“Ócio não é preguiça”, explica padre em debate na Rádio O POVO/CBN

Padre Francileudo, professor da FCF, o primeiro doutor em psicologia formado no Ceará, participou nesta terça-feira, dia 2 de março, do programa Debates do Povo, com Plínio Bortolotti, na Rádio O Povo/CBN. “Ócio e sociedade contemporânea”  foi o tema que norteou o debate que teve ainda como convidados os sociólogos Marcos Colares e Carla Michele Quaresma. O tema faz referência ao livro recém lançado pelo sacerdote em co-autoria com o professor Clerton de Oliveira Martins, “Sentidos do Tempo, Sentidos do Ócio, Sentidos para o Viver”, com primeira tiragem esgotada.

Estúdio da Rádio O POVO /CBN. Foto: Alan.
Estúdio da Rádio O POVO /CBN. Foto: Alan.

“O livro compreende os conceitos de termos fundamentais como tempo, ócio e descanso. Fizemos também a contextualização dos tempos em que estamos vivendo. Tivemos a preocupação de fazer uma fundamentação antropológica, desde a antiguidade clássica aos nossos dias. Por fim trabalhamos a experiência de ócio em Aristóteles, onde aprendemos que é impossível filosofar se não houver tempo para ser’, explicou padre Francileudo sobre os conteúdos de sua tese de doutorado que deu origem ao livro.

A socióloga Carla Michele destacou o fato de, hoje, as pessoas não pararem. “Na antiguidade o ócio – para um grupo seleto –  era condição para a atividade política e a ética. Durante todo o período antigo o ócio era considerado  uma virtude, coisa que deixou de ser no final da Idade Média, quando  passou a ser tratado como um vício”.

Marcos Colares comenta que na atualidade “tudo virou trabalho, até o tempo livre”. “O tempo para si, para contemplar, para, de alguma forma, crescer individualmente…Não chegamos a ele. Na antiguidade ainda se permitia ter o ócio, pois através dele se chegava às idéias inovadoras. O ócio nos permite chegar às conclusões que não conseguimos no tempo de trabalho”, arremata o sociólogo.

A modernidade trouxe uma compreensão errônea do ócio que o associa à preguiça, moleza, sempre visto a partir de um olhar negativo. “O ócio é por excelência o tempo de ser, de fazer a experiência, de contemplar a existência. Ócio tem a ver com qualidade de vida, de gastar  tempo com as pessoas que amamos”, disse o padre.

A atualidade trouxe novos grilhões para as pessoas. “As novas tecnologias, por exemplo, nos prenderam para além de nosso tempo de trabalho. Acabamos estendendo nossas atividades. Isso atinge também as crianças que diariamente cumprem uma agenda de atividades exigentes”, comentou Carla Michele.

Mais sobre a obra:

A obra propõe que, em função do diagnóstico da nossa contemporaneidade, se torna crucial uma valorização do ócio, o qual implica uma experiência desacelerada do tempo, a desconstrução da tirania da ideologia utilitária e consumista na qual se dilui, a favor do primeiro termo, a distinção entre meios e fins e, finalmente, o caminho de apropriação duma liberdade que torna a nossa identidade mais compacta e próxima, liberdade que não se reduz à capacidade de operar escolhas entre alternativas, mas se revela na coragem de criar e discernir o alternativo. A gratificação da experiência do gratuito, que está no cerne do ócio, revela-se, neste sentido, como uma possibilidade de enfrentar e transformar um mundo cuja desorientação nos aprisiona numa vida sem sentido existencial.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *