No Natal entre o velho e o Novo

As Sete Crônicas de Natal – 1

 Estamos às vésperas de mais um Natal, festa que foi transformada pouco a pouco em mero período para esquentar vendas no comércio e oportunidade para se fazer atos de solidariedade, que, não poucas vezes, funcionam como desencargo de consciência frente aos inúmeros omitidos nos últimos onze meses.

A Por este período a cor da vez é o vermelho e um personagem surge de todos os lugares, espelha nas vitrines, é dependurado como enfeite, é atrelado às guirlandas e mesmo sob um sol inclemente, como o do Nordeste, desafia-o com suas roupas polares e chega, inclusive a receber as chaves de cidades. Trata-se do bom velhinho de barbas brancas e longa que se tornou o símbolo oficial da grande festa do dia 25.

O cândido velhinho recebera suas vestes vermelhas e brancas adicionado de um gorro no final do século XIX, graças a uma peça publicitária de marca de refrigerante mundial e de lá para cá só conseguiu angariar simpatia. Aos poucos escanteou o verdadeiro sentido de uma festa tão bela e de significado profundo. Noel tornou-se representante de um Natal deformado e anemizado.

 Costuma-se colocar como substrato do personagem senil a figura de são Nicolau, bispo que viveu no início do Cristianismo, mas de há muito tempo distanciou-se Papai-Noel de nosso santo.

 No Natal trava-se uma verdadeira batalha, não diferente do combate descrito por São Paulo, em suas cartas, entre o velho e o Novo. De um lado temos o velho, que se nos apresenta na figura singela do doce Noel; do outro temos Jesus Menino, Homem-Deus, o Novo, a salvação para o mundo. O primeiro nos rouba de contemplar o segundo, aponta somente para as coisas da terra, apregoeiro contumaz do materialismo e do consumismo.

A mentalidade desta época incute já nas mentes infantes que só merece presente quem tiver sido bom menino ao longo do ano, mentalidade impiedosa interpretada pelos adultos e assumida como máxima em seus relacionamentos que prodigaliza de bens exclusivamente os seus pares. Nessa perspectiva não há mais lugar para o perdão e para o acolhimento do fraco.

Em contrapartida ao velho, carinhosa e perigosamente chamado de velhinho, desponta o Novo, o Sol nascente ‘que há de iluminar os que jazem nas trevas’[1]. Este aponta para o céu, pois dele veio, na verdade, Nele está o próprio céu. Por sua encarnação assumiu nossa humanidade em tudo, com exceção do pecado. Quer nos indicar o caminho da pequenez à altivez; por sua total dependência à vontade do Pai nos ensina a feliz dependência a que todos somos convidados a viver.

Enquanto o velho sugere simplesmente receber, como gesto de satisfação, o Novo nos abaliza a senda do doar-se, única capaz de nos levar à perfeita felicidade, desejo de todo homem; O velho alça vôo em sua carruagem esplendente, enquanto o Novo toca a terra com sua pobreza salvífica; O ancião epulão que remete a uma vida de mandriice incentiva a todos, através de sua milícia vista à exaustão nas lojas, esquinas e comerciais de TV a enfiarem-se nas compras dos mais diversos produtos, afinal não precisa pagar agora, já o Menino Deus, abandonado nas mãos de José e Maria testemunha a providência divina que cuida daqueles que se fazem como criança e que esperam tudo de seu beneplácito.

 Na escuridão da noite desce às escondidas pelos telhados e chaminés o velho barbado, enquanto que o Novo pretende declinar-Se às profundezas do coração do homem, endurecido pelo egoísmo, individualismo e relativismo. Um tanto de gente é tragada pelo pensamento artificioso que reduz o Natal a uma mera festa pagã, cujo verdadeiro significado é estilhaçado anualmente.

Nesta batalha vence o homem que consegue discernir o velho e o novo dentro de si. Este homem compreende a necessidade de contemplar a encarnação do Verbo para entender a si próprio e compreender o imenso amor de um Deus que se fez homem e se encarnou no seio de uma Virgem, Nossa Senhora.

Enquanto o velhinho embrenha-se numa terra gelada, subtraída de luz, o Menino Deus resplandece glorioso dissipando e acalmando a mais violenta das intempéries, transformando a pior condição de inverno da alma em alvorecer de um novo dia, assim como Ele mesmo o foi para a humanidade que permanecia na morte.

