Um alerta e a pressão da bancada evangélica

Com o título “O Triunfo da religião?”, eis artigo da professora Sandra Helena, da Universidade de Fortaleza. Ela aborda as idas e vindas do governo federal diante de pressões da bancada evangélica. Confira:

“Seja realista, peça o impossível”. Volto mais uma vez à sugestiva frase dos muros do maio de 68 em Paris. Se considerarmos que o sentido de uma ação se esclarece a partir dos meios empregados para atingir um fim, a ação política contém uma ambiguidade peculiaríssima: seus fins são, via de regra, justificáveis ou não, do ponto de vista dos ideais, ideologicamente, como se costuma dizer, enquanto os meios o são instrumentalmente, a saber, do ponto de vista de sua capacidade de alcançar esses fins.

Sim é isso mesmo: os fins justificam meios. Se isso é discutível em termos da moralidade privada, é incontornável no âmbito do “ethos” da política. Creio que foi por isso que Aristóteles recusou o idealismo de Platão e sentenciou que ou o ideal é atingível para o comum dos homens, ou permanecerá apenas um ideal impossível. Considerar a política como arte do possível, entretanto, nem de longe significa cair no colo de um pragmatismo tosco, o tipo das “políticas do real” que amiúde vemos por aqui e por ali.

Indiscutivelmente, os governos Lula, e agora Dilma, reposicionaram um ideal até bem pouco tempo tomado como impossível: erradicação da fome e da miséria extrema em nosso País. A isso Dilma acrescentou o saudável ideal de País de classe média. É sobretudo em função desses fins supremos que se deve julgar a maior ou menor racionalidade das alianças, das estratégias político-administrativas e dos resultados. Ok.

O visível constrangimento do ministro Gilberto Carvalho pedindo “perdão”, pasmem, à bancada evangélica por declarações bastante razoáveis durante o Fórum Social em Porto Alegre, quando mencionou a necessidade de o Estado disputar ideologicamente a chamada nova classe C, (o que é que tem demais nisso?) não deve passar em branco. Aos poucos vemos um silencioso-ruidoso crescimento da intolerância religiosa mais obscurantista, alimentando-se justamente da laicização do Estado que os mesmos atores combatem.

Podemos estar criando corvos. Em plena aurora do século XXI, quando as clínicas de medicina reprodutiva fazem cotidianamente diagnóstico genético pré-implantação selecionando os melhores embriões para diminuir riscos na gravidez, uma ministra não pode nem mencionar a palavra aborto que um bispo a chama de “mal-amada”. Depois do STF julgar legítima a união homoafetiva, o belo vídeo do Ministério da Saúde tem que ser retirado do ar. Do perdão podemos passar à heresia.

O poder de barganha da bancada de Deus assombra o governo como um espectro. Até aqui os compromissos de segundo turno têm sido honrados. Mas é bom considerar que, quando a religião institucional triunfa, todos perdem. Exemplos não faltam. É tempo e hora de voltar a exigir o impossível, ampliando os fins, readequando os meios. É preciso não temer os religiosos. É sim preciso enfrentá-los no campo democrático, nos debates, nos referendos, nos plebiscitos, nos parlamentos. É hora de ver se o fim, nesse caso, realmente justifica o acovardado meio. Deus? Não temais. Ele não tem nada a ver com isso.

* Sandra Helena de Souza

sandraelena@uol.com.br

Professora de Filosofia e Ética da Unifor

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6 Resposta(s) para “Um alerta e a pressão da bancada evangélica”

  1. Excelente artigo que transmite muita sabedoria.
    Parabéns, professora!

  2. Se o Estado é laico para que tanta subserviência do governo a esta bancada religiosa fundamentalista. Parabéns a professora Sandra pelo belo e lúcido artigo.

