Jesuíta bem de perto

Fotos: Julio Caesar
Fotos: Julio Caesar

 

O ator Jesuíta Barbosa, 25, protagoniza, ao lado de Hermila Guedes, a série O Fim do Mundo, que estreia no próximo sábado no Canal Brasil. A atração marca o reencontro profissional de Jesuíta com o cineasta Hilton Lacerda, que o dirigiu em Tatuagem (2013), primeiro longa-metragem em que atuou, e que assina o roteiro e a direção da série (esta última em parceria com Lírio Ferreira).
Em Fortaleza integrando o júri oficial do 10º ForRainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual, que termina amanhã, no Centro Dragão do Mar, Jesuíta falou com exclusividade ao Blog do Maranhão.  Na longa conversa na tarde desta terça-feira, Jesuíta falou de sua carreira, de seus principais trabalhos, e da experiência de se jurado de um festival de cinema.

Blog do Maranhão – Como foi para você voltar a trabalhar com Hilton Lacerda quatro anos depois de fazerem Tatuagem?

Jesuíta Barbosa – Essa era uma vontade minha, há muito tempo, de voltar a trabalhar com Hilton, de conseguir trabalhar com a equipe que ele forma, sabe? Com as pessoas lá de Recife, da Rec (produtora responsável pelo filme e pela série). E ele apareceu com este projeto. Fantástico! Não poderia ser melhor. E é sempre bom ficar perto dele. Hiltinho é uma pessoa muito agradável, um cara muito culto e, ao mesmo tempo, simples. Talvez por isso aconteça ali uma sofisticação no trabalho dele, que é muito original. Um negócio bonito de conviver. Então, é uma beleza que eu tenho vontade sempre de estar perto, de trabalhar, de sair, me divertir, de conversar com ele. Ele é muito gente boa.

Maranhão – Você ganhou projeção nacional com Tatuagem. Sua vida mudou muito depois deste filme. Como foi este reencontro agora? Você hoje é um outro ator. Ou não?

Jesuíta – Ah, com certeza. Não é um outro ator porque eu sou a mesma pessoa, mas eu tenho certeza que muitas energias mudaram, muita coisa modificou na minha vida. Eu fui morar sozinho… Acho que eu ganhei uma espécie de liberdade com a convivência no filme, com aquela preparação, com o filme em si, com as pessoas que eu conheci ali. E depois sai de casa, comecei a viajar bastante… Então, acho que eu sou a mesma pessoa, mas transformado, sabe? E eu acho que é por aí mesmo o negócio, a gente tem que estar sempre se transformando, experimentando outros níveis de cena, de atuação. Eu tenho sempre vontade de experimentar, eu fico observando sempre atores de quem eu gosto e tal. Nesse caso específico, que a gente se encontrou depois dos quatro anos, em Recife, ele me disse que eu ia trabalhar com Hermila (Guedes), que é uma atriz que eu sou muito fascinado desde sempre, sabe? Sempre fui. Eu acho que tem uma coisa, um jeito nos movimentos da Hermila que eu sempre fui muito encantado. Ele falou que ela ia fazer minha mãe, eu disse “Nossa!” (risos). Eu fiquei muito feliz. Até não soube lidar com ela, na verdade. Porque quando ela chegou eu fiquei um pouco preocupado em como deveria agir e tal. Então, eu fiquei um pouco quieto, e isso incomodou a Hermila. A gente conversou sobre isso e depois as coisas foram se ajeitando. Mas, além disso, Marcélia (Cartaxo) que está junto no projeto, tantos outros atores… O Alberto Pires, que faz Balbino, que é um cara da região, ele não era ator. Hiltinho conheceu quando foi visitar a locação, a cidade…

Maranhão – Em uma entrevista recente, Hilton Lacerda disse que a escolha da cidade para a locação foi determinante em muitos processos criativos da série.

