Cotidiano e Fé

14.07.09 14:16

A arte do assombro

Por: Ricardo Marques | Comentários: 14 Comentários

floresta

Durante anos trabalhei nas entranhas da floresta amazônica, explorando regiões inóspitas acessíveis somente por barcos, pelos igarapés e dias de caminhada. Bons tempos, de experiências e aprendizado que nenhuma formação acadêmica jamais poderia dar a alguém. Como seria de se esperar, deparei-me com diferentes tipos de animais, em meio aquela biodiversidade que é uma das maiores do planeta. Um desses foi a anta, o maior mamífero da América do Sul, podendo atingir 300 kg e medir mais de 2 metros.

anta

Anta é um bicho interessante. Pacato, quase não tem defesa contra a onça, seu principal predador. Esse medo a impede de conhecer mais a floresta, de explorá-la, pois para se proteger adota a estratégia de andar sempre por uma mesma trilha na mata. A anta até tenta se defender, fazendo sua trilha, em algum momento, passar por baixo de um galho de árvore; se a onça lhe pular nas costas, cravando suas garras, a anta corre pelo caminho de sempre, até que passa sob o galho – a onça leva uma pancada e se solta, enquanto a presa aproveita para tentar fugir. Mesmo assim, nem para se defender a anta sai da trilha.

arvore

Árvores imensas também são belezas que se destacam na Amazônia. Numa de nossas expedições, eu e minha equipe, que na ocasião eram seis pessoas, não conseguimos, juntos, abraçar uma sumaúma. Imponentes vegetais, não poucas daquelas árvores atingem mais de 50 metros de altura, as copas se encontrando muito acima de nós, fechando-se num teto de densa folhagem, a nos fazer sentir como ao entardecer, estando em pleno meio-dia. Em volta delas, profusão de coloridas e sonoras aves, e macacos curiosos, a nos observarem. Cada árvore, um verdadeiro mundo de tênue equilíbrio, de assombrosa riqueza, de notável deslumbramento. Impossível ver e não sentir; vivenciar e não se importar. Compreensível, pois, quando tantos bradam contra sua destruição.

Mas conheci gente que foi ali e nada viu. Para eles, “só tem bicho e mato”,
coisa “sem serventia”. Perderam, estes, a faculdade do sentir. Veem, mas não enxergam; logo, não se importam. Atitudes como as de “tanto faz”, do “nada posso fazer” ou do “não é comigo” ilustram o cerne de quase todo problema social, que, por sua vez, deriva do problema educacional.

Existe uma realidade que impressiona, está lá, está aqui, à nossa volta. Mas tem gente que já perdeu o que chamo de a arte do assombro. Há quem passe diante de uma árvore que floresce e não se impressiona, não se deixa impactar com o milagre que ali se presencia; igualmente, há multidões que vivem em meio a uma grave crise social, onde há desigualdade, fome, injustiça, doença, abandono, violência, sofrimento, ignorância… E são, a tudo isso, indiferentes. Vivem em pequenos mundos, encastelados, reféns de sua insensibilidade e de seus medos. Tenho concluído que esse é um problema de base, de falta de educação, de escolas e famílias que se ocupam com tantas coisas, menos o cumprir de sua missão formativa.

Trabalhar com educação tem uma exigência: temos que ser capazes de nos assombrar com tudo de bom e de ruim que está aí para ser visto e percebido.

Precisamos nos importar, mesmo em tempo de tantas desconfianças. Mesmo em meio a tanto descaso e corrupção. Mesmo quando falta ética e honestidade. Mesmo quando há tantos lobos no aprisco. Mesmo quando se ouve notícias de que a desigualdade aumenta, e que os ricos – cada vez em menor número – esbanjam cada vez mais, enquanto a classe média vira pobre, e os pobres, miseráveis. Pois, se você se importa, é capaz de voltar a confiar. Se você se importa, consegue enfrentar o descaso e a corrupção. Se você se importa, será ético e honesto. Se você se importa, esbanjará menos e compartilhará mais. Se você se importa, será mais sensível e menos egocêntrico. Se você se importa, encontrará forças para dominar os lobos e proteger os cordeiros.