  3. Não usar meu nome em vão. Neste últimos tempos infelizmente é o que mais se ver.

  4. O artigo está muito bem escrito e direcionado. Mas como a academia se alimenta da crítica e do embate de ideias, sinto-me no direito de levantar algumas questões.
    Vou me deter primeiro na fixação da articulista no que concerne a um possível “enfrentamento” ao avanço dos evangélicos. Até parece que os filósofos e analistas genéricos de plantão esquecem que o país é laico, mas jamais foi ateísta. Lembremo-nos dos séculos de dominação e hegemonia da Igreja Católica, que influenciou em praticamente todas as vertentes da vida do país. Não ouvi nenhuma citação da nobre mestra, por exemplo, quanto à ocupação dos espaços públicos de praças para a construção de Igrejas Católicas ou de monumentos gigantescos, tudo isso com dinheiro público. Ninguém quis debater o fato do Governo do Estado ter investido alguns milhões para a recente recuperação da Igreja do Seminários da Prainha. Outra exemplo interessante é que a maioria esmagadora dos feriados no Brasil foram “impostos” pela doutrina católica. Esta é ou não uma interferência direta na vida política dos brasileiros?
    Poderia passar horas discorrendo sobre casos que beiram o ridículo. No entanto, basta uma manifestação dos evangélicos na política, que o mundo acaba e os intelectuais deixam suas cavernas para emitir suas opiniões “sem paixões”.
    O que o Ministro da Casa Civil fez, foi somente reconhecer o valor de um grupo, que é legítimo, e que foi incluído quando da eleição da Presidente Dilma e do Governador Cid Gomes, também.
    Se manter a coerência ideológica do que pensam e do que pregam anda tão fora de moda, como no caso do PT, que acaba de assinar a demissão de servidores públicos em greve, aqui em Fortaleza, então vamos mesmo achincalhar os evangélicos. Afinal, eles ainda são a minoria e o alvo preferencial dos preconceituosos.
    Quiças um dia veremos a Academia, já tão carcomida por ideais estagnados (o que contraria a sua função mor), poder observar, sem paixões, o que realmente há por trás de atos como este do Ministro Chefe da Casa Civil. Chegaremos lá.

  5. Sou cotólico,mas ainda bem que a bancada evangélica é muito forte no congresso e consegue impedir que esses ideais libertinos dessa esquerda fajuta se transformem em lei.
    Tenho dito..
    E PT fraudações

  6. “Deus não tem nada a ver com isso.”
    Um bordão repetido de forma arrogante quando o assunto lhe favorece.
    É fácil se dizer que Deus não tem nada a ver com isso, quando queremos fazer algo que nossa consciência nos prega a peça de, lá no fundo, nos assombrar.
    Sabe, certa vez ouvi alguém a falar: Onde Deus está quando milhares morrem em um desabamento? Onde Deus está quando uma certa enchente destrói moradias e arrrasa com lavouras? Porque Deus não faz nada se é Todo Poderoso? Nessas horas, esse mesmo Deus descartável tem tudo a ver com isso!
    É incrível, como o ser humano tem a capacidade de fazer tudo perfeito, sem precisar desse Deus ditador que fala: “Não matarás”, enquanto milhões morrem. Essse Deus que diz: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”, e permite que tanta gente seja engodada? Mas, o mais incrível ainda é que este ser ‘absoluto, auto suficiente, arrogante’ (aqui não estou falando de Deus) não percebe a inversão dos fatos: Se é para matar fetos, Deus é deixado de fora e qualquer um que decida se opor contra tal feito é taxado de fanático. Se é pra resolver os problemas que a sociedade cria e se emaranha Deus é um Deus irresponsável. Se é para enganar o povo, Deus não precisa estar por perto. Afinal, o que Deus vai fazer no meio da política? Deixa Ele lá no céu mesmo, curtindo sua soberania! Se precisar visitar uma igreja evangélica para arrecadar votos, aí sim, chamamos ele, seremos o mais fiel de seus discípulos! Mas por favor Deus, vira o rosto quando eu meter a mão no bolso do trabalhador! Ah Deus! Quando eu for eleito usa teus poderes e faz uma barreira invisível naquela serra desmatada: No meu mandato não quero desabamento. Mas também não quero gastar muito em infra-estrutura!
    Tenha santa paciência! Quando a chamada “Bancada Evangélica” se manifesta o povo urra em meio a ataques por medo de que? Quando eles estão lá para defender o interesse do próprio povo! Quando alguém de forma lúcida e de boa fé tem o senso de usar de educação e cordialidade com essa ‘bancada’ o pavor toma conta. Tem medo de que amiga? De uma nova ‘Caça às Bruxas’? Deveria temer o rumo que as coisas estão tomando, isso sim. Ainda bem que temos eles lá para dá uma freada em certos projetos que contaminam a humanidade. A imoralidade e a inversão de valores a banalidade e a dissimulação têm tomado conta de nosso pais. E em forma de lei.
    Aí se faz como aquela criança que fecha os olhos na esperança de não ser vista fazendo algo errado e quando tropeça e cai arregala os olhos e grita pela mãe. Pois é: vamos destruir o planeta, que se algo der errado colocamos a culpa em Deus. Vamos apoiar o aborto, se algo der errado estamos debaixo da lei e clamaremos por esse mesmo Deus. Ou seja: Em meio a tantos assuntos ecos-sustentáveis Deus seria um produto reciclável? Usamos, jogamos fora e depois catamos para transformá-lo em algo útil novamente.

    Ainda bem que não sou Deus, pois ô papel difícil!

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