Jesuíta – Acho isso muito interessante, porque a ideia de Hilton, que ele me contou, era conseguir filmar numa cidade que tivesse um tempo diferente do comum, ou de uma cidade grande, que saísse dessa coisa de Recife. E ele encontrou Triunfo, que é uma cidade no sertão do Pajeú, que as pessoas realmente têm uma constante diferente, sabe? Essa cidade do interior que fecha as portas quando dá duas horas, não tem mais comérciotodo mundo vai pra casa e dorme, as pessoas fazem a sesta. Então, tinha um tempo diferente. A cidade em si tem uma força, uma cidade muito antiga e cheia ainda de uma arquitetura preservada, e isso dava uma cor na nossa cabeça, de quem estava indo fazer o projeto de que realmente era aquele lugar, tinha que ser aquele lugar, aquele buraco escondido. Triunfo… de repente você está num deserto, seco, e você sobe para a cidade e fica verde! É um lugar todo verde, no meio do sertão! Então eu acho que ele procurou esse lugar para conseguir criar esta fantasia, que é o fim do mundo.

Maranhão – Do que trata O fim do mundo?

Jesuíta – A gente vai muito pra esse lugar fantasioso, do maravilhoso, de experimentar contar uma história com naturalidade cênica, as atuações são muito naturalistas e tal, mas ao mesmo tempo criar uma espécie de grande metáfora para dialogar sobre padrões, sobre a caretice das pessoas que ficam ali naquele tempo que se repete, se repete, e em que nada se transforma, sabe? Triunfo, que na série chama Desterro a cidade, meio que é esse lugar, um ponto que tem entrada, mas não tem saída. Então, quando esses personagens chegam lá, eu e Hermila, mãe e filho, ela volta porque eles não têm como sobreviver no lugar para onde foram, e quando eles entram ali é como se aquela cidade não tivesse saída. Então, a missão desse menino é meio que achar um acesso para conseguir sair dali, porque as pessoas de certa forma aprisionam quem chega em Desterro. Enfim, teve todo um jogo psicológico quando a gente estava preparando esta história. Desde o início, eu encontrei com Hiltinho e ele foi me dizendo o que era, toda a trama psicológica que ele queria criar, qual era o sentido das personagens, o sentido de Cristiano, que é a personagem que eu faço, que para além de costurar as histórias, que são cinco contos diferentes, é uma personagem que tem a função de revelar aquele lugar, de mostrar para quem assiste que é um lugar difícil de sair.

 

Quando eu cheguei perto de Hermila eu não sabia lidar com aquilo, com alguém que você tem uma admiração tão grande que é difícil de você… Então eu acho que reservei um pouco o silêncio, para que a gente pudesse se entender com o passar do tempo.

 

Maranhão – É curioso notar que você e Hermila, que protagonizam a série, são crias do cineasta Karim Aïnouz. Você, com Praia do Futuro, que lhe projetou internacionalmente, e Hermila com O Céu de Suely. Como funcionou este encontro? Você mencionou há pouco que teve dificuldades de lidar com Hermila no começo.

Jesuíta – Foi. Por ter essa admiração por Hermila, por ter assistido ao filme já muito antes de pensar em fazer cinema e gostar muito de O Céu de Suely e do trabalho que eles fizeram ali, eu meio que criei uma… Não sei. Quando eu cheguei perto de Hermila eu não sabia lidar com aquilo, com alguém que você tem uma admiração tão grande que é difícil de você… Então eu acho que reservei um pouco o silêncio, para que a gente pudesse se entender com o passar do tempo. Eu não sei (risos), as pessoas estão em constantes diferentes. Depois ela disse: “Pô, você não falava comigo! Num sei o quê!” (risos) “Eu querendo falar com você e você não reagia!”. Eu disse “Hermila, você entendeu errado! Eu tava era querendo olhar para você, saber como você se mexia porque… Eu queria ficar muito, muito próximo, mas eu estava dando tempo ao tempo por uma questão de respeito mesmo”. Mas acho que no fim das contas a gente conseguiu se perceber, sabe? Ela com essa sinceridade de chegar e dizer que não estava certo aquilo, e eu também de dizer que na verdade fazia parte do processo, né? Que eu de certa forma escolhi assim, que  naturalmente foi acontecendo, e com o tempo a gente se percebeu muito próximo. Porque a relação dos dois, apesar de ser mãe e filho, eles são muito novos, né? Ela é muito nova. Então deve ter tido esse menino muito cedo e eles dois têm uma relação de amigos, falam sobre tudo. O Cristiano, que é esse menino muito, como diria aqui, ‘malouvido’, esse rapaz que vai de encontro a esse sistema e tal, e é um cara que comete pequenos crimes, sempre está ali do lado da mãe dele dizendo o que ele quer e o que ele não quer, o que é certo e o que é errado para ele.

