“Quem é mesmo é não sou!”

30semana

O verso acima, extraído da canção Canto de Ossanha, um dos mais famosos afrossambas compostos por Vinícius de Moraes e Baden Powel, serve de tradução para duas cenas emblemáticas da semana. Na quarta-feira, 26, a estudante Ana Julia Ribeiro, 16 anos, ocupou o púlpito da Assembleia Legislativa do Paraná para defender as ocupações das escolas no Estado. Sua performance calou os parlamentares que ocupavam o plenário. Com poder argumentativo, raciocínio e altivez raros, Ana Julia materializou todos os temores dos que defendem que não cabe às escolas estimular o senso crítico nem a autonomia intelectual de alunos.

No mesmo dia, o estilista Ronaldo Fraga apresentou a nova coleção de sua grife na São Paulo Fashion Week. No casting, só mulheres transexuais. “Se o corpo, para as trans, é uma prisão, aqui a roupa é instrumento de libertação”, explicou Fraga. Assim como no discurso de Ana Julia, a centenas de quilômetros daquela passarela, o impacto do desfile de Fraga se deu pelo que dele transcendia.

Tanto em um quanto no outro foi a antítese entre expectativa e a materialização do discurso que fundamentou a comoção que deles resultou. Negação do mero simulacro em si, ambos revelaram-se avessos do que aparentavam. Ana Julia por ser prova real, com seu brilhantismo, do ‘risco’ que a educação representa; e Ronaldo por garantir que o feminino está além da genitália. “O homem que diz sou não é / Porque quem é mesmo é não sou”, anteviu o Poetinha.

Por Émerson Maranhão, editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual

 

 

Emerson Maranhão

Sobre Emerson Maranhão

É jornalista e realizador audiovisual. Desde 2005 escreve e edita a coluna 'Cena G', publicada semanalmente no jornal O POVO (Fortaleza/CE). Além disso, é editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual do Grupo de Comunicação O POVO, criando, roteirizando e dirigindo webséries e webdocs.

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