Dom Casmurro: Bento Santiago e a oração como moeda na relação entre Deus e o homem

Vinâncio Silva é professor de português e engajado na Paróquia São João Paulo II, em Maracanaú. O jovem passa a escrever semanalmente para o blog.

Em Dom Casmurro, um dos maiores romances de Machado de Assis e de toda a literatura brasileira, o opulento Bento Santiago, ao falar das pessoas que lhe são mais próximas, sempre enxerga nelas alguma cobiça.

Cena da minissérie Capitu, de Luiz Fernando Carvalho – Capitu (Letícia Persiles) e Bentinho (César Cardadeiro)

Bentinho nos faz saber que: José Dias, o agregado, é um especulador; incentiva Bentinho a ir à Europa estudar Direito, porque pretende acompanhá-lo e, assim, satisfazer sua ambição de tornar à Europa. Capitu, sua amiga de infância, deslumbrava-se com Júlio César, “um homem que dava a uma senhora uma pérola do valor de seis milhões de sestércios”. Padre Cabral, que ensina latim a Bentinho, gostava da comida fina e rara, a qual podia encontrar na cozinha da mãe de Bento, Dona Glória, cuja casa frequentava e a quem não deixava de agradar. No capítulo LII, Bentinho dá a entender que são razões de ordem econômica que fazem o Sr. Pádua, o pai de Capitu, querer a filha unida a ele.

Mas o discurso humano é “um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se”, e vale notar que é a partir do discurso de Bento Santiago que vemos sobressair alguma suposta cobiça das outras personagens. Ocorre que, se observarmos bem, é Bentinho o excessivamente apegado ao dinheiro, tanto que sua relação com Deus é marcadamente mercantilista. Vemos no capítulo XX que Bentinho, quando ainda criança, faz promessas e usa orações como moeda para comprar favores divinos, embora não as cumprisse, mesmo alcançando o bem requerido. No capítulo XXVII, Bento dá dinheiro a um mendigo não para ajudá-lo, mas para comprar-lhe as orações, a fim de que Deus satisfizesse os seus desejos.

A escritora americana Helen Caldwell, à página 37 do seu famoso e importante estudo sobre Dom Casmurro, “O Otelo Brasileiro de Machado de Assis” (tradução de Fábio Fonseca de Melo, Ateliê Editorial, 2002), observa que Bento Santiago, “além de suspeitar que todos têm um olho na fortuna de sua família, está sempre falando de dinheiro. Ele reduz a relação mais sagrada entre Deus e o homem ao calão dos negócios financeiros.”

Às vezes temos grande dificuldade de sair da nossa esfera de interesses e de perceber que os interesses das pessoas que estão ao nosso redor nem sempre são os nossos. Apontar no outro um defeito que sobeja em nós é um conhecido mecanismo de defesa. Reparamos o cisco que está no olho do outro sem (querer) perceber a trave que está no nosso (cf. Mt 7, 3).

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