 

FORTALEZA, CE, BRASIL, 15-11-2016:Entrevista com o ator Jesuíta Barbosa no hotel Ocean Blue em Fortaleza. (Foto: Júlio Caesar)

Maranhão – Em pouco mais de três anos de carreira no cinema, você trabalhou com diversos diretores. De gente da nova geração, como o Hilton Lacerda, a nomes do Cinema Novo, como Cacá Diegues. Como foi esta experiência? Você consegue identificar estilos, perceber diferenças e afinidades?

Jesuíta – Totalmente, às vezes são extremos. Isso foi difícil para mim, na verdade. Porque como eu comecei num lugar em que, de certa forma, eu me encantei muito. De certa forma não, me apaixonei completamente fazendo Tatuagem. Talvez por ser meu primeiro filme também. Eu fiquei muito nessa função de fazer este tipo de cinema, que é o cinema do diálogo, sabe? De você estar sempre aberto, que esse diálogo com o diretor está sempre aberto. Você pode chegar e perguntar o que é que ele quer, qual a função narrativa do projeto, ou o que ele quer falar com aquilo. Alguns outros diretores não, é difícil a aproximação. Mas também acontece bem, a finalização, a obra quando ela fica pronta ela é maravilhosa, ainda que não tenha se aproximado tanto… Mas eu gosto de estar próximo. Acho que a função da gente, do artista, é conseguir conversar. Durante o processo, antes, construindo esse diálogo, a gente conseguir criar juntos. E isso eu tenho a sorte de acontecer constantemente. Foram pouquíssimas as pessoas com quem eu trabalhei que eu não tive esse tipo de relacionamento. Mas enfim, são personalidades diferentes sempre. O interessante é isso, você conseguir perceber quem é que está à frente daquilo, a direção, a equipe como um todo, entender qual é o processo de trabalho e fazer isso valer. Porque, no fim das contas, o que acontece na relação entre diretor e ator, e o que acontece na relação da equipe, é o que vai dar a liga do filme, ou a liga da obra em si. Então, a gente tem que primar por criar intimidade, para que a equipe se dê bem, para que as pessoas consigam se comunicar, para que a preparação tenha um sentido.

 

Isso é fundamental! O diretor dar abertura para você, chegar e perguntar o que você acha. Isso precisa existir sempre, né? Você conversar sobre a função daquela cena em específico, do projeto como um todo.

 

Maranhão – Você tem uma parceria bem estabelecida, na TV, com o diretor José Luiz Villamarim. Já são quatro trabalhos realizados juntos, desde sua estreia em Amores Roubados até as recentes Justiça e Nada Será como Antes. Como é esta parceria?

Jesuíta – Ele é fantástico! Ele consegue aliar uma coordenação de set, que eu acho que é muito necessário para esta plataforma, televisão, que é você ter voz de comando, você saber agrupar as pessoas, dizer o que é e o que não é, o diretor tem essa função. No cinema talvez não precise ser essa coisa tão gritada, sabe? falar alto para fulano escutar  e tal, porque a equipe é mais reduzida, mas na televisão não. E ele sabe fazer isso muito bem, sabe coordenar, tem uma voz de comando e, ao mesmo tempo, é um cara muito amoroso. Então, essas duas coisas é que fazem o Villamarim prosperar. E o olhar dele também, para quando ele está criando. Quando ele chega e pergunta o que você acha da cena. Isso é fundamental! O diretor dar abertura para você, chegar e perguntar o que você acha. Isso precisa existir sempre, né? Você conversar sobre a função daquela cena em específico, do projeto como um todo. E ele é esse cara que sempre faz reuniões, sempre tem esta mesa de conversas, para entender o que está acontecendo. E aí a gente consegue criar umas minúcias assim, que vão ajustando, vão ordenando o projeto para um lugar bom.