Ver e enxergar. Enxergar e sentir. Sentir e decidir. Decidir e fazer. Essa é a arte do assombro, que desperta a alma, provoca a intervenção e causa transformação. Essa é a nossa missão.

Parafraseando Rubem Alves, a sociedade vive a formar antas: gente que não tem coragem de sair de suas trilhas de sempre, com medo da onça. Pessoas que entendem tudo sobre suas trilhas bem demarcadas, daquilo sabem os mínimos detalhes. Só que toda a imensidão da floresta à sua volta lhes é desconhecida.

Esse é o papel da verdadeira e boa educação: ir além das trilhas e compreender essa floresta. E, compreendendo, dar tudo de si para torná-la melhor.

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Comentários | 14 Comentários

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Alberto Plutarcho 14.07.09 | 21:46

Trilhar o desconhecído é tarefa para poucos, apenas os inconformados, curiosos, desbravadores não temem a imensidão da floresta, não se deixam abater pelo medo e pelo pessimismo. Esses, poucos, são os que vencem na vida, os demais são antas.
Alberto Plutarcho.

Reginaldo Marques 15.07.09 | 05:55

Bastante interessante o seu exemplo. Aplicado, por exemplo, às atividades econômicas e politicas, este país está com um bom estoque de antas. Reginaldo.

Paulo Figueiredo 15.07.09 | 10:11

muito interessante este texto. No mundo de hoje temos que deixar de ser anta, fazer sempre as mesmas coisas. No último curso de Fotografia de Casamento que fiz com um dos fotógrafos de maior destaque hoje na fotografia social, ele nos incetiva a sempre inovar, e fazer durante o evento, uma foto que que nunca fez antes. Não devemos ter medo de errar. Pois cada vez que erramos vamos nos aperfeiçoando.

Salomão Soares 15.07.09 | 10:44

Ricardo que atual seu artigo.

Infelizmente estamos vivendo como antas a anos. Saliento duas questões:

PRIMEIRA: Há aqueles que na busca inveterada de “experimentar” os sabores da vida acabam perdendo a sensibilidade e assim mergulham num paradigma onde se filtra automaticamente tudo que pode ser constrangedor, desafiador (de seus próprios conceitos), etc. Formando para si mesmo um sub-mundo onde as sensações desagradáveis e/ou boas porém estranhas a esse sub-mundo, são simplesmente ignoradas. Realmente eles estão cegos a essas realidades pois não há tempo hábil para tal. O viver “o agora” suplanta qualquer necessidade de outrem. Esse tipo de pessoa só acorda para as realidades da vida quando é impactado diretamente por elas e esse impacto atua nas áreas que ele próprio elegeu como intocáveis.

SEGUNDO: Há outrora diversos homens e mulheres que tiveram sua mente cauterizada pela vida e por suas escolhas. Assim resolveram estar e viver. Pois para tal o melhor é o que é BOM para mim e não o BEM comum. Para estes a vida alheia tem que ser negociada sempre com suas escolhas e projetos. Só há movimento na direção de ajudar se seu projeto necessitar ou ainda para manter as aparências. Assim alavancam todo tipo de esforço para alcançar seus objetivos tornando os outros meros coadjuvantes manipuláveis para alcançar seu intento.

Esse engodo é geral! Se houver a mais simples introspecção veremos que de vez em quando estamos no mesmo caldo de intenções. Andando conforme meu egoísmo que vestido de “auto-suficiência” e “espírito determinado” domam a tudo e todos. Isso faz parte do espírito desse mundo. Onde os fracos não tem vez e estão “ao largo”, junto aos mendigos da mente e da vida, na sarjeta da sociedade.

Assim como a “velocidade da vida”, a busca insaciável por “satisfação” cria esse Novo-Homem que exprime tudo de canalha, podre, imoral, covarde, controvertido, corrupto, e tantos outros atributos. Esse novo-homem tem sido levantado na sociedade de hoje como líder, conselheiro financeiro, guru de administração, político, legislador, etc. Engraçado é ver a comoção da sociedade quando mais um escândalo aparece nos noticiários. Todos reclamam do ícone em questão, mas no dia-a-dia, são poucos os que não fazem uso da mesma carapaça tornando-se como ele um cara-de-pau. Pois se encararmos que a onça não pega todas as antas, é até legal ser ANTA. O que não dá é ser a ANTA da vez, não é?

