Carta de Intenções

natal
“Vasculho o corpo do outro, como se quisesse ver o que tem dentro, como se a causa mecânica do meu desejo estivesse no corpo adverso (me pareço com esses garotos que desmontam um despertador para saber o que é o tempo)”
Roland Barthes in Fragmentos de um discurso amoroso

Na bela canção Futuros Amantes, Chico Buarque de Holanda serena os afobados. “O amor não tem pressa. Ele pode esperar em silêncio, num fundo de armário, na posta restante”. Estes versos sintetizam o conceito do projeto Natal: A Arte do Reencontro. Nele, nos debruçamos sobre histórias reais de pessoas que embora na vida adulta tenham seguido outras afeições, resgataram, de algum escaninho da alma, a memória de seu amor antigo (e o ressuscitaram), como um dia disse Fernando Pessoa, outro grande artífice da Língua.

Estabelecida a essência, o desafio audiovisual foi transbordá-la, mais que apenas traduzi-la em imagens em movimento. O que implicou decisões difíceis, em busca de soluções delicadas. O resultado pode ser conferido na websérie homônima, composta por cinco episódios, autônomos e complementares, disponível a partir de hoje no canal de vídeos do O POVO.

A narrativa baseia-se em dois eixos. O primeiro é formado por relatos dos personagens documentados. Cada um dos integrantes dos quatro casais participantes do projeto conta, individualmente, como se conheceram, como formaram um par romântico, como se separaram e como, anos depois, seus caminhos voltaram a se cruzar. Na edição, o relato de um é pontuado pelas memórias do outro, criando assim um “diálogo” entre as lembranças de ambos, onde se espelham versões dos mesmos fatos a partir de pontos de vistas distintos.

O outro eixo é formado pelo que chamamos de sequências de transição. São cenas gravadas em lugares de impermanência por definição. Aeroporto, rodoviária, estações de metrô, terminais urbanos. Espaços físicos destinados àqueles em trânsito, de passagem, indo ou chegando, nunca se estabelecendo.

Estes dois eixos se unem na estrutura dramática dos episódios. Cada um dos capítulos é formado por três atos: Encontro, Desencontro e Reencontro, com os depoimentos dos casais. Cada ato é encerrado por uma sequência de transição. Estas sequências trazem ainda citações literárias “comentando” acontecimentos relatados pelos entrevistados ou antecipando o teor do que será narrado no ato seguinte.

As citações foram extraídas do livro Fragmentos de um discurso amoroso, do escritor e semiólogo francês Roland Barthes (a quem também recorro providencialmente na epígrafe que abre este texto). E a escolha das citações foi uma das tais decisões difíceis que citei lá no começo. Primeiro, resistir à tentação fácil de usar os versos de Chico Buarque em Futuros Amantes ou até mesmo se valer desta canção na trilha sonora da websérie.

A recusa a este artifício deriva do conceito do transbordar, para além do mero traduzir. Se estava posto do que trataríamos, se sintetizamos nossa intenção nos versos de Chico, por que não ampliarmos esta compreensão ao estabelecer conexões possíveis com outras criações artísticas? Assim, a partir desta inquietação, começa a se estabelecer, a se construir o discurso sígnico de Natal – A Arte do Reencontro. E se definem as funções dramáticas de seus dois eixos narrativos.

Há o eixo que conduz a ação, que relata os acontecimentos (portanto, tem caráter discursivo), e há o eixo das subliminaridades, do encantamento (de caráter metafórico). O segundo eixo se constitui de metáforas que se estabelecem no “não-lugar” onde as cenas das sequências de transição se dão, e passam pela percepção temporal distorcida dos amantes, presente na representação alterada do tempo em algumas situações.

Os comentários de Barthes, um dos mais importantes pensadores contemporâneos, sinalizam para a universalidade e atemporalidade de histórias aparentemente tão pessoais e datadas (abrangência que é reforçada visualmente pelos muitos que embarcam e desembarcam, perpetuamente em busca de) e ao mesmo tempo servem de intervalos narrativos para a reflexão/absorção do que é dito.

Enfim, tudo isso para mostrar que muito de nós está ali, naquelas histórias que estão sendo contadas por seus protagonistas. Que apesar de serem deles os relatos, aqueles sentimentos transbordam e nos chegam, porque também existem aqui, dentro de nós, de mim e de você, caro leitor.

Voltando a Roland Barthes, e à sua citação que abre este texto, brinquei aqui de desmontar o despertador para tentar descobrir o tempo. Desconfio inexistir nudez mais absoluta que a de um criador ao explicitar as intenções de sua obra. Pois eis-me aqui, panoramicamente desnudo, despido, pelado. Espero que tamanha exposição tenha valido a pena. Espero que desperte em você a vontade de ver (ou rever) nossa websérie.

Émerson Maranhão é editor de conteúdo do Núcleo de Audiovisual

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