Maranhão – Existe uma identificação com o resultado? Quando você assiste a um trabalho do Villamarim você gosta do que você vê?

Jesuíta – Eu gosto bastante. Eu acho que ele tem um trabalho tão bonito na televisão, tão diferente do que a gente vê comumente! E, mais do que qualquer coisa, ele está preocupado com o ator. Eu acho que o trabalho do Villamarim está muito voltado para a atuação. Ele é um grande diretor de ator. Acho que por isso que tem essa identificação, por isso que os projetos dão certo. E ele está junto de um cara que é incrível também, que é o Waltinho Carvalho (diretor de fotografia). É um casamento perfeito! Um mineiro e um paraibano que se gostam muito. Os dois têm amor intenso entre os dois, a gente vê no set, os gritos dos dois, sabe? Então, as pessoas se encantam por aquilo. A direção de fotografia e a direção artística estão ali, celebrando o tempo todo. Quando a cena dá certo eles gritam! Isso é muito gostoso.

FORTALEZA, CE, BRASIL, 15-11-2016:Entrevista com o ator Jesuíta Barbosa no hotel Ocean Blue em Fortaleza. (Foto: Júlio Caesar)

Maranhão – Justiça é apontada pela crítica especializada como um dos pontos altos da nossa teledramaturgia em 2016, no que eu concordo plenamente. Como foi para você fazer Justiça?

Jesuíta – Para mim foi poder voltar para Recife. Eu não tinha habitado Recife nessa intensidade, eu sou do interior (de Pernambuco). As pessoas pensam que eu conheço Recife, eu não conheço. No Justiça eu pude ir para lá, e por isso eu fiquei feliz. Quando o Villamarim falou que iria ser em Recife eu disse “agora eu vou ter tempo de conhecer a cidade”. Eu fiquei curioso. E depois eu comecei a entender que a gente ia… Na preparação, e nas ideias dele ele disse que estava querendo filmar no Hollyday, esse prédio que é quase uma lenda viva na cidade.

Maranhão – Tipo o edifício Master, no Rio de Janeiro?

Jesuíta – É. Lá era para ser um hotel de luxo e virou um residencial. Hoje em dia é um prédio condenado, que as pessoas habitam ali, na praia. Extremamente marginalizado, sem saneamento, é tipo um grande lixão na verdade porque as pessoas jogam lixo da janela. Você olha de cima é um mar de lixo. Então, a gente foi fazer aquilo ali e quando eu cheguei eu disse “Nossa!”. É tipo um grande baque, sabe? E aí, esse lugar deu uma base para o sentido cênico. Porque eu não consegui visitar uma cadeia. Eu digo o edifício por ter esse descaso, e as pessoas que estavam ali habitando, a gente ter essa convivência… Tinha que subir escada, tinha que subir seis andares todo dia, um cheiro muito forte, a galera passando ali… Acho que deu para a equipe toda o sentido do que seria a história.

Maranhão – Vocês alugaram um apartamento lá?

