos as palavras e a maneira certas para falar. A
combinação do momento, do conteúdo e da maneira certa de falar ajudaria por demais a melhorar a nossa comunicação e a fim de entendermos as pessoas que nos cercam.

No entanto, nem sempre o melhor é falar. Ou melhor, nem sempre a fala propriamente
dita é a maneira mais eficaz de se comunicar. Às vezes as palavras sobram e o momento nos pede o silêncio. A verdadeira sabedoria não está em falar, mas em ficar em silêncio quando não há palavras, ou as palavras são poucas para se dizer o que se gostaria. Muitas vezes, as palavras não conseguem comunicar o que realmente a mente e o coração gostariam de dizer.

A voz do silêncio grita muito mais alto do que um monte palavras que por demais não
seriam tão profundas como a ausência presente das “não-palavras”. Isso porque o silêncio não é mudo. Quando calamos estamos dizendo. Estamos pronunciando a voz do íntimo do coração. A profundidade do ser está na expressão do silêncio intencional e não no agito das palavras não pensadas.

Muitas vezes somos levados “como ovelhas mudas perante os nossos tosquiadores”
(Isaías 54:7; Atos 8:32). Notemos que o silêncio de Jesus perante seus adversários incomodava. Nada mais perturbava os religiosos fariseus do que o silêncio de Cristo. Quando trouxeram a mulher adultera perante Jesus o silêncio falou, levou os fariseus a reflexão. Após se calar, Jesus disse o que meditava no silêncio de seu coração: “aquele que não tem pecado que atire a primeira pedra.” (João 8:7)

A pedagogia do silencio permitimo-nos ouvir a nós mesmos e os outros. Ouvir o que
realmente está dentro de nós e o que está dentro do outro. Neste sentido, na escola da vida calar-se não é ficar inerte, mas é ativamente falar o que está no coração. Isso porque o “a boca fala do que o coração está cheio” (Mateus 12:34; Lucas 6:45). Nosso coração muitas vezes não precisa pronunciar palavras para dizer, pois simplesmente diz no silêncio das palavras que são poucas e/ou limitadas no ato da comunicação.

Por fim, o silêncio não dura para sempre. Uma hora chega o momento de falar. Falar o
que durante muito tempo de silêncio estávamos dizendo, mas que agora chegou à hora de dizer de outra maneira: usando as palavras. No entanto, não são palavras vazias em si mesmas. São palavras cheias de conteúdo. Palavras que foram pensadas e purificadas no crisol do silêncio. Palavras que não são meras palavras, mas palavras revestidas de atitudes, porque afinal de contas, “as atitudes falam mais alto que nossas palavras”, de maneira que as pessoas nada podem ouvir das mesmas se a segunda não for ilustrada pela primeira.

A voz do silêncio fala, e quando chega à hora do pronunciamento do mundo com
palavras, eis a fala profunda. O silêncio faz com que as palavras se ausentem e quando elas
retornam são mais fortes, trazem consigo um quê de saudade, verdade, e de compreensão.

Procuremos então falar mais com a voz do silêncio para que quando falarmos palavras elas façam as pessoas silenciarem para ouvir o que temos a dizer.

Que tal aprendermos e ensinarmos a viver relacionamentos saudáveis através da
Pedagogia do silêncio? Eis aqui a sabedoria que nos ensina a viver bem!

Hamilton Perninck

Sobre Hamilton Perninck

Doutorando em Educação/Formação de Professores (UECE, 2016-). Mestre em Educação/Formação de Professores (UECE, 2015), especialista em formação de professores (UECE, 2010), Licenciado plenamente em Pedagogia (UNG, 2008) e Bacharel em Teologia com concentração em Ministério (SVB, 2003). Professor Pedagogo da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza. Educador Social e Pedagogo na Associação Terapêutica Grão de Mostarda. Membro do UECE/OBEDUC (Observatório da Educação da Universidade Estadual do Ceará).

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