Escuto as palavras de Jesus nesse momento falando para nós, que como os sacerdotes da época agiam: “Raça de víboras! quem lhes livrará da ira vindoura?”

Obrigado Ricardo, por se fazer voz e vez em meio a um veículo tão popular como o jornal O Povo, para com discernimento falar sobre nossas podres entranhas.

Abraços MIL, mentor e amigo!

Salomão Soares

Circe Vidigal 15.07.09 | 12:29

Richard, gostei demais. Com todas as minhas andanças por este país, conhecendo os “interiores” e suas características, desconhecidas da maior parte dos brasileiros das capitais e do litoral, nunca tive uma experiência como a sua. Maravilhosa ! E como a aproveitas para realçar a importância do “olhar” na questão da educação, como bem nos mostra Ruben Alves. Aliás, de há muito percebi como mestra e sempre ressaltei para meus alunos, a importância da diferença entre “olhar”e “ver ” . Parabéns

Maciel lima 15.07.09 | 16:16

É a pura verdade. Não conseguimos mais nos assombrar nem com as coisas mais simples que vemos no dia-a-dia. Não nos assombramos mais com violência e nem com a corrupção que assola a nosso país. Arvores, passarinhos? O que é isso?

Maciel Lima

Frnando Gualberto 15.07.09 | 18:43

Mano Ricardo, como é bom lê-lo. É um texto que nos remete automaticamente a reflexão sobre muitas coisas erradas que acontecem neste país, como por exemplo o descaso com a amazônia, com a educação, a nossa insensibilidade enquanto seres humanos. Somos um povo acomodado e pouco afeito a mudanças.
Estive no último sábado (11) visitando o Lar Torres de Melo, entidade que realiza um trabalho dos mais significativos e de forma silenciosa e eficiente, cuidando daqueles que os políticos, a família e a sociedade infelizmente abandonam no momento em que mais precisam – dos idosos. Estivemos lá para entregar 1000 lençois e uma quantidade significativa de tampas de plático (refrigerante,água etc)as quais são vendidas para as indústrias locais (que custam mais que garrafas plásticas, e assim conseguem arrecadar dinheiro para pagar algumas das muitas despesas fixas.
É lamentável presenciarmos fisionomias tristes e ansiosas por companhia, a espera de seus familiares que ali pouco comparecem. Felizmente, são tão bem tratados e cuidados por abnegados profissionais contratados e com poucos mais valorosos voluntários (senhoras, estudantes de universidades, médicos, psicólogos etc). O ambiente é limpo que dar inveja de ver, principalmente quando se ouve dos valorosos administradores como por exemplo, do Gen. Torres de Melo com seus 85 anos, a nos expor as inúmeras dificuldades financeiras para manter aquela Entidade. O governo e a sociedade pouco contribuem.
Convido-os a visitar e colaborar com aquela Entidade. Só visitando é que a gente vai entender o real significado da palavra – solidariedade e a grandiosidade do trabalho que realizam. Conclamo a todos a juntar tampinhas de pláticos e entregá-las aquela Entidade. Com esse pequeno gesto, estaremos fazendo a nossa parte.
Lembremo-nos que um dia seremos velhos também.

Parabéns por mais esse delicioso texto.

Heloiza Cruz 15.07.09 | 22:46

gostei de ler….verdade para se refletir….”a diferença entre o “‘olhar e ver” esta é uma das razões porque sou fã do colégio KERIGMA.