Jesuíta – Sim, a gente alugou e quis filmar. Era um espaço de 40 metros quadrados, que tinha que ficar a equipe inteira ali dentro. Então, a gente começou a entender que tinha que ser por aí. Quer dizer, eu comecei e estou falando por todo mundo. Tem que ser simples aqui. Acho que esta história aqui por mais que seja televisão e tem essa invenção toda do glamour da TV, a gente não pode entrar nessa. Vai ter que ser cinema. E acho que é o que o Villamarim faz na televisão. Tem essa pegada super cinematográfica e que ele faz muito bem. Para mim foi fundamental começar a gravar no Hollyday. Porque aí eu entendi o sentido do projeto, vi a grandeza que seria poder fazer aquele trabalho, sabe? Estar no Recife, estar no meu estado, com atores dali, com as pessoas dali, que estão muito mais próximas à minha cultura natal, à minha fala e tal… Poder falar com meu sotaque, que é uma coisa que eu primo o tempo todo. Eu questiono porque eu não posso usar o meu sotaque, eu acho isso muito importante também, porque o tempo todo a gente escuta “pode reduzir? Amenizar? Neutralizar?”. E eu entendo que na verdade é uma convenção, é uma coisa do jornalismo, sei lá, que foi inventada nos anos 70 e agora vai pra esses atores da televisão, que eu tento burlar. Talvez porque a maioria dos trabalhos que eu fiz foi usando o meu sotaque, e eu gosto dele, é minha identidade. Acho que é mais ou menos por aí. Eu gostei de fazer, foi bom fazer por isso.

 

A gente meio que não quer ir pra esse lugar de fazer um trabalho só porque ele vai te dar uma projeção ou vai te dar dinheiro. Eu não estou muito por aí não. É bom dinheiro, mas eu prefiro trilhar um outro caminho, que me dá um retorno de felicidade mais que qualquer outra coisa.

 

Maranhão – Olhando de fora, sua carreira é conduzida com muito critério. Parece que há um cuidado grande na escolha dos personagens. Isso é pensado? Isso é acidental? Você tem essa preocupação.

Jesuíta – Eu tenho essa preocupação. Mas eu fui um grande sortudo, porque eu encontrei uma pessoa, nesse caminho curto, que foi Francisco Acioly, que eu acho que é um cara que tem uma elegância no processo de cuidar ou agenciar alguém… Ele é o meu empresário, meu agente, e faz isso muito bem. A gente está sempre juntos, somos muito amigos e a gente conversa sobre tudo. Acho que foi ele que me abriu os olhos: “Jesuita, a gente tem que ir devagar, porque tem que procurar o sentido mais artístico da coisa”, do que acabar virando esse trabalho autocentrado ou entrar numa ideia de fama, que eu sempre achei uma bobagem e Chico concorda com isso também. Então, a gente meio que não quer ir pra esse lugar de fazer um trabalho só porque ele vai te dar uma projeção ou vai te dar dinheiro. Eu não estou muito por aí não. É bom dinheiro, mas eu prefiro trilhar um outro caminho, que me dá um retorno de felicidade mais que qualquer outra coisa.

Maranhão – E apesar disso você não é um outsider, emplaca um trabalho atrás do outro na TV Globo, que é a maior rede de TV do País.

Jesuíta – Sim! E também teve Zé Luiz (Villamarim), né?, que disse agora que quer trabalhar comigo sempre e eu disse “Zé, vamos ficar juntos, cara! Porque eu quero trabalhar com você”. E pronto! Estão dizendo, na televisão, que eu vou ser ator de um diretor só (risos).

Maranhão – Já estão dizendo isso? Você se incomoda muito com o que falam?

Jesuíta – O quê que falam?

Maranhão – Tão dizendo que você vai ser ator de um diretor só…

Jesuíta – Me incomoda não. Eu acho que já me incomodei bastante, Já incomodou, mas hoje em dia eu deixo passar, porque senão eu acumulo e depois fica difícil, sabe? Então, hoje em dia se falam bobagem eu percebo que é uma bobagem e deixo ir embora?

 

FORTALEZA, CE, BRASIL, 15-11-2016:Entrevista com o ator Jesuíta Barbosa no hotel Ocean Blue em Fortaleza. (Foto: Júlio Caesar)

Maranhão – Você coleciona personagens muito intensos.

Jesuíta – Sim.

 

Hoje eu sei que não preciso sofrer tanto, sabe? Que não preciso misturar… Não tem como não misturar uma coisa com a outra, porque a gente trabalha com o que a gente tem, mas acho que eu aprendi a saber dividir eu das personagens que eu faço.

