Entrevista exclusiva com Pedro HMC

Pedro HMC, o ‘entendido’

Nos últimos três anos,  foi praticamente impossível ignorar Pedro HMC. Designer por formação e roteirista profissional de TV,  ele ganhou os holofotes ao criar, junto com o namorado Nelson Sheep, o canal Põe na Roda, um dos maiores do YouTube dedicado à temática LGBT. Hoje, o Põe na Roda tem mais de 560 mil assinantes e seus vídeos já ultrapassaram a marca de 70 milhões e 680 mil visualizações.

Depois de se consolidar como YouTuber, o moço (32 anos!) se lançou em novo desafio: a carreira de escritor. Seu primeiro livro, recém-lançado pela Editora Planeta é intitulado Um livro para ser entendido e ele o define como “um guia de auto-ajuda gay bem humorado para todos os públicos”.

Nesta entrevista exclusiva à Cena G (e ao Blog do Maranhão), Pedro fala sobre o canal, sobre o livro e sobre a vida de digital influencer, e sobre como sendo formado em design acabou atuando profissionalmente como roteirista.

 O POVO – Como surgiu a ideia de escrever “Um livro para ser entendido?

Pedro HMC – Por conta do canal na Internet, eu recebo dezenas, e às vezes centenas, de dúvidas sobre o universo LGBT diariamente em tudo que é rede social. Muitas são curiosidades, outras são verdadeiros pedidos de ajuda. Muita gente querendo saber como se assumir, como eu me assumi, dúvidas sobre mercado de trabalho, sobre como falar para os pais, se é bissexual, como lidar com um amigo gay, como é viver no armário, como argumentar com um religioso conservador, tem pergunta de todo tipo! Ao receber o convite da Editora Planeta pra escrever um livro, e tendo carta branca pra isso, achei que seria muito útil criar quase que um “guia gay” pra quem é e quem não é saber como é ser uma pessoa LGBT. Respondendo as dúvidas mais frequentes não só de quem já é, como quem está se descobrindo e quem é héteros também. Ainda há muita ignorância sore o assunto e pouco material que fale sobre isso. Eu mesmo, se tivesse tido um livro desses quando era adolescente, teria sofrido bem menos e me entendido muito mais fácil. Assim surgiu o livro. A expressão “entendido” do título vem da gíria que era usado pra se referir a gays antigamente (entendido). É definitivamente um assunto que todos precisam entender pra que a gente possa vencer a ignorância que gera tanto preconceito por aí.

OP – Como define esse seu livro de estreia?

Pedro – Diria que é um livro de auto-ajuda gay bem humorado para todos os públicos que querem entender melhor sobre a diversidade.

OP – Até que ponto ser o criador do Põe na Roda te levou a escrever este livro?

Pedro – Acho que só escrevi esse livro por ser o criador do Põe Na Roda. Certeza que o convite da Editora Planeta para escrever a obra não teria surgido de outra forma. A visibilidade do canal ajudou muito a despertar o interesse deles, e me possibilitou essa grande oportunidade de ter uma obra escrita e publicada. O canal foi fundamental porque muito do que eu vivi na minha vida pessoal está lá escrito, mas também muito do que aprendi no canal durante esses três anos produzindo vídeos sobre sexualidade e o nosso universo também está no livro.

OP – Já que falamos no Põe na Roda, como você analisa a trajetória do canal?

Pedro – A gente teve um começo bem meteórico pelo pioneirismo e era algo que eu não esperava e que impulsiona o canal a continuar crescendo até hoje! Acho que por sermos um dos primeiros canais a tratar do tema, muita gente se interessou de cara. Começamos como um canal de humor gay e com o tempo nos transformamos também em um canal de informação onde também temos vídeos sérios, outros de conscientização, algumas séries como é o caso do Ajuda Põe Na Roda em que, com ajuda do Dr. Claudio Picázio, respondemos dúvidas de comportamento e sexualidade. O que eu mais gosto no canal é a diversidade de formatos. já fizemos game-show, esquetes de humor, documentário, entrevistas de rua… E mesmo três anos depois, ainda tem formatos que não consegui estrear até hoje e quero fazer, como um programa que fale de saúde e estética, outro de relacionamentos, enfim, assuntos que não necessariamente falem de sexualidade e preconceito, mas que interessam do público gay principalmente.

“O que eu mais gosto no canal é a diversidade de formatos. já fizemos game-show, esquetes de humor, documentário, entrevistas de rua… E mesmo três anos depois, ainda tem formatos que não consegui estrear até hoje e quero fazer”

OP – Você trabalhou como roteirista no Multishow e também na TV Globo, qual é a sua formação e como você se tornou roteirista?

Pedro – Sabe quando dizem que você não escolhe a profissão, mas a profissão te escolhe? Minha formação como roteirista foi quase intuitiva, porque academicamente me formei como designer digital e gráfico. Através do trabalho como designer, fui fazer uns materiais gráficos de peças, programas de TV, e com isso acabei me envolvendo na área. Se pudesse voltar no tempo, gostaria de ter pensado em ser roteirista antes de escolher a faculdade, mas na época eu fazia sites e tudo que me ocorreu era ser designer (rs), mal sabia. Mesmo trabalhando em agência de publicidade, site de loja virtual, tinha ideias que me vinham e escrevia textos pra amigos que faziam peças, shows de humor em bar… Mal percebi quando foi virando profissão e fui largando design de lado. E aí com o tempo, por indicações, veio minha primeira oportunidade trabalhando de fato como roteirista na MTV Brasil, onde escrevi o jornal humorístico Furo MTV durante 3 anos e foi uma grande escola pra projetos que fiz depois, como uma coluna de humor na Folha, roteiros no CQC, Amor & Sexo e Adnight. Como minha formação não foi exatamente formal na área, busquei ler vários livros sobre roteiro, porque não adianta só ter ideias boas, a técnica ajuda muito.

OP – Como está sendo a experiência de ser digital influencer? Como você, que já trabalhou com publicidade, avalia este novo nicho de mercado?

Pedro – Já tendo trabalhado com publicidade, vejo sendo uma oportunidade enorme que está somente começando a ser descoberta pelo mercado. Quando você anuncia em TV, revista, jornal, na mídia tradicional, normalmente gasta muito mais e tem muito menos controle sobre quantas pessoas de fato foram impactadas pela sua publicidade, quantas interagiram com ela, etc. Trabalhando com digital influencers, você consegue saber exatamente qual o público que você está atingindo, quantas pessoas de fato compraram seu produto a partir daquilo, enfim, dá pra mensurar tudo de maneira mais precisa. Em três anos sinto uma abertura maior e cada vez menos preconceito e medo do mercado publicitário em relação ao canal, ainda que isso seja bem presente mesmo hoje. Já conseguimos fazer algumas ações patrocinadas dentro do Põe Na Roda com marcas como Netflix, Asus, Meliuz, mas é fato que só estamos começando esse caminho. A maior parte do mercado ainda reflete o medo e conservadorismo da maior parte da sociedade e tem bastante resistência pra anunciar em veículos que falem de assuntos como o nosso. Tenho certeza que, com nossos números, a gente conseguiria se manter muito melhor se não fosse um canal gay. Ainda há o medo de assustar a família tradicional, o consumidor padrão, os conservadores, e claro, o preconceito mesmo que está presente na sociedade, e consequentemente, dentro das agências de publicidades e nas marcas.

“Tenho certeza que, com nossos números, a gente conseguiria se manter muito melhor se não fosse um canal gay. Ainda há o medo de assustar a família tradicional, o consumidor padrão”

 

 

 

 

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