Na história do Menino Jesus, lemos que Herodes ao ter notícia de seu nascimento buscou matá-lo. O velho encheu-se de medo de um Menino e a única saída encontrada foi o extermínio deste, não poupando inclusive de dizimar milhares de inocentes para saciar seu desejo mórbido de apagar da história Aquele do qual asseveravam os profetas era o Rei, o messias esperado.

O velho Noel parece persistir na mesma intenção do velho Herodes e a perseguição ao Menino, que é o Novo de Deus, a nossa própria salvação intensifica-se. Cabe aos cristãos resistir, primeiro pela oração, pela contemplação do mistério da Encarnação que revela o imenso amor de Deus por cada um de nós.

 Em segundo lugar se nos é exigido uma consciência crítica e clara acerca das realidades que nos cercam e não poucas vezes tentam nos roubar do essencial. Não deixemos que o velho neste Natal nos impeça de ver o novo; Não permitemos que o receber sobreponha-se ao doar-se e que o clima frio e artificial sufoque a Luz e a naturalidade própria do Natal do Senhor, o Novo.

Vanderlúcio Souza

Sobre Vanderlúcio Souza

No ANCORADOURO busco reproduzir temas do cotidiano à luz dos princípios e valores cristãos. Sou blogueiro e tuiteiro apaixonado por comunicação. Como católico busco ser um colaborador da verdade como convidou o papa emérito Bento XVI. Sou engajado na Igreja desde minha infância.

Um comentário sobre “No Natal entre o velho e o Novo

  1. Nossas contradições de Natal

    Uma grande parcela de nós, cristãos ocidentais, comemora o nascimento de Jesus Cristo bebendo rios de álcool, cheirando dunas de cocaína, montanhas de ecxtase e dirigindo embriagados nossos possantes automóveis procurando um cristão desgarrado para, do alto de nossa irresponsabilidade etílica, esmigalhar-lhe o crânio com nossas rodas de liga metálica… Na tresloucada festa, com tantos meninos-Jesus chorando de fome nas favelas do país, aqui e acolá algum cristão estará abrindo o bucho de outro com uma peixeira ou destroçando-lhe os miolos com balas dum-dum – o tétrico saldo é divulgado nos jornais para deleite dos necrófilos de todos os matizes. Há, naturalmente, aqueles que não são chegados a violências e preferem passar a noite de Natal num site de pornografia – ou, mais apropriadamente, de pedofilia?! Quantos meninos-Jesus-mercadoria serão consumidos nessas redes infernais na santa noite do Natal?

    O Ocidente é ao mesmo tempo cristão e capitalista e, portanto, uma contradição nos termos. Apesar das tentativas de alguns setores cristãos (protestantes e católicos) de justificar e legitimar as riquezas permanece o fato, inescapável, que Jesus Cristo – o dono da festa – as desprezava. E as desprezava a ponto de colocá-las como antítese e condição de impossibilidade de servir a Deus. Disse o Mestre: “Não acumuleis tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar. Acumulai tesouros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem os corroem, nem os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar [...] ninguém pode servir a dois senhores, porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas”. (Mateus 6, 19-24).

    Após a gastança desenfreada nos dias que antecedem a festa (um arroubo consumista irracional enquanto tantos não têm sequer “onde repousar cabeça”) na noite de Natal essa contradição chega ao paroxismo. Tanta fartura é uma afronta à multidão de excluídos sociais – uma multidão de “irmãos em Cristo” esfomeados. Enquanto a festa do menino Jesus corre solta nos nossos palácios de mármore e vidro fumê (construídos com o trabalho escravo de nossos irmãos menos favorecidos) com nossos punhos de renda, nossos colares de pérolas, nossos diamantes e rubis; nossos vinhos franceses e queijos roquefort; nozes e perus sadia; esquecemos solenemente outras palavras do Cristo: “Quando deres um almoço ou um jantar, não convides nem os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos; não vão eles também convidar-te por sua vez, retribuindo-te assim. Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. E serás feliz por eles não terem com que te retribuir; ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos” (Lucas 13, 12-14).

    Por tudo isso, se na noite do Natal um menino maltrapilho, esfomeado, magro, feio, mal vestido – essa gentalha, enfim, que enfeia nossa festa – te bater à porta e pedir um prato de comida, um trocado, um brinquedo, coisas assim… eu te peço que não lhe bata a porta na cara – afinal, pode muito bem ser o aniversariante!

    (Nelson Castelo Branco Eulálio Filho é mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará – UFC)

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