 

Maranhão – É uma escolha também? Porque você parece ser uma pessoa muito leve. Desde que lhe conheço, lá atrás, você é um cara alto astral, bacana super bem resolvido com sua vida, com suas escolhas, e pega personagens barra-pesadíssimas. É para compensar?

Jesuíta – Olha, eu não sei muito o que te dizer, mas eu gosto das personagens que aparecem. É bom quando é difícil, sabe? Não quando eu complico na minha cabeça de ator, quando eu complico demais. Aí, a dificuldade passa para a minha vida pessoal. Que era o acontecia no início, sabe? Quando eu fiz o filme com o Karim, que eu encontrei Fátima (Toledo, preparadora de elenco) e a gente tirou todo o meu passado, todas as minhas amarras, ela trabalha com isso e eu acho bom. Por isso que as pessoas têm medo, porque ela vai tirar de você o que você não quer mostrar. Mas acho que foi importante para o início desse caminho que eu fiz aqui. Hoje, acho que é a sabedoria, eu tenho adquirido um pouco com a convivência, as pessoas que eu encontro e tal. E hoje eu sei que não preciso sofrer tanto, sabe? Que não preciso misturar… Não tem como não misturar uma coisa com a outra, porque a gente trabalha com o que a gente tem, mas acho que eu aprendi a saber dividir eu das personagens que eu faço. Ou saber usar do que eu tenho para a personagem e depois esquecer a personagem para ela não ficar voltando em mim, meio que como um fantasma. E aquilo vira um engodo muito grande, porque era assim que acontecia. Acho que eu fiz alguns trabalhos que abriram estas portas, de conseguir fazer comédia, trabalhar com pessoas que têm uma leveza na atuação, no jeito de trabalhar, que eu acho fascinante também. É de muita qualidade e não precisa dessa intensidade ou dessa carga dramática, que é sempre muito triste.

Maranhão – Você está concorrendo ao prêmio de Melhor Ator do ano na Rede Globo…

Jesuíta – É, eu vi isso agora! Eu, Lázaro (Ramos) e Cauã Reymond, cara! Tu achas? (risos) Meu Deus do céu! Eu fiquei feliz. Nossa! Que interessante isso. Porque eles escolhem a partir de uma pesquisa dentro dos estúdios, dentro da empresa, né? Então, as pessoas votam. Tem uma lista e meus colegas, enfim, os atores, as pessoas que trabalham ali votam. Eu fiquei feliz por isso. Mas do que se vou ser premiado ou não. Nossa!

Maranhão – Você esperava isso?

Jesuíta – Não, eu não esperava. De verdade! Eu tomei um susto quando eu vi. Mas é sinal de que o trabalho foi feito. Acho que a série teve uma repercussão muito grande, as pessoas assistiram, tem um retorno impressionante. Agora, aqui em Fortalezam, as pessoas falando, e falam bem, dizem da qualidade, que nunca viram um negócio daquele jeito. Querem que tenha mais seriado, e eu concordo. E eu sou feliz de ter participado dessa, de ter convivido com as pessoas que estavam ali. Camila (Márdila), que fez a esposa da personagem, Debora (Bloch)… Eu acho que contempla todo mundo esse prêmio. A equipe toda vai ser contemplada se… Quer dizer, já está, né? Esse retorno é mais importante que qualquer troféu ou qualquer puxação de saco.

 

Ele é um artista que eu nunca vi igual. Melhor ator de teatro que eu conheço é Silvero Pereira. E melhor pessoa. Diretor, amigo, ele tem muita atitude. Eu acho que as pessoas precisam de atitude, precisam saber organizar as coisas. Ele consegue ter uma visão macro do mundo, da vida dele, das pessoas com quem ele está se reunindo, sabe? Ele cuida desse coletivo muito bem

 

Maranhão – Dois mil e dezesseis também foi o ano em que a gente teve uma consagração nacional, acho que a gente pode dizer assim, do trabalho do Silvero Pereira, que foi com quem você começou sua carreira aqui. Como você vê essa consagração do Silvero?

