Muito além do close!

Veronica Valentino no desfile de Ronaldo Fraga
Veronica Valentino no desfile de Ronaldo Fraga

Vocalista e líder da banda de rock ‘Veronica decide morrer’ e atriz do coletivo As Travestidas, a cearense Verônica Valentino fez parte de um dos momentos mais marcantes da moda no Brasil dos últimos anos. Ela integrou o casting de 28 mulheres transexuais que desfilaram para o estilista Ronaldo Fraga na última quarta-feira, 26, no São Paulo Fashion Week.

A apresentação foi considerada um dos pontos altos desta edição do evento e ganhou repercussão mundo afora. Classificado como um ato político, em plena onda de recrudescimento do conservadorismo no País, o icônico desfile surpreendeu e emocionou (além de ter chocado alguns, obviamente).

Nesta entrevista exclusiva ao Blog do Maranhão, Veronica conta como chegou à seleção de modelos que participaram do desfile, fala da emoção que sentiu ao subir à passarela do São Paulo Fashion Week, mesmo já tendo desfilado para o estilista Lindemberg Fernandes no Dragão Fashion em 2015, e comemora o empoderamento trans que o fashion show proporcionou.

Blog do Maranhão – Como surgiu a oportunidade de desfilar para Ronaldo Fraga no SPFW?

Verônica Valentino – Eu fui convidada para fazer um casting, por um dos stylists do desfile. Ele me fez o convite porque já conhecia me trabalho, conhecia o trabalho da banda (Veronica decide morrer, da qual ela é vocalista). Aí rolou esse convite para participar do teste, deste casting. E aí rolou!

 

Blog do Maranhão – Por que você decidiu tentar uma vaga no desfile?

Verônica Valentino – Ah, então, foi um convite. E a gente não sabia para quem ia desfilar até o dia anterior. A gente sabia que seria um desfile só com trans, mas não sabia quem era o estilista. E isso ficou em segredo até o dia do desfile. Não deram nenhuma informação para a gente, foi meio que uma surpresa. E eu decidi porque… Ah, é uma oportunidade incrível, né? Para além do sonho de toda trans de dar um close babado no São Paulo Fashion Week (risos), o motivo do desfile, o teor político era bem mais importante. E eu como representante, pô, me senti lisonjeada!

 

Blog do Maranhão – Como foi o processo de seleção?

Verônica Valentino – Foi simples. Foi um casting básico, tranquilo, onde a gente só andava, só dava um close, a gata nos avaliava… Foi tranquilo. Na verdade, não tinha essa questão de só modelos trans topzinhas, magrinhas, branquinhas… Não. Tinha tantos as belas, lindas, nascidas no iogurte (risos) como também tinha as gatas que fazem rua… Então, tinha todos os portes, todas as cores, todos os tamanhos, enfim.

 

Blog do Maranhão – O que você sentiu quando pisou na passarela do SPFW pela primeira vez?

Verônica Valentino – Então, eu já tinha participado uma vez do Dragão Fashion, num desfile do Lindemberg Fernandes (em 2015) e foi incrível! No São Paulo Fashion Week, como foi num teatro incrível, lotado de pessoas icônicas, a (Constanza) Pascolato, os tops da moda… Nossa, foi emocionantíssimo!

 

Blog do Maranhão – Como era o clima no backstage?

Verônica Valentino – O clima no backstage foi lindo! A gente se encontrou um dia antes, para dar uma ensaiada, uma marcada no lugar. Foi quando a gente conheceu Ronaldo Fraga e ficou sabendo para quem a gente iria desfilar. E no outro dia a gente chegou tipo 9 da manhã e era um clima de festa, né? Vinte e oito trans comemorando o empoderamento. Foi lindo, foi emocionante, foi forte, foi incrível!

 

Blog do Maranhão – Hoje, há um consenso que o desfile de Ronaldo Fraga foi um marco na história da moda e no combate à transfobia no Brasil. Vocês que participaram do desfile já haviam percebido, antes de entrar na passarela, que o desfile tinha esse potencial?

Verônica Valentino – Sim. Esse ano, o tema do São Paulo Fashion Week trabalhava essa questão do gênero. Então, teve dois desfiles que foram muito bafo, um do Emicida e esse do Ronaldo Fraga. E a gente tinha certeza, né baby? Quando ele colocou 28 trans (na passarela), no tempo de hoje, na situação política de hoje, no conservadorismo de hoje, a gente tinha certeza que ia ser lacre total

 

Blog do Maranhão – Por fim, o que a cantora e atriz Veronica Valentino ganhou com esta experiência de top model?

Verônica Valentino – Ah, essa experiência de top model foi muito boa (risos). Nossa, fico lisonjeada baby! Ser reconhecida nacionalmente, levamos o nome da banda, levamos representatividade para as transexuais, enfim, uma experiência incrível. É única, baby!

 

 

 

Emerson Maranhão

Sobre Emerson Maranhão

É jornalista e realizador audiovisual. Desde 2005 escreve e edita a coluna 'Cena G', publicada semanalmente no jornal O POVO (Fortaleza/CE). Além disso, é editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual do Grupo de Comunicação O POVO, criando, roteirizando e dirigindo webséries e webdocs.

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