Rita 15.07.09 | 23:16

” Ver e enxergar. Enxergar e sentir. Sentir e decidir. Decidir e fazer. Essa é a arte do assombro, que desperta a alma, provoca a intervenção e causa transformação. Essa é a nossa missão.”
Nossa missão, grande missão. Ver e perceber o que está acontecendo.Ver, sentir e assim agir. Infelizmente a sociedade tem olhado tudo com muita “normalidade” e temos nos “acostumado” com tudo que acontece ao nosso redor.As coisas se banalizam com facilidade e rapidez.Nesta hora lembro do texto de Romanos 12, que diz: ” Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.” Mente renovada, mente sensível as injustiças e incoerências. Mente renovada, mente livre para perceber as maravilhas que nos rodeiam e que deveriam nos “assombrar”.
Professor Ricardo, parabéns pelo artigo. Muito bom mesmo!Artigos como estes nos fazem repensar o caminho que temos seguido e que se faz necessário falar menos e fazer mais. Um grande abraço!

judith 16.07.09 | 18:39

Muito chamou-me á atenção os detalhes da floresta. Como árvores que não podem ser abraçadas, de tão imensa que são, lugares inacessíveis, ou seja, só de barco, e ás fotos, lindas! Enquanto li o texto, tive a sensação de estar vivenciando o que estava escrito. Todavia, o que levou-me á reflexão, é que, quero me assombrar, ñ quero ser indiferente ao caos ou não caos que rodeia-me, não quero ser anta. Quero ver , enxergar, sentir, decidir, fazer, interferir e ser uma facilitadora de transformações boas. Principalmente para os mais carentes, em todas ás áreas da vida. Se não for “assim”, para que estou aqui neste mundo? Grata professor Ricardo, por lembrar-me este desejo do meu coração. Judith.

Dasdôres 16.07.09 | 23:01

Parabéns, Ricardo!
Além da aula sobre nosso ecossistema” fauna e flora”, a excelente ilustação para mostrar o qto. acomodados estamos, na nossa zona de conforto, sem nos importar com o menos favorecido; sem nos envolver para não pagar o preço de “chegar juntos. “INSENSIBILIDADE, EGOÍSMO, INDIFERENÇA”. Na realidade o problema social é decorrente do problema educacional. Escolas e famílias entrelaçadas, buscando cumprir sua missão formativa, formarão gerações que possam desfrutar da “ARTE DO ASSOMBRO”, como tem feito o Colégio Kerigma. Enqto. há tempo, busquemos enxergar,sentir, decidir e fazer, para que cunpramos nossa missão de transformar o mundo num mundo melhor, como manda a Palavra de Deus.

Daniel Marques 21.07.09 | 19:50

Realmente, percebo como todos estão perdendo essa “arte do assombro”. O mundo anda indiferente tanto à beleza da natureza, tanto ao amor, quanto à situação do planeta, a desigualdade e ´ética, como você soube relacionar tão bem. E nós não podemos deixar de fazer a nossa parte e aprimorarcada vez mais essa arte, de sentir o que há à sua volta, pensar e agir, se inspirar e inspirar outros. Texto maravilhoso!

Daniel

Marcos Albuquerque 28.07.09 | 10:35

Quanto a gente perde por ñ olhar as minímas coisas a nossa volta. A correria do dia-a-dia nos torna verdadeiros “cegos” por ñ perceber q a graça da vida e o verdadeiro aprendizado se dão quando a gente se atenta p os pequenos detalhes.

JAMILE BALTAR 28.07.09 | 11:32

Ricardo, meus primeiros passos na arte do assombro me foram ensinados por meu avô, Luciano Pamplona. Naturalista, amante da natureza, evolucionista de carteirinha, contudo, ensinou-me a maravilhar-me desde cedo com pássaros, flores, insetos, tudo o que pula, rasteja, canta, que se camulha, tendo penas ou pelos, bicos ou fucinhos… Foi com ele que percebi, pela primeira vez, quando ele me ensinava a identificar as constelações no céu – o cruzeiro do sul, ursa maior… – que os atributos invisíveis de Deus se revelam na criação. Cresci com olhos atentos, e até hoje, nunca me canso de contemplar o Criador na criação.

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Biólogo, paleontólogo, analista de inteligência, psicanalista clínico, neuropsicólogo e terapeuta.

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Jornalista diplomada pela Universidade Federal do Ceará. Produtora, repórter e apresentadora […]

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