Jesuíta – Eu acho que ele sempre foi um cara muito consagrado, uma pessoa que nasce com uma grandiosidade. Ele é muito isso, Silvero sempre foi. Quando ele fala, quando ele age, as ações dele, quando ele organiza o trabalho dele. Então, eu sempre fui fascinado. Eu vi esse cara atuando e disse assim: “Eu preciso trabalhar com ele! Eu vou ficar junto desse pessoal”. Porque era um lugar de liberdade que eu nunca tinha experimentado. Liberdade de todos os tipos, sexual, mas não só. Liberdade de falar o que a gente quer, de ser quem a gente quer. E o trabalho dele é muito autêntico. Ele pegou um ambiente marginal e colocou uma elegância, sofisticação junto. Nossa! Eu sou muito fã dele, de verdade. Eu na verdade penso que eu fiquei pouco tempo, eu conheço ele há pouco tempo, trabalhei pouco com o Silvero e com As Travestidas. Mas são as pessoas que estão perto de mim e que eu vou fomentar isso. Essa amizade não vai terminar agora, cara, de jeito nenhum! Me fazem muito bem. Ele é um artista que eu nunca vi igual. Melhor ator de teatro que eu conheço é Silvero Pereira. E melhor pessoa. Diretor, amigo, ele tem muita atitude. Eu acho que as pessoas precisam de atitude, precisam saber organizar as coisas. Ele consegue ter uma visão macro do mundo, da vida dele, das pessoas com quem ele está se reunindo, sabe? Ele cuida desse coletivo muito bem. E isso é bonito, cara. Você cuidar de muita gente, cuidar de você e ainda abrir a possibilidade de  cuidar de outras pessoas, tomar de conta, você precisa de muita atitude para fazer isso, Silvero faz isso bem demais. E aí é bom você ficar perto de uma pessoa assim, porque eu aprendo sempre. Eu fico do lado dele, olho e digo “Nossa Senhora!”

 

Maranhão – Você se emociona ao falar dele.

Jesuíta – Também porque eu sinto saudade, sabe? Mas é um grande padrinho. Assim como é o Joca (Andrade, ator) também, que foi quem eu comecei a fazer teatro. O Joca Andrade, que eu vi um artista, um homem de teatro que vivia da arte dele, um grande pedagogo, que ele é, sabe lidar com as pessoas muito bem, sabe agrupar, sabe ser educado. Eu me encantei. Cara, eu preciso fazer isso. Eu vou fazer isso, vou falar por muitos! E é isso que essas pessoas fazem, Silvero, Joca, os meninos das Travestidas, Denis Lacerda, Veronica Valetino, todos eles, Alicia Pietá. Os que agora são trans, que começaram a sair desse lugar, se questionaram e tal, viram que poderiam ser mulher, sair desse lugar que a gente estipula: menino e menina. E agora entram vários termos: “não-binário”. Isso é tão bonito de questionar. Acho que a sexualidade talvez seja o ambiente de libertação dos mais prósperos , que você questiona e você cria espaço para falar de muitas outras coisas. Este é o trabalho das Travestidas.

 

FORTALEZA, CE, BRASIL, 15-11-2016:Entrevista com o ator Jesuíta Barbosa no hotel Ocean Blue em Fortaleza. (Foto: Júlio Caesar)

 

É um festival que acontece com muita força da Veronica, porque não é fácil acontecer. Não tem  apoio do governo, eles não tem patrocínio de nenhuma empresa, que não querem patrocinar por ser um evento LGBT. E isso é vergonhoso. É isso. A gente se juntou aqui para fazer força, para fazer acontecer. E eu espero que venham mais anos aí na frente. Vou estar junto sempre que puder, porque me faz muito bem.

 

Maranhão – Como está sendo esta experiência de ser jurado do ForRainbow?

