Fernando Meireles na capa da Trip de outubro

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“Com alguns jornalistas é preciso ser extracuidadoso. Como os roteiristas, eles não estão a serviço da informação, estão a serviço do conflito e do drama”.

“Não nasci para os holofotes, quanto menos puder ser identificado na rua, melhor”.

“Nossa cabeça é desenhada para compreender o mundo por histórias. As religiões ensinam sua moral contando histórias, crianças aprendem o que é o bem, o mal e tudo mais ouvindo histórias”.

“Apesar dos motivos históricos para tristeza, como os 300 anos de escravidão, sinto que somos um país com inclinação para ser feliz, e nossos consultores não discordam. Olho pela janela e vejo isso. Simples assim”.

“Não é a escala que me move, é o risco da empreitada. Não sei por que sempre me coloco em situações-limite (e aqui excluo o casamento da lista). Criança, enfiava a mão em grade para agradar cachorros que vinham latindo para mim, subia no galho mais alto da árvore… Uma ludoterapeuta na época disse que eu queria me matar, pois me sentia culpado pela morte de um irmão mais velho, que morreu atropelado aos 7 anos [Meirelles tinha apenas 4 anos]. O fato é que me autossabotei muitas vezes na vida, ainda não me livrei disso”.

“Aos 14, tinha pavor da ideia da morte, não podia olhar para o céu à noite. Agora, a cada ano que passa, parece menos assustadora. Talvez seja uma das poucas vantagens de envelhecer, fora o cartão de estacionamento para idoso. A tolerância também aumenta com os anos. Me sinto mais paciente com todo mundo. Pessoas são como vinho, descobri: umas azedam quando envelhecem, outras vão apurando sabores e ficando sábias”.

“Pesa saber que não há mais um tempo enorme pela frente, para fazer besteira e se meter em roubada. Isso muda sua perspectiva. Tempo passou a ser meu bem mais precioso. Em vez de me encher de atividades o tempo todo, como sempre fiz, tento garantir tempos para não fazer nada de ‘produtivo’”

“Diria a mim mesmo para não ser tão tímido como fui. Mandaria confiar mais no meu taco, principalmente com as mulheres. Nunca acreditava que elas pudessem estar dando mole para mim, só percebi isso tarde demais. Minha autoestima era muito baixa. Só depois dos 40 deixei de achar que eu era uma fraude. Se é que deixei de acreditar nisso”.

“Esqueça os suplementos, está provado, o que faz bem para a saúde é amor”.

“O diabo está nos detalhes. Não houve golpe, mas uma tremenda trairagem de um grupo, que viu oportunidade no apoio popular (como mostrou a última eleição) e se juntou para sentar na cadeira”.

“Sim, é possível ser contra o impeachment e ser crítico ao governo Dilma ao mesmo tempo. O Brasil não é um long play, com apenas dois lados”.

“Poderia escrever uma lista das coisas que preferia não ter feito ou vivido. Uma vez, estava sentado no peitoril de um terraço no primeiro andar de uma fazenda. Descascava laranja e dava para a minha filha, que tinha 4 anos e estava no meu colo. Não sei como, ela fez um movimento e se atirou lá embaixo. Tentei agarrar pela roupa, mas escapou. A sensação dessa escapada, o barulho dela batendo no chão e a visão dela imóvel foi talvez o pior momento da minha vida. Até levar para um hospital e saber que estava tudo bem, foi um sufoco. O que eu faria de diferente seria não comer laranja naquele dia”.

MEIRELLES, Fernando, cineasta brasileiro, em entrevista à revista Trip de outubro.

 

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