20.01.11 11:54
A Coluna Política de hoje explica os motivos que deixaram a Funasa exposta à corrupção
POR DENTRO DA FUNASA
O escândalo envolvendo desvio de meio bilhão da Funasa oferece a base para uma discussão essencial que o Brasil continua se recusando a colocar na pauta política. Por que o absurdo se deu na Funasa, instituição criada para “promover a inclusão social por meio de ações de saneamento” e também “responsável pela promoção e proteção à saúde dos povos indígenas”? Atentem que é da saúde pública a montanha de dinheiro sob suspeita de ter sido desviada. Mas, por que a Funasa? Certamente, a corrupção que perdura por lá tem forte relação com a forma como são preenchidos os cargos de comando da instituição. A Funasa, órgão que por suas características deveria ter condução técnica, é exposto em praça pública para matar a fome dos predadores da política. Mas, sempre foi assim? Não, não foi. Foi a gestão de Luis Inácio Lula da Silva que deixou essa herança maldita para o País. Veja a explicação a seguir.
BASTA UMA PALAVRA
Nesse ponto, Lula desgraçou uma boa herança deixada por Fernando Henrique Cardoso. Antes era assim: o comando nacional da Funasa e todos os seus coordenadores regionais tinham de ser obrigatoriamente funcionários de carreira. Ou seja, servidor concursado. Além disso, o indicado precisava ter em seu currículo pelo menos cinco anos de experiência em cargos de direção. E o que fez o Governo Lula? Simples: providenciou-se uma pequena mudança na regra. Em vez de obrigatoriamente servidor de carreira um novo decreto estabeleceu que o indicado para ocupar o comando seria “preferencialmente” um servidor de carreira. Pronto. Tudo resolvido. Como a política é a arte de ocupar os espaços todos os espaços foram ocupados por políticos. O mérito que se lixe. Assim, a Funasa passou a ser dirigida por interesses políticos. Daí chega-se facilmente ao meio bilhão de reais desviados dos mais pobres.
UMA CANETADA RESOLVE
Quando ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff proferiu a seguinte frase: “A grande questão no Brasil é instituir a meritocracia no Estado, o profissionalismo”. Aplausos. Isso foi em 2009. A ministra virou presidente da República. Está com os talheres e com o prato em sua frente. Pode, com um simples decreto, desfazer a desgraceira que seu antecessor fez na Funasa e em outros órgãos federais. Dilma o fará? A tarefa é dificílima. É preciso coragem e, principalmente, força política para romper com o atraso. Nesse caso, atraso apadrinhado pelo próprio partido da presidente e pela maior sigla a lhe fornece apoio no Congresso Nacional, o sagaz PMDB, que virou donatário da capitania Funasa.
O ESTADO E O BOLSO DO REI
No Brasil, o ocupante do cargo de confiança costuma ser mais fiel ao chefe da administração do que ao interesse do Estado. Trata-se de uma cultura política do Brasil colonial, quando “o patrimônio do Estado confundia-se com o do rei e a administração era uma extensão da casa do soberano… Nesse Estado patrimonialista, as nomeações e promoções eram feitas à base do nepotismo e do apadrinhamento, e não por mérito ou competência. Essa situação persistiu por todo o Império” (FSP de 15/2/2009). Alguma semelhança com o que ocorre hoje em muitas prefeituras Brasil afora? Sim, muitas. O problema ganha uma dimensão ainda mais pecaminosa quando se sabe que as cortes de contas criadas para fiscalizar tecnicamente as gestões têmseus dirigentes oriundos da política e são apadrinhados por políticos. Em tempo: determinar que o cargo de confiança seja ocupado somente por um servidor concursado não elimina o problema, mas certamente é uma vacina que ajuda muito a diminuir a corrupção.
Fábio Campos
fabiocampos@opovo.com.br
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Comentários | 2 Comentários
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Francisco Valderi Carvalho 24.01.11 | 21:54
Fábio Campos! qual foi o critério, meios, fontes, documentos ou pessoa que provocaram esse desvio de ral? E qual foi o meio que Você utilizou para noticiar esse desvio de meio bilhão de reais da FUNASA? Através de qual canal, fonte ou meio houve esse desvio?…
Até parece que Vocês estão fazendo parte do PIG?
Eu admiro muito a imprensa livre mas essa que Vocês estão se utilizando, é imparcial demais e sem respeito. Queria que houvesse punição para notícia malfadada, mal intencionada, imparcial, tendenciosa e partidária, como essa aí que Vocês estão se utilizando.O povo Brasileiro não merece mais isto não. Vocês precisam mostrar ao povo, notícias boas e ruim mas com fundamentos.Está no tempo da mídia raivosa se colocar no seu devido lugar. Eu não aguento mais ver tanta injustiça praticada por essa imprensa raivosa e invejosa, não!. Cada macaco no seu galho!
Lucas 25.01.11 | 13:18
Muito boa a análise. O Brasil precisa adotar a meritocracia e deixar o critério político somente para os cargos de Ministros e Secretários, nunca para a direção de fundações públicas ou cortes de quaisquer natureza, seja no âmbito dos tribunais superiores, seja no âmbito do tribunal de contas.
Se a Administração Pública continuar a perder o crédito de que pouco dispõe, não demorará muito para que o Poder seja tomado a força – de novo.