Jesuíta – Cara, o melhor convite que eu poderia receber! A Veronica (Guedes, diretora executiva do Festival) convidou e eu disse “Vou, na hora! Eu preciso ir! Preciso participar desse festival”. Eu sabia como era. É um festival alegre. É um festival sem essa profundidade inventada de festivas de cinema, essa coisa extremamente culta, sabe? Não, é um festival muito sincero, pro que vem, pra função dele enquanto resistência, à causa, à luta LGBT. A Veronica faz este festival, junto com a equipe, há 10 anos. Isso é muito, é muito tempo. Então, eu quis vir para comemorar esses 10 anos aqui juntos. Sabia que a Elke (Maravilha, atriz e cantora) ia ser homenageada, sabia dos filmes que estariam na mostra. E foi a minha melhor escolha, sabe? Aqui eu estou perto dos meus amigos, eu estou na cidade que eu mais gosto, que é Fortaleza, a gente está trabalhando juntos, sabe? Convivendo juntos. Eu estou podendo criar coisas. Me juntei com Verónica Valentino e a gente está gravando um clipe para eles, agora, para a (banda) Veronica Decide Morrer. Então, eu acho que em um fluxo em Fortaleza que eu consigo lidar muito bem, melhor que lá no Rio ou em outra cidade que eu não conheço tão bem. E eu quero fazer isso mais, cara. Eu preciso estar nessa cidade mais vezes. Visitar mais cidades do Nordeste, que é o lugar que eu gosto de ficar. E eu acho que o festival tem esse papel importante, de militância, de gritar pelas pessoas que precisam. Acho que faz a gente fomentar a arte aqui. É um festival que acontece com muita força da Veronica, porque não é fácil acontecer. Não tem  apoio do governo, eles não tem patrocínio de nenhuma empresa, que não querem patrocinar por ser um evento LGBT. E isso é vergonhoso. É isso. A gente se juntou aqui para fazer força, para fazer acontecer. E eu espero que venham mais anos aí na frente. Vou estar junto sempre que puder, porque me faz muito bem. Fortaleza é uma cidade que está muito perigosa. Esta onda de violência não está somente nas ruas, mas está inserida na consciência das pessoas que moram aqui. Às vezes não é violento mas todo mundo inventou, estipulou que realmente é violento, e ninguém sai de casa, está uma cidade meio sitiada. E esse evento quando vem, ele vem para agrupar essas pessoas e dizer “olha,a gente existe, vamos ficar juntos, vamos ocupar esse lugar, o Dragão do Mar”. E eu acho que é importante isso. Hoje por exemplo, eu fui para uma praia, que era Praia de Iracema e agora estão chamando Praia dos Crushs, e eu achei ótimo o nome! Porque você reinventa o lugar. Era um lugar que não estava habitado, ninguém ia ali, ninguém tomava banho, conviva ali. E hoje eu fui e vi uma galera jovem, alternativa que chama, né? , descolada, alegre, bonita e convivendo naquele espaço, que as pessoas geralmente pensam que não podem ir porque é perigoso, sabe? A gente precisa perceber Fortaleza como um lugar que precisa ser ocupado, habitado. Eu preciso sair de casa e ver os filmes no festival que está tendo na cidade. Eu preciso sair de casa e conviver ali com os meninos na praia, sabe? Uma cidade banhada por um mar tão bonito e as pessoas se trancam dentro de casa, por medo, por violência. Eu acho que tem que ter mais Praia do Crush para a gente habitar.

Emerson Maranhão

Sobre Emerson Maranhão

É jornalista e realizador audiovisual. Desde 2005 escreve e edita a coluna 'Cena G', publicada semanalmente no jornal O POVO (Fortaleza/CE). Além disso, é editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual do Grupo de Comunicação O POVO, criando, roteirizando e dirigindo webséries e webdocs.

2 thoughts on “Jesuíta bem de perto

  1. Nossa, como admiro esse ator e gosto de vê-lo em cena. Amei a entrevista e fico feliz que ele queira vir mais vezes para Fortaleza. Que venha! 😉

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