A cegueira para além do espelho

A polêmica em torno da exposição Queermuseu é um dos mais agudos sintomas dos males que afligem nossa sociedade. E hão de concordar com esta afirmação tantos os indignados com as “obras que celebram o bestialismo e a pedofilia” quanto os revoltados contra “o absurdo atentado à liberdade de expressão” que o caso traz em si. Sim, porque os primeiros enxergarão na assertiva uma clara referência ao teor das obras artísticas. Já os segundos lerão a menção ao ato da censura de seu desdobramento. Os dias são assim. Ainda que olhemos para um mesmo ponto, cada um só vê o que quer.

A extrema polarização que tomou conta do País nos faz a todos personagens de Assim É (Se lhe Parece), uma das obras primas do dramaturgo italiano Luigi Pirandello.  Da mesma maneira que a busca desenfreada por encontrar em outras obras de arte “vestígios da promoção da amoralidade” ou identificar “Torquemadas pós-modernos” nos leva para as páginas de O Alienista, do mestre Machado de Assis. Ou seja, o perigo é o outro, o que não nos espelha, aquele que não sou eu nem comunga do meu pensar.

Houvesse ainda algum espaço para sobriedade do juízo teríamos aprendido com Pirandello a impossibilidade de existir uma visão única da realidade; teríamos entendido com Machado dos riscos de medir o mundo com nossa régua, ainda que com boas intenções. Já teríamos, enfim, compreendido que a normalidade transcende nossas certezas e dogmas. Mas, qual Narciso, optamos por pagar o preço do encantamento por nosso próprio reflexo.

Émerson Maranhão é Editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual

Emerson Maranhão

Sobre Emerson Maranhão

É jornalista e realizador audiovisual. Desde 2005 escreve e edita a coluna 'Cena G', publicada semanalmente no jornal O POVO (Fortaleza/CE). Além disso, é editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual do Grupo de Comunicação O POVO, criando, roteirizando e dirigindo webséries e webdocs.

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